O que o artigo discute O aumento nos casos de autismo diagnosticados nas últimas décadas gerou um debate importante no campo da pediatria e da saúde pública: estamos diante de uma epidemia real, ou o sistema de diagnóstico está sendo aplicado de forma mais ampla do que o necessário? Esse artigo de revisão, publicado no suplemento 2026 do Jornal de Pediatria, propõe uma análise crítica e multifatorial dessa questão, sem simplificações. A resposta, como os dados mostram, não é simples. Objetivo do estudo Analisar criticamente os fatores que influenciam as estimativas de prevalência do transtorno do espectro autista (TEA), considerando determinantes metodológicos, clínicos, etiológicos e socioculturais que moldam os dados epidemiológicos e as práticas diagnósticas. Em outras palavras: entender por que os números de autismo cresceram tanto e o que esses números realmente significam. O que os dados epidemiológicos mostram Panorama global Os primeiros dados epidemiológicos sobre autismo foram publicados em 1966 por Victor Lotter, no Reino Unido, apontando uma prevalência de 4,5 casos por 10.000 crianças. Hoje, as estimativas globais indicam que aproximadamente 1% da população mundial se encontra no espectro autista, com variações significativas conforme a região e a metodologia adotada. Uma metanálise baseada em 74 estudos com mais de 30 milhões de participantes estimou a prevalência global do autismo em 0,6% (IC 95%: 0,4 a 1%), com variações regionais de 0,4% na Ásia, 1% nas Américas e África, 0,5% na Europa e até 1,7% na Austrália. Estados Unidos Dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), por meio da Rede de Monitoramento do Autismo e Deficiências do Desenvolvimento (ADDM), registraram prevalência de 1 em 31 crianças de 8 anos em 2022, equivalente a 3,2%. Esse número variou de 0,97% em Laredo, Texas, a 5,31% na Califórnia, evidenciando disparidades metodológicas e regionais intensas dentro do mesmo país. Brasil O Censo 2022, realizado pelo IBGE, identificou 2,4 milhões de pessoas que relataram ter recebido diagnóstico de TEA de um profissional de saúde, representando 1,2% da população nacional. A prevalência foi maior entre crianças de 5 a 9 anos (2,6%), com destaque para meninos nessa faixa etária (3,8%). Por que os números de autismo cresceram tanto? O artigo identifica cinco grandes grupos de fatores que explicam o aumento. Nenhum deles age isoladamente. 1. Fatores metodológicos A forma como um estudo é desenhado determina diretamente os resultados. Três elementos são centrais: Definição de caso: quais critérios são usados para classificar alguém como autista. Desde o DSM-III (1980) até o DSM-5 (2013), o conceito de espectro foi sendo ampliado, incorporando perfis que antes não receberiam o diagnóstico. Identificação de caso: como os indivíduos são localizados para compor a amostra, seja por bancos de dados populacionais, escolas, hospitais ou centros de tratamento. Avaliação de caso: quais instrumentos são usados. No TEA, a ausência de marcadores biológicos torna a padronização metodológica e o treinamento dos avaliadores essenciais para garantir confiabilidade diagnóstica. 2. Fatores demográficos Estudos concentrados em regiões urbanas e em famílias com maior renda e escolaridade tendem a registrar prevalências mais altas, provavelmente pelo acesso mais fácil a serviços de saúde e diagnóstico especializado. Populações rurais e socialmente vulneráveis permanecem sub-representadas. Em muitos países, o diagnóstico formal de TEA é requisito para acesso a serviços públicos, o que cria incentivos institucionais e familiares para a obtenção de laudos, podendo inflar os números. 3. Fatores clínicos e etiológicos O TEA raramente ocorre de forma isolada. Segundo Lai et al. (2014), cerca de 70% dos indivíduos com TEA apresentam pelo menos uma comorbidade psiquiátrica, e aproximadamente 40% apresentam duas ou mais. Transtornos de ansiedade, TDAH, distúrbios de linguagem e deficiência intelectual se sobrepõem frequentemente aos sinais centrais do autismo, dificultando o processo diagnóstico. Um estudo recente reavaliou crianças de 5 a 12 anos que já tinham diagnóstico de TEA estabelecido fora de contexto de pesquisa. Dos 232 participantes, 53% tiveram o diagnóstico confirmado e 47% não preencheram os critérios formais na reavaliação. As crianças sem confirmação tendiam a apresentar outros transtornos, como ansiedade e déficits de atenção. Do ponto de vista genético, pesquisas genômicas identificaram centenas de variantes associadas ao autismo. No entanto, nenhuma mutação isolada responde pela maioria dos casos, o que reforça a natureza poligênica e complexa do transtorno. 4. Avanços em tecnologia e ciência O aprimoramento de instrumentos padronizados como o ADOS-2 e o ADI-R ampliou a sistematização das avaliações. Estudos de neuroimagem identificaram padrões atípicos de conectividade cerebral em crianças autistas, reafirmando a base biológica do transtorno ainda que sem gerar biomarcadores clinicamente aplicáveis. Uma tecnologia recente chamada Earlipoint foi desenvolvida para detectar sinais de autismo em crianças entre 16 e 30 meses, usando rastreamento ocular e algoritmos de inteligência artificial para gerar diagnóstico objetivo. É considerada o primeiro biomarcador diagnóstico para autismo. Esses avanços tornam os critérios diagnósticos mais sensíveis, ampliam a faixa etária para o diagnóstico e aprimoram os métodos de triagem populacional, o que contribui para o aumento dos números registrados. 5. Fatores socioculturais A crescente conscientização pública sobre o autismo, impulsionada por campanhas, figuras públicas e mídias sociais, reduziu o estigma e incentivou mais pessoas a buscarem avaliação diagnóstica, incluindo adultos que viveram décadas sem identificação formal. Ao mesmo tempo, o fenômeno da infodemia, superabundância de informações imprecisas ou não verificadas que circulam nas redes, favoreceu o autodiagnóstico. Quando autorrelatos são incluídos em pesquisas populacionais, eles podem influenciar as estimativas de prevalência. A expansão do número de profissionais habilitados a realizar o diagnóstico também nem sempre foi acompanhada de treinamento adequado, abrindo espaço para aplicação imprecisa dos critérios clínicos. Três conceitos para entender a dinâmica dos dados O artigo apresenta três termos derivados da análise de tendências longitudinais que ajudam a interpretar o que os números de autismo realmente revelam: Acentuação: os diagnósticos estão ocorrendo progressivamente mais cedo em coortes de nascimento mais recentes. Os casos estão sendo identificados em idades cada vez mais precoces, graças a programas de triagem sistematizados. Ausência de platô: as curvas de prevalência não estabilizam. Mesmo em coortes mais velhas, novos diagnósticos continuam surgindo, revelando adultos que não foram
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