Impacto do nirsevimabe nas hospitalizações por vírus sincicial respiratório (VSR) e outras infecções respiratórias em menores de 5 anos Sobre o Artigo As infecções respiratórias agudas do trato respiratório inferior representam uma das principais causas de hospitalização em crianças menores de 5 anos, sendo o VSR o agente etiológico mais frequente. A introdução do nirsevimabe, um anticorpo monoclonal de longa duração, modificou significativamente a estratégia preventiva contra o VSR. Embora estudos clínicos e dados de vida real tenham demonstrado redução importante das hospitalizações por VSR após a introdução do nirsevimabe, ainda existiam poucas evidências sobre a manutenção desse benefício durante a segunda temporada pós-implementação e sobre possíveis efeitos na epidemiologia de outras infecções respiratórias. O objetivo do estudo foi avaliar o impacto da implementação universal do nirsevimabe nas hospitalizações e admissões em UTI pediátrica por infecções respiratórias agudas do trato inferior, tanto relacionadas quanto não relacionadas ao VSR, em crianças menores de 5 anos. Métodos Utilizados Estudo retrospectivo, observacional, descritivo e de centro único realizado no Hospital Universitário Joan XXIII, em Tarragona, Espanha. Foram incluídas crianças menores de 5 anos hospitalizadas por infecções respiratórias agudas do trato inferior durante as temporadas de circulação do VSR entre 2018 e 2025, excluindo-se a temporada 2020–2021 devido às alterações epidemiológicas associadas à pandemia de COVID-19. Os pesquisadores coletaram: Número total de hospitalizações; Idade na admissão; Tempo de internação; Necessidade de admissão em UTI pediátrica; Necessidade de ventilação mecânica ou ventilação não invasiva; Duração do suporte respiratório; Uso prévio de nirsevimabe ou palivizumabe; Presença de comorbidades. As análises compararam os períodos pré-nirsevimabe e pós-nirsevimabe, além da comparação entre a primeira e a segunda temporadas após sua implementação. Resultados Foram avaliadas 1.384 hospitalizações por infecções respiratórias agudas do trato inferior em crianças menores de 5 anos. Principais achados: 661 casos (47,7%) tiveram confirmação de VSR. 375 crianças (27%) necessitaram de internação em UTI pediátrica. Após a introdução do nirsevimabe, as hospitalizações por VSR diminuíram de 5,0 para 2,5 casos por 1.000 crianças menores de 5 anos (P < 0,001). As hospitalizações por infecções respiratórias não relacionadas ao VSR também reduziram, passando de 5,16 para 3,54 casos por 1.000 crianças (P = 0,004). As admissões em UTI por infecções respiratórias diminuíram de 2,9 para 1,3 casos por 1.000 crianças (P < 0,001). Houve redução significativa das hospitalizações por VSR em lactentes menores de 6 meses. Os pacientes internados no período pós-nirsevimabe eram mais velhos do que aqueles do período pré-implementação. A proporção de pacientes necessitando UTI caiu de 28,6% para 22,2% (P = 0,028). Não houve aumento compensatório de hospitalizações por vírus não-VSR. Não foram observadas diferenças relevantes entre a primeira e a segunda temporadas pós-implementação quanto a: Hospitalizações; Necessidade de suporte respiratório; Internação em UTI; Tempo de permanência hospitalar. Entre os pacientes admitidos em UTI por VSR nas duas temporadas pós-implementação: 69% nunca haviam recebido nirsevimabe. 17% haviam recebido na temporada anterior. 14% haviam recebido na mesma temporada. Discussão Os resultados confirmam a efetividade do nirsevimabe observada em ensaios clínicos e estudos de vida real, demonstrando redução sustentada das hospitalizações e dos casos graves de VSR. Os autores destacam que a proteção foi mais evidente em lactentes menores de 6 meses, população-alvo da estratégia universal. Não foi observada redução clara das hospitalizações por VSR em crianças entre 6 e 12 meses durante a segunda temporada, sugerindo perda gradual do efeito protetor ao longo do tempo. Um achado particularmente interessante foi a redução simultânea das hospitalizações por infecções respiratórias não relacionadas ao VSR. Os autores levantam a hipótese de que a prevenção da infecção grave por VSR nos primeiros meses de vida possa reduzir a vulnerabilidade subsequente a outras infecções respiratórias virais. Outro aspecto relevante foi a ausência de sinais de agravamento clínico em crianças que desenvolveram infecção por VSR após exposição prévia ao nirsevimabe, afastando preocupações históricas relacionadas ao fenômeno de doença respiratória potencializada observado com vacinas antigas contra VSR. As principais limitações incluem: Desenho retrospectivo; Estudo de centro único; Dados incompletos de imunização para todos os pacientes hospitalizados; Possível limitação na generalização dos resultados para outras populações. Conclusão A implementação universal do nirsevimabe esteve associada a uma redução sustentada das hospitalizações por VSR e das admissões em UTI pediátrica durante duas temporadas consecutivas após sua introdução. Além do benefício esperado contra o VSR, observou-se também redução das hospitalizações por infecções respiratórias não relacionadas ao VSR, sugerindo um impacto mais amplo na saúde respiratória infantil. Os autores reforçam a necessidade de vigilância contínua para avaliar os efeitos de longo prazo do nirsevimabe em diferentes populações e cenários epidemiológicos. Insights Clínicos (Perguntas e Respostas) O nirsevimabe continua eficaz na segunda temporada após sua implementação? Sim. A redução das hospitalizações por VSR e das admissões em UTI foi mantida durante as duas temporadas analisadas após a introdução universal do nirsevimabe. Qual foi o principal grupo beneficiado? Lactentes menores de 6 meses apresentaram a maior redução nas hospitalizações relacionadas ao VSR. O nirsevimabe reduziu apenas infecções por VSR? Não. O estudo observou também redução significativa das hospitalizações por infecções respiratórias não relacionadas ao VSR. Houve aumento da gravidade da doença por VSR após exposição prévia ao nirsevimabe? Não. Os autores não encontraram aumento de gravidade, necessidade de suporte respiratório ou tempo de internação em UTI entre crianças previamente expostas ao nirsevimabe. O benefício protetor persiste além da primeira temporada de VSR? Os dados sugerem que a proteção contra hospitalizações diminui ao longo do tempo, especialmente após o primeiro ano de vida, compatível com o declínio esperado dos níveis do anticorpo monoclonal. Qual a principal implicação para a prática clínica? Os resultados reforçam o uso universal do nirsevimabe como estratégia efetiva para reduzir hospitalizações, casos graves de VSR e demanda por leitos de UTI pediátrica, além de possivelmente melhorar a saúde respiratória global dos lactentes. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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