Vacinas contra o rotavírus são seguras e eficazes: por que nem todas as crianças estão protegidas?

Fonte: American Academy of Pediatrics

Vacinas contra o rotavírus são seguras e eficazes: por que nem todas as crianças estão protegidas? Sobre o artigo  A American Academy of Pediatrics (AAP) recomenda a vacinação rotineira contra o rotavírus para todos os lactentes elegíveis. Apesar da eficácia e do impacto da vacina sobre a morbidade associada à gastroenterite por rotavírus, a cobertura vacinal nos Estados Unidos permanece abaixo das metas de saúde pública. Cataldi e O’Leary discutem os resultados do estudo de Moran et al., publicado na mesma edição de Pediatrics, que avaliou a cobertura vacinal contra rotavírus e potenciais barreiras à vacinação entre crianças norte-americanas. Dados citados pelos autores mostram que apenas 75% das crianças dos Estados Unidos nascidas em 2020–2021 receberam a vacina contra rotavírus até os 8 meses de idade. A cobertura permanece inferior à observada para outras imunizações rotineiras da infância. O problema assume particular importância porque a vacina contra o rotavírus apresenta restrições relacionadas à idade de administração. Assim, atrasos nas consultas de puericultura ou no início do calendário vacinal podem resultar na perda da oportunidade de vacinação. O editorial destaca ainda um grupo particularmente vulnerável: os recém-nascidos prematuros que permanecem hospitalizados em unidades de terapia intensiva neonatal (UTIN) durante o período recomendado para início da vacinação. Métodos utilizados Trata-se de um comentário editorial, e não de um estudo clínico original. Os autores analisam e contextualizam os achados do estudo de Moran et al. e os confrontam com dados epidemiológicos, revisões, estudos observacionais e recomendações relacionadas à vacinação contra o rotavírus. O estudo de Moran et al. utilizou dados da New Vaccine Surveillance Network (NVSN) coletados entre 2014 e 2024 e avaliou crianças nascidas a partir de 2007, período posterior à inclusão da vacina contra rotavírus no calendário rotineiro de imunização infantil dos Estados Unidos. Entre os fatores demográficos e clínicos avaliados estavam prematuridade, situação de seguro de saúde, ano de nascimento e início da vacinação com DTaP. Os autores também discutem evidências previamente publicadas sobre administração da vacina contra rotavírus em UTIN, eliminação fecal do vírus vacinal, risco de transmissão e segurança da vacinação de prematuros hospitalizados. Resultados O estudo discutido no editorial identificou diferentes fatores associados à não iniciação, início tardio ou não conclusão da vacinação contra rotavírus. Os principais fatores identificados foram: início tardio da vacinação com DTaP, definido como idade igual ou superior a 15 semanas; prematuridade extrema; nascimento nos primeiros anos após a introdução da vacina contra rotavírus, especialmente entre 2007 e 2009; ausência de seguro de saúde. A vulnerabilidade dos prematuros extremos recebeu destaque. Entre os prematuros extremos que receberam DTaP, mais da metade ainda permanecia na UTIN aos 15 semanas de idade. Entre esses lactentes hospitalizados, 80% não receberam a vacina contra rotavírus, apesar de a maioria ter recebido DTaP durante a internação. As evidências apresentadas no editorial sugerem que o risco de transmissão da cepa vacinal dentro da UTIN é baixo. Uma revisão de 31 publicações identificou que a eliminação viral após a primeira dose é frequente, mas a transmissão foi rara e descrita apenas em ambientes domiciliares nos estudos avaliados. Um estudo recente do Children’s Hospital of Philadelphia encontrou a cepa vacinal do rotavírus em menos de 1% das amostras fecais de pacientes não vacinados em uma UTIN que realizava vacinação rotineira. Nenhum dos lactentes não vacinados que apresentou teste positivo desenvolveu sintomas gastrointestinais. Além disso, a vacinação produziu importante impacto populacional. Antes da utilização disseminada das vacinas contra rotavírus, ocorriam aproximadamente 55.000 a 70.000 hospitalizações anuais de lactentes nos Estados Unidos, com 50 a 100 mortes. Após a disseminação da vacinação, as hospitalizações por rotavírus diminuíram aproximadamente 80%, e os óbitos tornaram-se extremamente raros. Discussão O editorial sustenta que as barreiras atuais à vacinação contra rotavírus são particularmente relevantes porque a oportunidade para administrar a vacina é limitada pela idade. Problemas de acesso às consultas de puericultura podem, portanto, produzir impacto maior sobre a cobertura contra rotavírus do que sobre vacinas com maior flexibilidade temporal. A associação entre ausência de vacinação com DTaP e não recebimento da vacina contra rotavírus pode refletir tanto dificuldades de acesso aos serviços de saúde quanto hesitação vacinal dos responsáveis. Estudos anteriores também identificaram menor conclusão do esquema contra rotavírus entre crianças sem seguro de saúde ou cobertas pelo Medicaid. Pesquisas com pediatras identificaram ainda preocupações parentais sobre segurança e desejo dos pais de adiar a vacinação como obstáculos à imunização. Vacinação na UTIN Um dos principais argumentos clínicos do editorial é a necessidade de reavaliar políticas que dificultam a vacinação contra rotavírus durante a internação neonatal. O Red Book 2024–2027 afirma que instituições podem considerar a administração da vacina na idade cronológica recomendada para lactentes elegíveis durante a hospitalização, inclusive na UTIN. Segundo os autores, estudos conduzidos em diferentes países demonstram a segurança da vacinação contra rotavírus em unidades neonatais. Embora a eliminação fecal do vírus vacinal possa ocorrer após a vacinação, as evidências discutidas indicam que a transmissão efetiva é rara. Esses dados sustentam o argumento de que algumas restrições à vacinação em UTIN podem ser excessivas. Para prematuros que permanecem internados durante a janela de vacinação, não administrar a vacina no ambiente hospitalar pode significar perder definitivamente a oportunidade de imunização. Importância da vigilância epidemiológica Os autores também destacam a importância da New Vaccine Surveillance Network (NVSN), rede que há mais de duas décadas monitora a carga de doenças pediátricas e o impacto das vacinas após sua introdução. O editorial defende a continuidade do financiamento da NVSN, considerando a vigilância pós-licenciamento essencial para avaliar o impacto das vacinas, orientar políticas nacionais de imunização e manter uma abordagem baseada em evidências. O texto também discute criticamente mudanças recentes na política federal norte-americana relacionada à recomendação rotineira da vacina contra rotavírus e ressalta que a AAP continuará recomendando a imunização para todos os lactentes elegíveis. Conclusão A vacinação contra rotavírus apresenta elevado impacto na prevenção de doença grave e hospitalizações, mas sua cobertura permanece inadequada. Prematuridade extrema, hospitalização prolongada em UTIN, atraso no início de outras vacinas e dificuldades de acesso aos serviços de saúde

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