Identidade de gênero: 5 anos após transição social de gênero

Fonte: American Academy of Pediatrics

Identidade de gênero: 5 anos após transição social de gênero Sobre o artigo  O aumento do número de crianças que realizam transição social de gênero tem levantado questões sobre a estabilidade da identidade de gênero ao longo do desenvolvimento. A transição social pode envolver mudanças de nome, pronomes, vestimentas, penteado e outras formas de apresentação social para que a criança passe a viver de acordo com sua identidade de gênero. Uma das preocupações discutidas na literatura é a possibilidade de algumas crianças posteriormente modificarem novamente sua identidade ou apresentação de gênero, fenômeno denominado pelos autores de retransição. Entretanto, antes deste estudo havia poucos dados longitudinais que permitissem estimar a frequência desse fenômeno entre crianças que realizaram uma transição social completa. O objetivo do estudo foi determinar a frequência de retransição e a identidade de gênero atual de crianças aproximadamente cinco anos após sua transição social inicial, utilizando dados do Trans Youth Project. Métodos utilizados Foram avaliados 317 participantes do Trans Youth Project, estudo longitudinal que incluiu crianças entre 3 e 12 anos no momento do recrutamento, realizado entre julho de 2013 e dezembro de 2017. Todos os participantes haviam realizado uma transição social binária completa, incluindo mudança dos pronomes utilizados em relação àqueles associados ao sexo atribuído ao nascimento. A amostra era composta por: 208 meninas transgênero; 109 meninos transgênero; idade média de 8,1 anos no início do estudo; idade média de aproximadamente 6,5 anos na primeira transição social. As informações longitudinais foram obtidas diretamente dos participantes e/ou de seus responsáveis por avaliações presenciais, on-line, e-mails ou contatos telefônicos. A classificação final da identidade foi determinada pela interação mais recente disponível antes de 1º de janeiro de 2021. Os participantes foram classificados em três grupos principais: transgênero binário, não binário ou cisgênero. A classificação baseou-se principalmente nos pronomes utilizados no acompanhamento, complementados por outras informações disponíveis, incluindo autodefinição da criança e comunicações com os responsáveis. Os pesquisadores também realizaram análises em subgrupos, considerando idade da primeira transição social, uso de bloqueadores puberais, uso de hormônios de afirmação de gênero e duração do acompanhamento. Resultados Após uma média de 5,37 anos desde a primeira transição social, 7,3% dos participantes haviam realizado pelo menos uma retransição. Entretanto, a grande maioria permanecia vivendo com uma identidade transgênero binária: 94,0% estavam classificados como transgênero binário; 3,5% estavam classificados como não binários; 2,5% estavam classificados como cisgênero. Dentro dos 94% classificados como transgênero binário estavam incluídos quatro participantes, correspondentes a 1,3% da amostra total, que haviam realizado uma retransição para outra identidade e posteriormente retornado à identidade transgênero binária. Os resultados permaneceram semelhantes quando os pesquisadores analisaram separadamente participantes com acompanhamento recente, aqueles que ainda não haviam iniciado bloqueadores puberais no começo do estudo e aqueles acompanhados por pelo menos cinco anos após a primeira transição. Um possível efeito relacionado à idade foi identificado. Entre crianças que fizeram sua primeira transição social antes dos 6 anos, 7 de 124 participantes (5,6%) estavam posteriormente classificados como cisgênero. Entre aqueles cuja primeira transição ocorreu aos 6 anos ou mais, apenas 1 de 193 (0,5%) estava nessa categoria. A diferença foi estatisticamente significativa (P = 0,02). Não houve associação estatisticamente significativa entre o sexo atribuído ao nascimento e a identidade posterior (P = 0,47). Entre os oito participantes classificados como cisgênero no acompanhamento, todos, exceto um, haviam realizado a retransição até os 9 anos; o participante restante realizou-a aos 11 anos. Entre os 11 participantes classificados como não binários, seis realizaram a retransição entre 10 e 13 anos, enquanto os demais o fizeram antes dos 10 anos. Outro achado relevante foi a baixa frequência de retransição para identidade cisgênero entre participantes que haviam iniciado intervenções médicas. Entre aqueles que haviam utilizado bloqueadores puberais e/ou hormônios de afirmação de gênero, apenas um estava posteriormente classificado como cisgênero; esse participante havia utilizado bloqueadores, mas não hormônios de afirmação de gênero. Discussão Os resultados indicam que, nesta coorte específica de crianças que realizaram transição social precoce, a identidade transgênero binária permaneceu predominante aproximadamente cinco anos depois. Os autores destacam que a taxa de 7,3% de retransição não deve ser interpretada como equivalente a 7,3% de retorno à identidade cisgênero. A definição adotada pelo estudo também considerou como retransição a mudança de uma identidade transgênero binária para uma identidade não binária. Caso fosse utilizado um critério mais restrito, considerando somente participantes que passaram a viver de acordo com o gênero associado ao sexo atribuído ao nascimento, a proporção seria de 2,5%. Os autores também discutem as diferenças entre seus resultados e estudos históricos sobre "persistência" e "desistência" da disforia de gênero na infância. Segundo o artigo, comparações diretas são problemáticas porque as populações estudadas anteriormente diferiam em aspectos importantes: muitas crianças não haviam realizado transição social completa, os estudos ocorreram em contextos históricos distintos, havia diferentes níveis de apoio familiar e alguns apresentavam perdas substanciais durante o acompanhamento. O estudo não permite estabelecer causalidade entre apoio familiar ou transição social precoce e manutenção posterior da identidade transgênero. Entre as principais limitações estão o uso de uma amostra comunitária voluntária, maior nível socioeconômico das famílias em comparação com a população geral, utilização dos pronomes como principal critério classificatório e possibilidade de viés de seleção. Além disso, os participantes haviam realizado a transição social, em média, 1,6 ano antes de ingressarem no estudo, o que pode ter excluído crianças que experimentaram uma transição social por períodos muito curtos. Os autores ressaltam ainda que as identidades observadas no acompanhamento não devem ser consideradas necessariamente definitivas, pois os participantes continuarão atravessando adolescência e vida adulta e novas mudanças podem ocorrer. Conclusão Nesta coorte longitudinal de 317 crianças que realizaram transição social binária precoce, 94% permaneciam vivendo como jovens transgênero binários aproximadamente cinco anos após a primeira transição social. Retransições ocorreram em 7,3% da amostra, porém somente 2,5% estavam classificados como cisgênero ao final do período avaliado. Mudanças posteriores para identidade cisgênero foram mais frequentes entre crianças cuja primeira transição social ocorreu antes dos 6 anos e, nesses casos, geralmente aconteceram antes dos 10 anos. Os

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