Uso de imunizantes contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR): vacinação em gestantes e uso de anticorpos monoclonais em crianças. Sobre o artigo O vírus sincicial respiratório (VSR) é apontado como a causa mais comum de bronquiolite, pneumonia e hospitalização em crianças menores de um ano, além de estar associado a repercussões respiratórias de longo prazo. Globalmente, são estimados aproximadamente 33 milhões de episódios anuais de infecção respiratória aguda associada ao VSR em menores de cinco anos, dos quais cerca de 3,6 milhões requerem hospitalização e entre 66 mil e 199 mil resultam em óbito. Embora prematuros e crianças com determinadas comorbidades apresentem maior risco de doença grave, a maior parte das hospitalizações pediátricas por VSR ocorre em crianças previamente saudáveis. Dados brasileiros citados no documento mostram que 81% dos casos de VSR de uma coorte ocorreram em crianças nascidas a termo, embora os prematuros apresentassem risco significativamente maior de infecção respiratória aguda por VSR, com RR de 2,26. Nesse contexto, duas estratégias ampliaram as possibilidades de prevenção da doença grave nos primeiros meses de vida: a vacinação materna contra o VSR, permitindo transferência placentária de anticorpos, e a imunização passiva da criança com anticorpos monoclonais, particularmente o nirsevimabe. Métodos utilizados O documento não corresponde a um ensaio clínico original, revisão sistemática ou metanálise. Trata-se de um guia prático e posicionamento conjunto de sociedades médicas brasileiras, elaborado pelo Departamento Científico de Imunizações da SBP em conjunto com recomendações da SBIm e FEBRASGO. As orientações são fundamentadas em ensaios clínicos, estudos de efetividade em vida real, documentos do Ministério da Saúde e posicionamentos científicos. Entre as principais evidências analisadas estão: o estudo fase 3 MATISSE, ensaio clínico duplo-cego e randomizado com mais de 7.400 gestantes, para avaliação da vacinação materna; estudos clínicos e dados de vida real sobre o palivizumabe; estudos fase 2b e MELODY, entre outros ensaios, para avaliação do nirsevimabe; diretrizes do Programa Nacional de Imunizações (PNI) para vacinação materna e transição do palivizumabe para nirsevimabe. O documento sintetiza eficácia, segurança, apresentação, doses, administração, sazonalidade e critérios clínicos para utilização dessas estratégias no Brasil. Resultados Vacinação materna com Abrysvo A Abrysvo é a vacina contra VSR licenciada no Brasil para utilização em gestantes. É uma vacina inativada constituída por glicoproteínas F recombinantes dos subgrupos A e B do VSR. No estudo MATISSE, a vacinação durante a gestação apresentou eficácia de: 81,8% (IC 95%: 40,6–96,3) para prevenção de doença grave do trato respiratório inferior causada pelo VSR nos primeiros três meses de vida; 69,4% (IC 95%: 44,3–84,1) até os seis meses de vida. Segundo o documento, estudos de efetividade realizados em programas de imunização da Argentina, Reino Unido e Estados Unidos confirmaram os achados de eficácia e segurança que fundamentaram o licenciamento. O PNI recomenda a vacina para gestantes a partir da 28ª semana de gestação, sem limite superior de idade gestacional ou idade materna, em qualquer época do ano. O esquema é de uma dose de 0,5 mL, por via intramuscular, a cada gestação. A vacina pode ser administrada concomitantemente às vacinas contra influenza, COVID-19, dTpa e hepatite B, desde que em locais anatômicos distintos. Os eventos adversos são predominantemente leves e autolimitados. Entre as manifestações locais estão dor, eritema e edema; entre as sistêmicas, fadiga, cefaleia, mialgia, artralgia e dor nas extremidades. Palivizumabe O palivizumabe é um anticorpo monoclonal IgG1 humanizado dirigido contra a proteína F do VSR. Os estudos citados demonstraram redução de aproximadamente 55% nas hospitalizações por VSR em lactentes de alto risco, além de redução do tempo de hospitalização, necessidade de oxigênio suplementar e admissão em terapia intensiva. O esquema consiste em 15 mg/kg por via intramuscular mensalmente, em até cinco aplicações durante a sazonalidade. O documento destaca que, em 2026, o PNI iniciou uma transição progressiva do palivizumabe para o nirsevimabe. Uma vez iniciado o esquema com palivizumabe, recomenda-se completar as cinco doses com o mesmo produto, sem intercambialidade com nirsevimabe durante a mesma sazonalidade. Na ausência de palivizumabe, o nirsevimabe é indicado para crianças elegíveis. Nirsevimabe O nirsevimabe é um anticorpo monoclonal de longa ação que se liga à proteína F do VSR, bloqueando a entrada viral nas células. Sua eficácia foi demonstrada em estudos envolvendo prematuros, prematuros tardios e lactentes nascidos a termo. A análise agrupada dos estudos fase 2b e MELODY mostrou: 79,5% de eficácia contra infecção do trato respiratório inferior por VSR com necessidade de atendimento médico; 77,3% de eficácia na prevenção de hospitalização por infecção do trato respiratório inferior associada ao VSR; 86% de eficácia contra formas muito graves da doença. Para a primeira sazonalidade, o esquema descrito é: crianças com menos de 5 kg: 50 mg IM, dose única; crianças com 5 kg ou mais: 100 mg IM, dose única. Para crianças elegíveis de alto risco na segunda sazonalidade, recomenda-se 200 mg, administrados como duas aplicações de 100 mg em locais anatômicos distintos. O PNI recomenda nirsevimabe, independentemente da vacinação materna, para prematuros com idade gestacional inferior a 37 semanas e menores de seis meses, podendo ser administrado em qualquer época do ano, e para crianças com comorbidades elegíveis até antes dos 24 meses, nesse caso durante a sazonalidade. A SBP e a SBIm apresentam recomendações mais abrangentes, incluindo recém-nascidos de mães não vacinadas, recém-nascidos de mães imunossuprimidas mesmo quando vacinadas, crianças cujo parto ocorreu menos de 14 dias após a vacinação materna, prematuros menores de 37 semanas até 12 meses e crianças menores de 24 meses com comorbidades elegíveis. As comorbidades mencionadas são doença pulmonar crônica da prematuridade, cardiopatia congênita hemodinamicamente significativa, imunocomprometimento, síndrome de Down, fibrose cística, doença neuromuscular e anomalias congênitas das vias aéreas. O documento também admite situações de decisão compartilhada entre pediatra e família, considerando o risco epidemiológico e individual. Discussão O posicionamento evidencia uma mudança importante na prevenção do VSR no Brasil: a proteção deixa de estar concentrada exclusivamente em determinados grupos pediátricos de alto risco e passa a incorporar estratégias capazes de proteger lactentes desde o nascimento. A vacinação materna oferece anticorpos ao feto por transferência placentária e protege principalmente durante
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