Ingestão Precoce de Aminoácidos em Recém-Nascidos com Extremo Baixo Peso ao Nascer: Desfechos na Idade Escolar de um Estudo Randomizado Controlado Sobre o artigo A oferta precoce de proteínas após o nascimento prematuro é recomendada com o objetivo de favorecer crescimento, desenvolvimento cerebral e neurodesenvolvimento. Entretanto, permanece incerta a quantidade ideal de proteína, particularmente em recém-nascidos com extremo baixo peso ao nascer. O estudo apresenta o seguimento em idade escolar do ensaio ProVIDe (Protein Intravenous Nutrition on Development), que randomizou recém-nascidos ELBW para receber aminoácidos parenterais adicionais ou placebo nos primeiros cinco dias de vida. Na avaliação prévia aos 2 anos de idade corrigida, a proporção de sobreviventes sem neuroincapacidade foi semelhante entre os grupos. Contudo, os participantes que receberam aminoácidos adicionais apresentaram maior risco de neuroincapacidade moderada ou grave: 16,5% versus 8,6%, com risco relativo ajustado de 1,95 (IC95% 1,09–3,48). Como avaliações realizadas aos 2 anos possuem capacidade limitada para predizer os desfechos neurocognitivos posteriores de crianças ELBW, os pesquisadores realizaram novo acompanhamento aos 6–7 anos. O objetivo foi determinar se a suplementação precoce com aminoácidos produziria diferenças em neurocognição, função cardiometabólica, composição corporal, força muscular, saúde geral e funcionamento psicossocial na idade escolar. A hipótese dos pesquisadores era que a maior oferta de aminoácidos melhoraria função neurocognitiva, massa magra e força muscular, sem efeitos adversos sobre pressão arterial, desenvolvimento emocional e comportamental, saúde física ou funcionamento psicossocial. Métodos utilizados O ProVIDe foi um ensaio clínico randomizado, multicêntrico, duplo-cego e controlado por placebo. Originalmente, 434 recém-nascidos ELBW foram randomizados nas primeiras 24 horas de vida para: Intervenção: 1 g/dia adicional de aminoácidos parenterais, utilizando solução de TrophAmine 8,5%, durante cinco dias, além da nutrição habitual; Controle: placebo, associado à nutrição habitual. A intervenção foi administrada por cateter arterial umbilical. Nos primeiros sete dias, a ingestão parenteral média de aminoácidos foi de 3,4 ± 0,6 g/kg/dia no grupo intervenção e 2,6 ± 0,6 g/kg/dia no grupo placebo. O ensaio original foi conduzido em seis unidades neonatais terciárias da Nova Zelândia e duas da Austrália entre 2014 e 2018. Para o seguimento escolar, foram incluídas apenas as crianças recrutadas na Nova Zelândia. A avaliação ocorreu entre 6 e 7 anos de idade corrigida, com examinadores cegos para a alocação neonatal. O desfecho primário foi sobrevivência sem comprometimento neurocognitivo, definido como escore padronizado <85 em pelo menos um teste do NIH Toolbox. Foram definidos 15 desfechos secundários clinicamente relevantes, incluindo: escore cognitivo composto; comprometimento neurocognitivo moderado-grave; comprometimento motor; função executiva; percepção de movimento; desempenho educacional; massa magra; força de preensão manual; pressão arterial; crescimento; sobrepeso/obesidade; funcionamento físico; funcionamento psicossocial. A cognição, linguagem e função motora foram avaliadas com sete componentes do NIH Toolbox. Numeracia, desempenho escolar, composição corporal, força muscular e pressão arterial também foram avaliados por instrumentos específicos. Aspectos emocionais e comportamentais foram avaliados pelo Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ), enquanto saúde física e funcionamento psicossocial foram avaliados pelo Child Health Questionnaire (CHQ). A análise principal seguiu abordagem de intenção de tratar modificada, utilizando modelos lineares generalizados mistos e ajustes para centro, sexo, pequeno para idade gestacional, índice de privação socioeconômica e não independência decorrente de gestações múltiplas. Resultados Dos 382 participantes originalmente recrutados na Nova Zelândia, 71 morreram e dois foram retirados do estudo. Assim, 309 crianças eram elegíveis para o acompanhamento escolar. Foram efetivamente avaliadas 280 crianças, correspondendo a aproximadamente 90% dos elegíveis, com idade corrigida média de 6,3 ± 0,4 anos: 138 no grupo aminoácidos; 142 no grupo placebo. Desfecho neurocognitivo primário A sobrevivência sem comprometimento neurocognitivo foi semelhante: Aminoácidos: 20,9% Placebo: 23,3% Diferença de risco ajustada: −5,0 pontos percentuais (IC95% −12,8 a 2,7; P=0,21). Portanto, não houve evidência de benefício neurocognitivo em idade escolar decorrente da administração adicional precoce de aminoácidos. O comprometimento neurocognitivo moderado-grave também foi semelhante: aminoácidos: 40,9%; placebo: 38,6%. O baixo desempenho educacional foi frequente nos dois grupos: aminoácidos: 70,0%; placebo: 66,9%. Força muscular Um dos principais achados foi a menor força muscular no grupo que recebeu aminoácidos adicionais. O z-score de força relativa de preensão manual foi: aminoácidos: −0,73 ± 1,01; placebo: −0,33 ± 1,17. Diferença média ajustada: −0,39 (IC95% −0,65 a −0,13). A força de preensão combinada absoluta também foi menor: 18,6 kg no grupo aminoácidos; 19,8 kg no placebo. Apesar disso, o índice de massa magra e outros indicadores relacionados à massa muscular foram semelhantes entre os grupos. Funcionamento psicossocial Houve também sinal de maior frequência de baixo funcionamento psicossocial: aminoácidos: 26,0%; placebo: 17,9%. Diferença de risco ajustada: 10,7 pontos percentuais (IC95% −1,3 a 22,6), com risco relativo ajustado de 1,82 (IC95% 1,07–3,09). Os autores ressaltam, entretanto, a imprecisão dessa estimativa e a possibilidade de o resultado decorrer do acaso. Outros desfechos Não foram observadas diferenças relevantes entre os grupos para a maioria dos demais desfechos, incluindo: escore cognitivo composto; disfunção executiva; comprometimento motor; massa magra; crescimento; sobrepeso/obesidade; pressão arterial elevada ou hipertensão; funcionamento físico; dificuldades emocionais e comportamentais. Nas análises por subgrupo, houve alguma evidência de pior percepção global de movimento entre meninos que receberam aminoácidos adicionais, sugerindo um possível efeito dependente do sexo, mas esse achado deve ser interpretado com cautela. Os resultados principais permaneceram semelhantes após ajuste adicional pela idade gestacional e na análise per protocol. Discussão O principal resultado do estudo é que aumentar precocemente a oferta parenteral de aminoácidos não proporcionou benefício neurocognitivo detectável aos 6–7 anos. Também é relevante a evolução dos resultados em relação à avaliação aos 2 anos. O maior risco de neuroincapacidade moderada-grave anteriormente observado no grupo intervenção não persistiu na idade escolar. Aos 6–7 anos, as taxas de comprometimento neurocognitivo moderado-grave foram elevadas e semelhantes nos dois grupos. Esse achado reforça, segundo os autores, a importância de acompanhar populações neonatais de alto risco até a idade escolar, período em que funções cognitivas superiores, como função executiva e integração visuomotora, podem ser avaliadas de maneira mais adequada. Outro resultado inesperado foi a redução da força muscular entre as crianças que receberam aminoácidos adicionais. A hipótese original previa justamente o contrário. Entretanto, como massa magra e área muscular do braço foram semelhantes,
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