Acurácia diagnóstica da taquipneia para predizer mortalidade e identificar sepse em lactentes jovens de 0 a 59 dias: revisão sistemática e metanálise Sobre o artigo A identificação precoce de recém-nascidos e lactentes jovens com risco de sepse ou morte é particularmente importante em contextos nos quais exames laboratoriais não estão prontamente disponíveis. Nesse cenário, sinais clínicos simples assumem papel central na triagem e na tomada de decisão. A taquipneia, frequentemente definida nessa faixa etária como frequência respiratória ≥60 incursões por minuto (irpm), é considerada um sinal clínico de possível infecção bacteriana grave e integra algoritmos como o Integrated Management of Childhood Illness (IMCI) da Organização Mundial da Saúde. Entretanto, a frequência respiratória neonatal apresenta grande variabilidade fisiológica, sobretudo nos primeiros dias de vida. Além disso, a taquipneia transitória do recém-nascido pode produzir aumento da frequência respiratória sem associação com infecção. Dessa forma, o ponto de corte ideal para identificar lactentes com maior risco permanece incerto. O objetivo desta revisão sistemática e metanálise foi avaliar a acurácia de diferentes limiares de taquipneia — ≥60, ≥70 e ≥80 irpm — para predizer mortalidade e identificar sepse em lactentes de 0 a 59 dias, incluindo a investigação de possíveis diferenças entre os primeiros 6 dias de vida e o período de 7–59 dias. Métodos utilizados Foi realizada revisão sistemática e metanálise segundo protocolo registrado no PROSPERO (CRD42023431387) e com relato de acordo com as recomendações PRISMA. Foram pesquisadas as bases MEDLINE, Embase, CINAHL, Global Index Medicus e CENTRAL, desde o início de cada base até maio de 2023, com atualização da busca em setembro de 2024. Também foram avaliadas referências de estudos relevantes. Foram elegíveis estudos envolvendo lactentes de 0–59 dias que avaliaram taquipneia em diferentes pontos de corte, principalmente: ≥60 irpm; ≥70 irpm; ≥80 irpm. Os principais desfechos de referência foram mortalidade e sepse confirmada por cultura. A sepse clínica também foi analisada como desfecho adicional. Foram extraídas medidas de associação e de acurácia diagnóstica, incluindo odds ratio (OR), sensibilidade, especificidade e razões de verossimilhança. Os ORs agrupados foram estimados por modelos de efeitos aleatórios. Sensibilidade e especificidade foram combinadas utilizando modelos bivariados de efeitos aleatórios ou curvas hierárquicas summary receiver operating characteristic, conforme o número de estudos disponíveis. A qualidade metodológica foi avaliada com QUAPAS, QUADAS-2 e Newcastle–Ottawa Scale, conforme o tipo de análise. A certeza global da evidência foi avaliada pelo sistema GRADE. Resultados A busca identificou 7.641 estudos nas bases de dados, além de 28 registros provenientes de outras fontes. Após o processo de seleção, 18 estudos, envolvendo um total de 92.398 lactentes, foram incluídos. A maioria dos estudos foi realizada em países de baixa e média renda. Houve estudos comunitários, ambulatoriais e hospitalares, incluindo unidades de terapia intensiva neonatal. Taquipneia ≥60 irpm e mortalidade A presença de frequência respiratória ≥60 irpm esteve significativamente associada à mortalidade: OR agrupado: 3,14 (IC95% 1,30–7,56). Portanto, lactentes com taquipneia ≥60 irpm apresentaram aproximadamente três vezes maiores chances de morte em comparação aos que não apresentavam esse sinal. Entretanto, como teste isolado para mortalidade, seu desempenho foi caracterizado por baixa sensibilidade e relativamente alta especificidade: Sensibilidade: 31% (IC95% 19–45%) Especificidade: 89% (IC95% 66–97%) A razão de verossimilhança positiva (LR+) foi 2,82 e a negativa (LR−), 0,78. Taquipneia ≥70 irpm e mortalidade A elevação do ponto de corte aumentou consideravelmente a associação com mortalidade: OR: 10,06 (IC95% 2,39–42,35). Entretanto, houve importante redução da sensibilidade: Sensibilidade: 10,9% Especificidade: 99,4% Assim, esse limiar identifica um grupo de altíssimo risco quando presente, mas deixa de reconhecer grande proporção dos lactentes que posteriormente evoluem para óbito. Taquipneia ≥80 irpm e mortalidade Apenas um estudo avaliou adequadamente esse limiar. A associação encontrada foi: OR: 44,4 (IC95% 13,8–142,6). A sensibilidade foi de apenas 5,7%, enquanto a especificidade alcançou 99,9%. Esses resultados reforçam o padrão observado: quanto maior o ponto de corte da frequência respiratória, maior a especificidade e a associação com mortalidade, porém menor a capacidade de rastrear todos os lactentes em risco. Sepse confirmada por cultura Para frequência respiratória ≥60 irpm: OR: 1,26 (IC95% 0,66–2,38). A associação não foi estatisticamente significativa. A acurácia também foi limitada: Sensibilidade: 28% (IC95% 10–58%) Especificidade: 67% (IC95% 53–78%) O LR+ foi 0,85 e o LR−, 1,07, indicando desempenho muito limitado da taquipneia isolada para identificar sepse confirmada microbiologicamente. Sepse clínica Para taquipneia ≥60 irpm, houve associação significativa com sepse clínica: OR: 3,07 (IC95% 1,68–5,62). A sensibilidade foi de 49% (IC95% 31–67%) e a especificidade de 70% (IC95% 58–80%). Os autores alertam, entretanto, para possível viés de incorporação, pois a própria taquipneia pode participar do julgamento clínico utilizado para estabelecer o diagnóstico de sepse clínica. Influência da idade pós-natal A quantidade de dados disponíveis foi insuficiente para uma avaliação robusta dos subgrupos de 0–6 e 7–59 dias. Para sepse clínica, a taquipneia ≥60 irpm não apresentou associação estatisticamente significativa durante a primeira semana: OR 2,35 (IC95% 0,59–9,31). A partir de 7 dias, entretanto, a associação foi maior: OR 5,31 (IC95% 2,76–10,20). Os autores consideram que a presença frequente de taquipneia transitória do recém-nascido no período neonatal inicial pode influenciar o desempenho desse sinal. A certeza global da evidência pelo GRADE foi classificada como muito baixa. Discussão O principal achado da metanálise é que a taquipneia ≥60 irpm constitui um marcador relevante de risco de mortalidade, mas apresenta desempenho insuficiente quando utilizada isoladamente como ferramenta de rastreamento. Embora a especificidade para mortalidade seja relativamente elevada, a sensibilidade de 31% significa que uma parcela substancial dos lactentes que evoluem para óbito não apresentará esse sinal. O mesmo problema é observado na sepse. Para sepse confirmada por cultura, a taquipneia isoladamente apresentou baixa sensibilidade e não mostrou associação estatisticamente significativa. Os pontos de corte ≥70 e ≥80 irpm aumentam acentuadamente a especificidade e a magnitude da associação com mortalidade. Contudo, a queda progressiva da sensibilidade torna esses limiares inadequados para substituir o ponto de corte ≥60 irpm como estratégia de triagem. Os resultados, portanto, apoiam a manutenção do limiar atualmente utilizado pela OMS de ≥60 irpm. Ele favorece maior sensibilidade para detecção de casos quando comparado
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