Impacto das medidas relacionadas à pandemia de COVID-19 sobre desfechos perinatais

Alterações nos desfechos perinatais em Manitoba, Canadá: antes e durante dois anos da pandemia de COVID-19 Sobre o artigo  Os desfechos perinatais, incluindo nascimento prematuro, natimortalidade, baixo peso ao nascer e admissão em unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN), constituem importantes indicadores da saúde materna e neonatal. Durante a pandemia de COVID-19, medidas de saúde pública como lockdowns, distanciamento físico, restrições de deslocamento e modificações no funcionamento dos serviços de saúde alteraram o acesso à assistência pré-natal e o comportamento de busca por cuidados. Entretanto, estudos realizados em diferentes países apresentaram resultados conflitantes quanto ao impacto dessas mudanças nos desfechos perinatais. Uma limitação importante dos estudos anteriores foi considerar a exposição à pandemia de forma predominantemente dicotômica — antes versus durante a pandemia — sem avaliar quanto tempo da gestação transcorreu sob as medidas restritivas. Os autores propuseram que a duração dessa exposição poderia ser relevante para explicar diferenças nos resultados observados. O objetivo foi, portanto, investigar os efeitos imediatos e cumulativos das medidas relacionadas à COVID-19 sobre sete desfechos: nascimento prematuro, baixo peso ao nascer, pequeno para a idade gestacional (PIG), admissão em UTIN, início do aleitamento materno, parto cesáreo e natimortalidade. Também foram avaliadas diferenças conforme o nível socioeconômico materno. Métodos utilizados Estudo populacional realizado a partir de bancos administrativos de saúde da província de Manitoba. Foram avaliadas gestações com parto hospitalar, incluindo nascidos vivos e natimortos. O período pré-pandemia compreendeu janeiro de 2008 a fevereiro de 2020, enquanto o período pandêmico foi definido de março de 2020 a março de 2022. Foram excluídos partos fora do ambiente hospitalar, perdas gestacionais antes de 20 semanas e gestações ectópicas. Entre as variáveis maternas analisadas estavam idade, paridade, hipertensão, diabetes, sofrimento psicológico, local de residência e renda. A condição socioeconômica foi estimada pelo quintil de renda mediana da vizinhança, agrupando-se as gestantes em menor renda — dois quintis inferiores — e maior renda — três quintis superiores. Um aspecto metodológico particularmente relevante foi a classificação das gestações segundo a proporção aproximada da gravidez transcorrida sob medidas pandêmicas: 0% de exposição: período pré-pandemia; 25%: abril a maio de 2020; 50%: junho a agosto de 2020; 75%: setembro a novembro de 2020; 100% no primeiro ano: dezembro de 2020 a março de 2021; 100% no segundo ano: abril de 2021 a março de 2022. Os autores utilizaram análise de séries temporais interrompidas com modelos lineares generalizados ajustados para sazonalidade. Foram avaliadas mudanças imediatas após o início da pandemia, tendências ao longo dos dois anos e diferenças relacionadas à duração da exposição. Resultados Foram analisadas 222.636 gestações, sendo 190.694 no período pré-pandemia e 31.942 durante a pandemia. A idade materna média passou de 28,6 para 29,9 anos. A prevalência registrada de sofrimento psicológico materno aumentou de 13,1% para 20,0%. Nascimento prematuro A prematuridade aumentou de 8,0% antes da pandemia para 9,1% durante a pandemia, correspondendo a aumento relativo ajustado de aproximadamente 19%. Na análise de séries temporais, houve aumento imediato de 22,1% nas taxas mensais de prematuridade após o início das medidas pandêmicas. Nas gestantes de menor renda, o aumento imediato foi de 27,1%, enquanto no grupo de maior renda foi de 19,7%. Apesar dessas diferenças, não houve evidência estatística de modificação do efeito pela renda. A duração da exposição também foi relevante. As gestações completamente transcorridas durante o primeiro ano da pandemia apresentaram aumento de 15,0% na prematuridade, enquanto aquelas completamente expostas no segundo ano apresentaram aumento de 11,6% em relação ao período pré-pandêmico. O maior aumento ocorreu entre gestações classificadas como 50% expostas, com elevação de 28,4%. Baixo peso ao nascer O baixo peso ao nascer também aumentou durante a pandemia. Na análise temporal, ocorreu elevação imediata de 13,9%, com maior impacto entre mulheres de menor renda, nas quais o aumento chegou a 24,6%. Novamente, o maior efeito foi identificado nas gestações com aproximadamente 50% de exposição, com aumento de 29,7% no conjunto da população e de 39,0% entre gestantes de menor renda. Pequeno para a idade gestacional Embora a comparação global ajustada tenha indicado pequeno aumento na proporção de recém-nascidos PIG durante a pandemia, a análise de séries temporais não demonstrou mudança significativa nas taxas mensais para o conjunto das gestações. Foi observado aumento específico entre mulheres de maior renda cujas gestações ocorreram integralmente durante o segundo ano da pandemia. Admissão em UTIN As análises temporais não demonstraram alteração significativa nas admissões em UTIN associada às medidas pandêmicas. Nas gestações totalmente expostas durante o segundo ano, as taxas de admissão em UTIN encontravam-se novamente próximas aos níveis pré-pandêmicos. Início do aleitamento materno O início do aleitamento materno apresentou redução imediata de 3,9% após o início da pandemia, seguida por discreto aumento ao longo dos dois anos subsequentes. Entretanto, quando considerada a duração da exposição às medidas pandêmicas, não foram observadas mudanças estatisticamente significativas para a população geral. Parto cesáreo O parto cesáreo foi um dos desfechos mais claramente associados ao período pandêmico. A proporção passou de aproximadamente 23% antes da pandemia para 28% durante a pandemia, com risco relativo ajustado de 1,19. Após o início das medidas pandêmicas, houve aumento imediato de 22,1% nas taxas de cesariana. Nas mulheres de maior renda, o aumento foi de 20,9%, e nas de menor renda, de 24,6%. As gestações integralmente expostas ao primeiro e ao segundo ano da pandemia apresentaram aumentos de 24,6% e 20,9%, respectivamente. Natimortalidade Embora a comparação global bruta/ajustada dos períodos tenha indicado diferença na ocorrência de natimortalidade, a análise de séries temporais — metodologicamente central no estudo — não demonstrou mudança significativa após o início da pandemia nem ao longo dos dois anos analisados. Devido à baixa frequência do evento, não foi possível realizar análises detalhadas segundo duração da exposição. Os resultados, portanto, apontam principalmente para aumento da prematuridade, baixo peso ao nascer e cesarianas, enquanto as alterações em PIG, internação em UTIN e natimortalidade foram menos consistentes nas análises temporais. Discussão O principal diferencial do estudo foi considerar a duração da exposição gestacional às alterações relacionadas à pandemia, em vez de simplesmente classificar as gestações como pré-pandemia

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