Uso de líquidos espessados para facilitar a alimentação oral plena em recém-nascidos prematuros com dificuldades alimentares na idade pós-menstrual de termo Sobre o artigo A aquisição da alimentação oral plena representa um dos principais marcos de desenvolvimento necessários para a alta hospitalar de recém-nascidos prematuros. Entretanto, dificuldades relacionadas à imaturidade neuromuscular, à coordenação entre sucção, deglutição e respiração e à manutenção do estado de alerta podem comprometer essa transição. Embora a maioria dos prematuros consiga estabelecer alimentação oral completa até aproximadamente 36 semanas de idade pós-menstrual, cerca de 20% apresentam dificuldades persistentes, prolongando a internação na unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN). Nesses pacientes, a videofluoroscopia da deglutição (VFSS) é frequentemente utilizada para investigar alterações da dinâmica de deglutição e identificar episódios de penetração laríngea ou aspiração. Entretanto, a ausência de aspiração durante o exame não exclui completamente a possibilidade de comprometimento funcional da deglutição, considerando que a avaliação representa apenas uma pequena amostra do processo alimentar. O espessamento de líquidos constitui uma estratégia terapêutica utilizada em crianças com disfagia, especialmente quando existe aspiração documentada. Contudo, seu papel em prematuros com dificuldades alimentares persistentes, mas sem aspiração demonstrada, permanece pouco esclarecido. O objetivo do estudo foi avaliar se a utilização de líquidos espessados poderia melhorar a progressão da alimentação oral em recém-nascidos prematuros que apresentavam dificuldades para atingir alimentação oral plena na idade pós-menstrual de termo, mesmo sem evidência de aspiração na videofluoroscopia. Métodos utilizados Foi realizado um estudo retrospectivo caso-controle em uma unidade de terapia intensiva neonatal do Masonic Children's Hospital, vinculado à Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos. Foram analisados prontuários de recém-nascidos prematuros internados entre 2019 e 2024. População estudada O estudo incluiu 38 recém-nascidos prematuros, distribuídos em dois grupos: Grupo intervenção (n = 19): prematuros com dificuldades persistentes para alcançar alimentação oral plena na idade pós-menstrual de termo, sem aspiração identificada na videofluoroscopia, que receberam líquidos espessados. Grupo controle (n = 19): prematuros pareados por idade gestacional e comorbidades, que apresentaram progressão alimentar habitual, sem necessidade de espessamento ou videofluoroscopia. Foram excluídos pacientes com síndromes ou anomalias genéticas associadas à disfagia. Prematuros com comorbidades comuns da prematuridade, como displasia broncopulmonar, foram incluídos. Avaliação da alimentação Os pesquisadores utilizaram como principal desfecho a porcentagem de transferência oral, definida como a proporção do volume diário de leite prescrito que o recém-nascido conseguia ingerir por via oral. Foram avaliados: Evolução diária da porcentagem de alimentação oral. Desempenho alimentar antes e depois do espessamento. Alterações na ingestão oral nas 48 horas anteriores e posteriores à intervenção. Tempo necessário para alcançar alimentação oral plena. Necessidade de suporte nutricional alternativo na alta hospitalar. Características da intervenção O espessamento foi realizado predominantemente com cereal de aveia adicionado à fórmula infantil. Dos 19 pacientes, 17 receberam cereal de aveia e dois receberam cereal de arroz. A maioria dos recém-nascidos (79%) recebeu uma preparação classificada como mildly thick (levemente espessada), utilizando aproximadamente uma colher de chá de cereal para cada 20 mL de fórmula. As preparações foram avaliadas segundo critérios da International Dysphagia Diet Standardisation Initiative (IDDSI), para confirmação da consistência. Foram utilizados bicos de mamadeira com características de fluxo adaptadas às preparações espessadas. Importante: as proporções descritas representam o protocolo utilizado na instituição e não constituem uma recomendação universal de preparo para prematuros. Análise estatística Foram utilizados testes t pareados, testes de comparação entre grupos e modelos lineares mistos para analisar a evolução da alimentação oral. Resultados Características dos participantes Os grupos apresentaram características clínicas semelhantes em relação à idade gestacional, peso ao nascimento, idade de início da alimentação oral e principais comorbidades. Característica Grupo espessamento Grupo controle Número de pacientes 19 19 Idade gestacional média 31,1 semanas 30,9 semanas Peso médio ao nascer 1.520 g 1.580 g Displasia broncopulmonar 47% 47% Início da alimentação oral 35,8 semanas 35,7 semanas Progressão alimentar antes do espessamento Antes da intervenção, os prematuros com dificuldades alimentares apresentavam evolução significativamente mais lenta da ingestão oral quando comparados aos controles. Aumento diário da porcentagem de alimentação oral antes da intervenção Grupo espessamento 1,3% por dia Grupo controle 4,5% por dia Diferença estatisticamente significativa: p inferior a 0,001. Os recém-nascidos do grupo controle alcançaram alimentação oral plena, em média, com 38,5 semanas de idade pós-menstrual. Nesse mesmo momento, os pacientes que posteriormente receberiam espessamento consumiam apenas 35,7% do volume nutricional prescrito por via oral. Achados da videofluoroscopia Nenhum paciente do grupo intervenção apresentou aspiração durante o exame, conforme os critérios de inclusão. Entretanto, 14 dos 19 recém-nascidos (73%) apresentaram penetração laríngea de líquidos finos, indicando entrada do conteúdo no vestíbulo laríngeo sem aspiração documentada. Esse achado reforça a importância de considerar alterações da dinâmica de deglutição além da presença isolada de aspiração. Efeito do espessamento sobre a ingestão oral Após a introdução dos líquidos espessados, observou-se aumento significativo da proporção de alimentação oral. Comparação das 48 horas anteriores e posteriores ao espessamento. Aumento absoluto +13,3 pontos percentuais p = 0,01 A velocidade estimada de progressão da alimentação oral aumentou de 1,3% ao dia antes da intervenção para 4,4% ao dia após o espessamento (p = 0,006). Alcance da alimentação oral plena Alimentação oral plena na alta 74% 14 de 19 recém-nascidos Necessidade de suporte alternativo na alta 26% 5 de 19 recém-nascidos Entre os pacientes que alcançaram alimentação oral plena, o tempo médio entre a introdução do espessamento e a conquista desse objetivo foi de 8,2 ± 6,1 dias. Os cinco pacientes que não alcançaram alimentação oral plena receberam alta com suporte nutricional alternativo, incluindo sonda nasogástrica ou gastrostomia. Posteriormente, esses pacientes retornaram à utilização de líquidos finos e alcançaram alimentação oral completa entre 9 e 17 meses de idade. Os resultados demonstram que a intervenção esteve associada à melhora da alimentação oral em uma parcela relevante dos pacientes, mas não apresentou benefício universal. Discussão Os resultados sugerem que o espessamento de líquidos pode representar uma estratégia terapêutica para determinados prematuros com dificuldades persistentes de alimentação oral, mesmo na ausência de aspiração identificada pela videofluoroscopia. Possíveis mecanismos fisiológicos Os autores discutem que o benefício do espessamento pode não depender
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