Meningite e meningococcemia na infância: o antibiótico não pode esperar | 42º CBP Sinais por faixa etária, punção lombar segura, antibiótico em até uma hora, controle da transmissão e seguimento das sequelas. Por Dra. Gabriela Paladino (CRM 521311174), Dra. Carolina Paixão (CRM 521217984) e equipe NeoPed HUB Cobertura do 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, em Belo Horizonte, em 14 de outubro de 2026. Mesa-redonda "Do P.S. à enfermaria: infecções que exigem decisões nas primeiras 24/48 horas". Palestra "Meningite e meningococcemia", com Alexsandra Ferreira da Costa Coelho (PE). Em resumo: meningite bacteriana e meningococcemia exigem reconhecimento precoce e decisões rápidas. Em lactentes, os sinais clássicos podem faltar. A punção lombar é essencial quando segura, mas nunca deve atrasar o antibiótico, que o fluxograma apresentado prevê em até uma hora. O cuidado inclui estabilização, controle da transmissão, vacinação e seguimento após a alta, já que mais de um terço das crianças tem complicações. Quais são os principais agentes da meningite bacteriana na criança? Os agentes variam com a idade, o estado imunológico, a situação vacinal, as comorbidades e o contexto epidemiológico. Na meningite bacteriana adquirida na comunidade, destacam-se: Streptococcus pneumoniae (pneumococo). Neisseria meningitidis (meningococo). Haemophilus influenzae tipo b (Hib), especialmente onde a cobertura vacinal é insuficiente. Estreptococo do grupo B, Escherichia coli e outros bacilos Gram-negativos, sobretudo no período neonatal. As vacinas conjugadas contra pneumococo e Hib reduziram muito a doença invasiva por determinados sorotipos. A epidemiologia, porém, muda: a queda de alguns agentes pode vir acompanhada da expansão de variantes não cobertas pelas vacinas, a chamada substituição de sorotipos ou sorogrupos. A revisão de Koelman e colaboradores descreveu a reemergência da meningite pneumocócica em partes da Europa e da América do Norte associada a sorotipos fora das vacinas usadas nesses locais. Isso não diminui a importância da vacinação, mas reforça a necessidade de vigilância. No meningococo, os dados da palestra mostraram a ascensão do sorogrupo B no Brasil, responsável por cerca de 60% dos casos no material apresentado, além de surtos com alta letalidade. Esses números dependem do período, da região e da fonte de vigilância e não devem ser extrapolados para todos os estados ou anos. Como a infecção chega ao sistema nervoso central? Colonização da nasofaringe pelo agente. Disseminação para a corrente sanguínea ou, em algumas situações, extensão a partir de focos próximos. Entrada no espaço subaracnóideo, multiplicação bacteriana e resposta inflamatória. A inflamação aumenta a permeabilidade da barreira hematoencefálica, provoca edema cerebral, altera a circulação do líquor e compromete a perfusão cerebral. Daí vêm hipertensão intracraniana, convulsões, alteração do nível de consciência e lesões neurológicas. Na doença meningocócica invasiva, a resposta inflamatória sistêmica pode causar lesão endotelial, extravasamento capilar, choque e coagulopatia. Como a meningite se apresenta em cada idade? A ausência de sinais clássicos não exclui o diagnóstico, principalmente em recém-nascidos e lactentes jovens. Nessa faixa etária, os sintomas podem ser inespecíficos: Alteração do padrão de choro, irritabilidade ou choro inconsolável. Hipoatividade, letargia ou menor interação. Recusa alimentar ou dificuldade para mamar. Instabilidade térmica, com febre ou hipotermia. Desconforto respiratório, apneia ou cianose. Abaulamento da fontanela, quando presente. Convulsões e alterações de perfusão ou sinais de choque. A febre pode estar ausente e a rigidez de nuca pode não ser evidente, por isso mudanças no comportamento, na alimentação e na responsividade devem ser valorizadas. Em crianças maiores, pode aparecer a tríade clássica, nem sempre completa: infecção sistêmica (febre, prostração, anorexia), hipertensão intracraniana (cefaleia, vômitos, alteração de consciência, convulsões, sinais focais) e irritação meníngea (rigidez de nuca, fotofobia, sinais de Kernig ou Brudzinski). Mialgia, artralgia, ataxia, papiledema e choque também podem ocorrer. Petéquias ou púrpura em criança febril com piora rápida devem levantar suspeita de doença meningocócica invasiva. O ponto essencial: não se espera a rigidez de nuca nem o exantema petequial para considerar meningite ou meningococcemia. Por que a meningococcemia é uma emergência? A meningococcemia é a infecção invasiva sistêmica por Neisseria meningitidis, com ou sem meningite associada. A lesão endotelial leva a extravasamento capilar, hipovolemia relativa, hipoperfusão, choque e coagulação intravascular disseminada, com petéquias, púrpura fulminante e possível necrose de extremidades. Os sinais de gravidade incluem alteração importante do estado geral, febre alta ou instabilidade térmica, taquicardia, taquipneia ou bradicardia em fases avançadas, extremidades frias, enchimento capilar prolongado, hipotensão, cianose ou hipoxemia, lesões cutâneas que progridem rápido, redução do débito urinário, mialgia intensa, convulsões e rebaixamento de consciência. Em crianças, a hipotensão pode ser um sinal tardio. Perfusão, estado mental, enchimento capilar, frequência cardíaca e diurese ajudam a reconhecer a deterioração antes da descompensação. A suspeita exige atendimento emergencial, estabilização imediata e antibiótico sem atrasos evitáveis. Quais exames pedir e como interpretar o líquor? Conforme a gravidade, podem ser indicados hemograma, glicemia, eletrólitos, função renal e hepática, coagulograma, proteína C-reativa, procalcitonina, lactato e gasometria na suspeita de hipoperfusão, além de testes moleculares. A hemocultura deve ser colhida antes do antimicrobiano, desde que não atrase o tratamento; sua positividade não é universal e cai depois do início do antibiótico. Proteína C-reativa e procalcitonina apoiam, mas não substituem, a análise clínica e do líquor. A punção lombar deve ser feita o mais cedo possível quando não há contraindicação. O líquor é avaliado por aspecto, citologia com diferencial, proteínas, glicose (comparada à glicemia), Gram, cultura e testes moleculares, incluindo PCR. O perfil típico da meningite bacteriana tem pleocitose com predomínio de neutrófilos, proteínas elevadas, glicose reduzida e, às vezes, pressão de abertura aumentada. No início da doença, em imunocomprometidos ou após antibiótico, esse perfil pode ser menos característico, e cultura negativa não exclui meningite bacteriana. Parâmetro Bacteriana Viral Tuberculosa Aspecto do líquor Frequentemente turvo Geralmente límpido Límpido ou discretamente opalescente Células Geralmente elevadas, com predomínio de neutrófilos Frequentemente predomínio de linfócitos Geralmente predomínio de linfócitos Proteínas Elevadas Normais ou discretamente elevadas Elevadas, por vezes acentuadamente Glicose Frequentemente reduzida Geralmente preservada Frequentemente reduzida Gram e cultura Podem identificar o agente Geralmente negativos para bactérias Baixa sensibilidade da bacterioscopia; exigem testes específicos Os valores de referência variam com a idade, o laboratório, a fase da doença e a etiologia, e
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