Alergia alimentar: por que sensibilização não é diagnóstico | 42º CBP Limites da IgE, teste de provocação oral como padrão-ouro, alimentos assados e o que ajuda a prevenir a alergia desde a gestação. Por Dra. Gabriela Paladino (CRM 521311174), Dra. Carolina Paixão (CRM 521217984) e equipe NeoPed HUB Cobertura do 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, em Belo Horizonte, em 15 de outubro de 2026. Mesa-redonda "Controvérsias em alergia alimentar". Palestra "Abordagem da alergia alimentar", com Jackeline Motta Franco (SE). Em resumo: IgE específica ou teste cutâneo positivo indicam sensibilização, não alergia. O teste de provocação oral (TPO) segue como padrão-ouro e hoje também serve para identificar fenótipos e acompanhar a tolerância. A palestra discutiu o escalonamento com alimentos assados, a imunoterapia oral e as evidências sobre prevenção na gestação e no primeiro ano de vida. Por que IgE positiva não fecha o diagnóstico? O diagnóstico de alergia alimentar mediada por IgE exige relação causal entre a história clínica e os sintomas. A IgE sérica específica ou o teste cutâneo positivo mostram apenas sensibilização. Sobrediagnóstico: em um estudo publicado na Pediatrics, 53 pacientes em dieta de exclusão por testes positivos fizeram 114 TPOs, e 93% deram negativo. Em 38% dos casos, a restrição tinha sido mantida por orientação de pediatras que consideravam os testes suficientes. IgE e gravidade: níveis mais altos de IgE aumentam a probabilidade de reação, mas não predizem a gravidade nem determinam uma dose desencadeante menor. Sem ponto de corte universal: nenhum valor de IgE serve para todas as idades, populações e condições clínicas. Painéis extensos: pedir painéis amplos sem correlação clínica aumenta o risco de sobrediagnóstico. Diagnóstico por componentes: nem sempre melhora a acurácia e pode dar negativo mesmo com extratos positivos e suspeita clínica. Testes celulares: os testes com basófilos e mastócitos seguem restritos à pesquisa, sem validação para a rotina. Qual é o papel do teste de provocação oral hoje? O TPO continua sendo o padrão-ouro. Ele deixou de ser apenas diagnóstico e passou a servir para estratificar fenótipos e acompanhar a aquisição de tolerância ao longo do tempo. A tolerância chega em etapas, não de forma binária: há pacientes totalmente reativos, parcialmente reativos e tolerantes a formas modificadas dos alimentos. Para pacientes de alta sensibilidade, existe o TPO de baixa dose, que começa com quantidades mínimas ou traços de proteína, como 1,3 ml de leite ou 0,5 g de amendoim. Alimentos assados, escalonamento ou imunoterapia oral? O aquecimento de proteínas alimentares dentro de uma matriz, como o trigo, reduz a alergenicidade do leite e do ovo e permite o fenótipo tolerante a assados (baked). Revisões sistemáticas indicam que a introdução de alimentos processados acelera a tolerância. Os países usam escadas alimentares e protocolos próprios. No teste de tolerância a assados, a dose de 2,1 g de proteína de ovo foi padronizada inicialmente pela disponibilidade do produto usado no estudo de referência. Uma coorte retrospectiva com 252 crianças menores de 2 anos comparou imunoterapia oral e escalonamento dietético com ovo cozido: Os dois grupos chegaram à tolerância total no mesmo período. O grupo do escalonamento tolerou assados mais rapidamente. Não houve anafilaxia no grupo do escalonamento. A frequência ideal de consumo e a velocidade de progressão entre os degraus ainda precisam ser individualizadas para cada família. O que ajuda a prevenir a alergia alimentar? O desenvolvimento da alergia alimentar é explicado por um modelo que integra fatores genéticos, microbianos, ambientais, sociais e comorbidades. As recomendações de prevenção se apoiam em estilo de vida e alimentação. Na gestação e na lactação: Estimular uma alimentação materna diversificada. Evitar dietas de eliminação preventiva e ultraprocessados. Controlar o ganho de peso na gestação. Estimular o parto normal e a manutenção do aleitamento materno. No primeiro ano de vida: Iniciar a introdução alimentar entre 4 e 6 meses, conforme as diretrizes regionais. Priorizar alimentos frescos e manter uma dieta diversificada. Evitar ultraprocessados. Evitar o uso desnecessário de antibióticos e de inibidores de bomba de prótons. O que muda no consultório Não peça painéis amplos de alergênos sem correlação clínica. Não mantenha uma dieta de exclusão só com base em IgE ou teste cutâneo positivos: confirme com TPO. Use o TPO também para acompanhar a tolerância, considerando o TPO de baixa dose nos pacientes de alta sensibilidade. Avalie o escalonamento com alimentos assados de forma individualizada. Oriente a prevenção desde a gestação, sem dietas de eliminação preventiva. Perguntas frequentes IgE muito alta significa reação grave? Não. Níveis mais altos aumentam a probabilidade de reação, mas não predizem a gravidade nem a dose que desencadeia sintomas. Vale pedir um painel amplo de alergênos? Não sem correlação clínica. Painéis extensos aumentam o risco de sobrediagnóstico. A gestante deve evitar alimentos alergênicos? Não. A recomendação é evitar dietas de eliminação preventiva e manter uma alimentação diversificada. Quando começar a introdução alimentar? Entre 4 e 6 meses de vida, conforme as diretrizes regionais. Fontes Palestra "Abordagem da alergia alimentar", Jackeline Motta Franco, 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, Belo Horizonte, 15/10/2026 (programação científica oficial). Estudo publicado na Pediatrics sobre testes de provocação oral em crianças em dieta de exclusão, citado na palestra. Coorte retrospectiva de 252 crianças menores de 2 anos sobre escalonamento e imunoterapia oral com ovo, citada na palestra. Leia também: Probióticos na alergia alimentar | 42º CBP, Alergia alimentar e dermatite atópica | 42º CBP e 42º Congresso Brasileiro de Pediatria: acompanhe os destaques dia a dia.
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