Palestra sobre alergia alimentar e dermatite atópica no 42º Congresso Brasileiro de Pediatria

Alergia alimentar e dermatite atópica | 42º CBP

Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

Alergia alimentar e dermatite atópica: quando investigar | 42º CBP Lesão de barreira, sensibilização pela pele, marcha atópica e por que o alimento costuma agravar, e não causar, a dermatite. Por Dra. Gabriela Paladino (CRM 521311174), Dra. Carolina Paixão (CRM 521217984) e equipe NeoPed HUB Cobertura do 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, em Belo Horizonte, em 15 de outubro de 2026. Mesa-redonda "Controvérsias em alergia alimentar". Palestra "Alergia alimentar e dermatite atópica: há relação?", com Evandro Alves do Prado (RJ) e Herberto José Chong Neto (PR). Em resumo: a dermatite atópica (DA) de início precoce, grave e prolongada aumenta a chance de sensibilização alimentar, e o ovo é o alimento mais associado, sem excluir leite e trigo. Mesmo assim, a alergia alimentar (AA) não é frequente nem na DA grave. A suspeita deve se basear em relação de causa e efeito, e o teste de provocação oral (TPO) continua sendo o melhor exame. O centro do problema é a lesão de barreira, e o alimento costuma ser agravante, não causa. O que é a teoria da lesão de barreira? A explicação para o aumento das doenças alérgicas evoluiu da teoria da higiene para a da biodiversidade e, hoje, para a da lesão de barreira: o ambiente externo agride o epitélio e favorece a doença. Na pele atópica, proteases aumentadas degradam a barreira e os corneócitos são destruídos precocemente. Isso abre caminho para toxinas, irritantes, bactérias (principalmente Staphylococcus aureus), fungos e alergênios inalatórios e alimentares. A perda transepidérmica de água aumenta, faltam lipídios como ceramidas e colesterol, e a pele fica seca. Mutações no gene da filagrina pioram essa barreira. A regra apresentada na palestra foi direta: quanto maior a lesão de barreira, maior a penetração de antígenos e mais grave a doença. Como a pele sensibiliza para alimentos? A via oral é a clássica: a ingestão do alimento leva à produção de IgE específica e a sintomas como urticária, diarreia, cólicas e piora da DA. Hoje se reconhece também a sensibilização pela pele com barreira lesada. Em um estudo experimental citado na palestra, a aplicação de pasta de amendoim na pele de crianças com DA nunca expostas por via oral levou mais da metade a desenvolver alergia ao amendoim, contra 2 de 62 no grupo controle. A lesão epitelial libera alarminas (TSLP, IL-25, IL-33), que orientam as células dendríticas a uma resposta Th2. Com IL-4, IL-5 e IL-13, os linfócitos B passam a produzir IgE, mastócitos e basófilos se armam, e a reexposição ao antígeno desencadeia a reação e piora a dermatite. A disbiose cutânea e a colonização por S. aureus contribuem para esse ciclo. Como a idade e a marcha atópica entram na avaliação? A DA costuma ser a primeira manifestação atópica, seguida por asma e rinite, embora a sequência nem sempre seja rígida. A DA e a AA predominam nos primeiros anos, e a asma e a rinite crescem na adolescência. A dermatite tende a começar a partir dos 6 meses. Em lactentes de 2 a 3 meses com eczema e prurido, vale considerar outros diagnósticos, como dermatoses genéticas e dermatite seborreica, antes de fechar DA. Quando suspeitar de alergia alimentar na DA? Eczema e prurido são essenciais para o diagnóstico de DA. A alergia alimentar, porém, é pouco frequente mesmo nos casos graves: em um estudo com 1.355 crianças, houve poucas sensibilizações e poucos casos de AA. A suspeita cresce quando há relação clara de causa e efeito somada a exames positivos, lembrando que sensibilização não é sinônimo de alergia. Os alimentos clássicos são leite, ovo, soja, trigo, amendoim e peixe. Uma adaptação brasileira, da UFRJ, substitui o peixe pelo milho, pelo consumo cultural de polenta, canjica e pamonha. Entre leite, ovo e trigo, o ovo foi apontado como o principal, mas os casos apresentados mostraram que cada paciente pode ter um alimento predominante, inclusive o trigo em adolescentes com DA muito grave. A gravidade orienta a investigação pelo SCORAD: SCORAD Gravidade Até 25 Leve Acima de 25 até 50 Moderada Acima de 50 Grave Como cuidar da barreira? Reduzir banhos prolongados para preservar a oleosidade da pele. Usar hidratantes ricos em ceramidas e ácidos graxos. Reconhecer e tratar infecções por S. aureus, que agravam a DA e favorecem a sensibilização. Considerar probióticos como possível estratégia de suporte ou prevenção, conforme as evidências. Quando houver indicação, fazer dieta de exclusão direcionada por 4 a 8 semanas, com reavaliação e TPO sempre que possível. O que muda no consultório Em crianças até 2 anos com DA grave, avalie alergia alimentar com base em causa e efeito, testes de sensibilização e, quando possível, TPO. Faça dieta de exclusão direcionada (ovo, leite, trigo e, quando culturalmente relevante, milho) por 4 a 8 semanas apenas em casos selecionados, com reintrodução conforme protocolo. Use o SCORAD para estratificar a gravidade e guiar a investigação. Priorize o cuidado da barreira e o controle da inflamação. Em lactentes de 2 a 3 meses com eczema, amplie o diagnóstico diferencial antes de concluir DA. Explique à família a diferença entre sensibilização laboratorial e alergia clínica. Perguntas frequentes Toda criança com dermatite atópica grave tem alergia alimentar? Não. A alergia alimentar é pouco frequente mesmo na DA grave. Ela deve ser investigada quando há relação de causa e efeito, principalmente até os 2 anos. Qual alimento mais se associa à dermatite atópica? O ovo foi apontado como o principal, mas leite e trigo também podem ser relevantes, e no Brasil vale lembrar do milho. Quanto tempo deve durar uma dieta de exclusão? De 4 a 8 semanas, de forma direcionada e com reavaliação, confirmando o diagnóstico com TPO quando possível. Fontes Palestra "Alergia alimentar e dermatite atópica: há relação?", Evandro Alves do Prado, 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, Belo Horizonte, 15/10/2026 (programação científica oficial). Tsuge et al. Children. 2021;8:1067, sobre a prevalência das doenças atópicas ao longo da infância, citado na palestra. Simon et al., 2019, sobre os mecanismos imunológicos da pele atópica, citado na palestra. Leia também: Dermatite atópica grave: terapias-alvo | 42º CBP,

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