Palestra sobre neurodesenvolvimento infantil no 42º Congresso Brasileiro de Pediatria

Neurodesenvolvimento de 0 a 3 anos | 42º CBP

Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

Neurodesenvolvimento de 0 a 3 anos: marcos, telas e nutrição | 42º CBP Qualidade funcional dos marcos, Avaliação dos Movimentos Gerais, atraso motor como sinal de TEA, telas e os nutrientes que constroem o cérebro. Por Dra. Gabriela Paladino (CRM 521311174), Dra. Carolina Paixão (CRM 521217984) e equipe NeoPed HUB Cobertura do 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, em Belo Horizonte, em 15 de outubro de 2026. Palestra sobre neurodesenvolvimento na primeira infância com Carlos Alberto Nogueira de Almeida e Julio Santos.  Em resumo: os três primeiros anos são a janela de maior plasticidade cerebral. A avaliação do desenvolvimento precisa olhar a qualidade funcional dos marcos, não só sua presença. Atrasos motores podem ser sinal precoce de transtorno do espectro autista (TEA), o excesso de telas aumenta o risco de transtorno do desenvolvimento da coordenação, e a nutrição, com leite materno, DHA, ARA, colina, ferro e zinco, é parte da base do desenvolvimento. O que mudou na forma de entender o neurodesenvolvimento? O modelo maturacionista deu lugar à teoria dos sistemas dinâmicos: o desenvolvimento resulta da interação entre genética, epigenética, cérebro, cognição, emoção e comportamento. As habilidades passam por períodos instáveis, em que o ambiente pesa mais, e estáveis, em que elas se consolidam. As habilidades precoces de autorregulação e socioemocionais predizem melhor os desfechos de longo prazo do que o desempenho acadêmico inicial. Por que os três primeiros anos são decisivos? Nesse período, o cérebro cresce rápido e forma até um milhão de sinapses por segundo. Sinaptogênese, mielinização e poda sináptica estabelecem trajetórias para toda a vida. Linguagem e sono são pilares da autorregulação, e os ganhos de linguagem têm um período de avanço rápido entre 6 e 12 meses. O que a Avaliação dos Movimentos Gerais mostra? A Avaliação dos Movimentos Gerais (GMA) analisa a qualidade dos movimentos espontâneos nos primeiros meses para estimar o risco de paralisia cerebral e de atrasos cognitivos. Movimentos de contorção (writhing) atípicos se associam a pior desempenho cognitivo na primeira infância, e alterações nos movimentos irrequietos (fidgety) se relacionam a menores habilidades intelectuais, verbais e visuocognitivas. Atraso motor pode ser sinal de autismo? Em uma coorte com mais de 32 mil crianças de 8 anos, 71,5% das crianças autistas tinham atrasos nos marcos motores, como dificuldades motoras finas e grossas, hipotonia e problemas de coordenação. Esses atrasos anteciparam a avaliação para autismo em cerca de 6 a 8 meses, independentemente de deficiência intelectual. Quanto as telas pesam no desenvolvimento motor? Entre crianças de 3 a 5 anos, a suspeita de transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC) varia com o tempo de tela e a atividade física: Tempo de tela e atividade física Suspeita de TDC Menos de 1 hora de tela, atividade adequada 9,6% Mais de 4 horas de tela, atividade adequada 21,0% Mais de 4 horas de tela, atividade baixa 25,8% Crianças com menos de 180 minutos de atividade física por dia e mais de uma hora de tela já têm risco maior. Só cerca de 10% das crianças cumprem ao mesmo tempo as recomendações de sono, tela e atividade nas 24 horas, e a baixa adesão se associa a obesidade, prejuízo cognitivo e riscos à saúde mental. O uso passivo de telas substitui a comunicação recíproca, a atenção compartilhada e a exploração motora. Usar a tela como "chupeta eletrônica" para acalmar o choro prejudica a autorregulação. Videochamadas com interação real podem ser uma exceção, e livros impressos favorecem mais a compreensão do que os digitais em crianças pequenas. Quais marcos observar em cada idade? Idade O que avaliar 3 meses Controle cervical, elevação da cabeça em prono e controle cefálico 6 meses Controle postural, rolar, alcançar objetos e explorá-los com as mãos 9 meses Sentar sem apoio e passar objetos de uma mão para a outra 12 meses Levantar com apoio, andar segurando nos móveis e usar gestos 18 meses Marcha independente, exploração de objetos e ampliação do vocabulário 24 a 36 meses Correr, aprimorar a coordenação e iniciar conversas simples Sinais de alerta que exigem avaliação imediata: Assimetria persistente, com preferência precoce por uma das mãos ou uso desigual dos membros. Alterações de tônus ou de controle postural. Atraso importante, repertório motor restrito ou perda de habilidades já adquiridas. Que nutrientes importam para o cérebro? Deficiências nutricionais precoces podem comprometer de forma duradoura a mielinização, a neurotransmissão e a sinaptogênese. DHA: componente estrutural das membranas neuronais e da retina, essencial para o desenvolvimento visual e cognitivo, a mielinização e a plasticidade sináptica. ARA: importante para a integridade das membranas, a diferenciação neural e a mielinização. Colina: transferida pela placenta e presente no leite materno, participa das membranas, da síntese de acetilcolina e da regulação epigenética. Ferro: indispensável para a mielinização e o metabolismo neuronal. A deficiência perinatal pode deixar prejuízos duradouros no hipocampo, e ferritina baixa foi associada a sintomas mais graves de TDAH e a distúrbios do sono. Zinco: participa da neurogênese, da sinaptogênese, do refinamento dos circuitos e da defesa antioxidante. Em prematuros, a suplementação enteral combinada de ARA e DHA pode favorecer a maturação da substância branca. A palestra citou uma proporção DHA/ARA entre 0,5 e 1,0 como potencialmente favorável, mas ela não deve ser lida como recomendação universal: a decisão depende da idade gestacional, da condição clínica e da alimentação recebida. Como conversar com a família sobre telas? Investigue sem julgar: quando, por quanto tempo e com quem a criança usa telas. Identifique a função: nas refeições, para acalmar, na hora de dormir ou para os pais trabalharem. Negocie mudanças: troque um período habitual de tela por leitura ou brincadeira e evite telas na hora antes de dormir. Dê o exemplo: combine períodos sem telas também para os cuidadores. Reavalie linguagem, sono, comportamento e adesão nas consultas seguintes. O que muda no consultório Avalie a qualidade funcional dos marcos, e não só se estão presentes. Observe os movimentos espontâneos dos lactentes e encaminhe diante de sinais de alerta. Trate atrasos motores e de coordenação como possíveis sinais precoces de TEA. Oriente pelo menos 180 minutos

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