Bronquiolite viral aguda: o que as evidências dizem sobre o manejo no hospital | 42º CBP Oximetria intermitente, meta de 90% para a alta, alto fluxo ou CPAP, salina a 3%, corticoide para o perfil rinovírus e atopia e o impacto do nirsevimabe. Por Dra. Gabriela Paladino (CRM 521311174), Dra. Carolina Paixão (CRM 521217984) e equipe NeoPed HUB Cobertura do 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, em Belo Horizonte, em 17 de outubro de 2026. Conferência "Bronquiolite viral aguda: uma visão crítica das guias de tratamento", com Hany Simon Junior (SP). Presidência: Paula de Camargo Traldi (RJ). Em resumo: a bronquiolite é uma síndrome heterogênea, e a palestra defendeu tratar cada criança pelo seu perfil e fenótipo. O vírus pesa no risco de asma, maior no rinovírus que no VSR. No hospital, a oximetria intermitente e a meta de 90% para a alta são seguras, o alto fluxo não muda a história natural e o CPAP precoce reduz as transferências para a UTI. Corticoide e broncodilatador têm lugar em um subgrupo, e o nirsevimabe reduziu as internações por VSR. Bronquiolite é uma doença só? Não. A literatura médica traz cerca de 22 definições diferentes, que divergem quanto à faixa etária (menores de 12, 18 ou 24 meses, ou sem limite de idade) e ao número de episódios de sibilância. A proposta da palestra foi deixar de lado a ideia de uma "bronquiolite comum" e entender a doença como uma síndrome heterogênea, com fatores do hospedeiro, imunológicos e virais. Quais perfis e fenótipos foram descritos? Perfil Características A Rinovírus, histórico de sibilância e eczema, sibilância na admissão B VSR, sem história prévia de atopia ou sibilância C Doença grave, com retrações moderadas a graves e maior tempo de internação D Doença menos grave, sem sibilância inicial e com menor permanência hospitalar Também foram identificados quatro fenótipos: doença leve, hipóxia isolada, sibilância predominante e eosinofilia elevada. O vírus muda o risco de asma? Vírus O que se sabe VSR Principal agente em lactentes jovens. Risco de sibilância recorrente a longo prazo entre 10% e 30%, mínimo na ausência de eczema prévio Rinovírus Prevalência aumenta com a idade, com resposta inflamatória Th2 semelhante à asma. Risco de sibilância recorrente e atopia de 30% a 80%. Com eczema ou sibilância prévios, a chance de asma futura chega a até 100%. Sem esses fatores, fica em cerca de 73% Bocavírus e metapneumovírus Menor gravidade inicial e menos sequelas pulmonares a longo prazo Precisa de oximetria contínua? Não para lactentes estabilizados. Um ensaio clínico (Mahant et al., JAMA Pediatrics, 2021) mostrou que a oximetria contínua não altera o tempo de internação (P = 0,62) nem a segurança clínica, quando comparada à intermitente. A mudança reduz custos em cerca de US$ 550 por paciente e melhora a rotina da enfermagem. Com que saturação a criança pode ter alta? Evidências publicadas no The Lancet mostram que a meta de 90% é tão segura e eficaz quanto a de 94%, sem aumento de reinternações em 7, 14 ou 28 dias, e com redução significativa do tempo médio de internação. Dessaturações transitórias abaixo de 90% por menos de 1 minuto, ou quedas fisiológicas até 88% durante o sono, não elevam o risco nem justificam manter a criança internada. Alto fluxo ou CPAP? Cânula nasal de alto fluxo: é segura no pronto-socorro para alívio agudo, mas não altera a história natural da doença nem reduz a duração da oxigenoterapia ou o tempo de internação frente ao baixo fluxo. O uso profilático indiscriminado aumentou custos sem reduzir admissões em UTI pediátrica. CPAP: tem menor taxa de falha que o alto fluxo na insuficiência respiratória moderada a grave. Usado cedo na enfermaria, reduz significativamente as transferências para a UTI. Lactente com taquipneia pode ser alimentado por via oral? Os dados apresentados indicam que sim. Lactentes com frequência respiratória ≥ 60 irpm mantidos por via oral, sem sonda gástrica nem hidratação venosa exclusiva, tiveram taxa de complicações de 1,5%, sem aumento de broncoaspiração ou pneumonia aspirativa. Corticoide e broncodilatador têm lugar? Em um subgrupo, sim. A ideia de que a bronquiolite se trata só com oxigênio e hidratação foi revista: lactentes com perfil Th2, atopia ou eczema e infecção confirmada por rinovírus respondem a corticoides e broncodilatadores. Esquema estudado: prednisolona oral 2 mg/kg/dia por 3 dias, associada a salbutamol nebulizado em alta dose (0,15 mg/kg a cada 2 a 4 horas). Em lactentes com rinovírus, aumentou a proporção de livres de crises de sibilância em até 60 dias e reduziu os dias de tosse. Casos graves na UTI: a dexametasona associada à epinefrina reduziu o tempo de suporte ventilatório com pressão positiva e a permanência na UTI. E a salina hipertônica? Uma revisão sistemática Cochrane (Zhang et al., 2023) mostrou que a nebulização com NaCl 3% reduz o tempo de internação em 10 a 12 horas, diminui o risco de admissão hospitalar em cerca de 13% e melhora os escores clínicos, com perfil de segurança favorável quando combinada a beta-2 agonistas. Fisioterapia respiratória e aspiração ajudam? Revisões Cochrane apontam evidência baixa ou inexistente de benefício das técnicas convencionais ou expiratórias forçadas. A sucção profunda frequente se associa a internação mais longa e a complicações mecânicas, como fratura de costela e aspiração. A proposta é substituí-la por protocolos de higiene nasal não invasivos. O que mudou com o nirsevimabe? Estudos multicêntricos e dados de implementação na Espanha e nos EUA, publicados em Pediatrics e no NEJM, mostram redução de cerca de 57% a 60% nas internações e nos atendimentos de emergência por infecção de vias aéreas inferiores pelo VSR, com queda de cerca de 70% na necessidade de suporte ventilatório invasivo e não invasivo nos casos graves. A vigilância de 2023 a 2025 mostra outro efeito: com a queda relativa do VSR, cresce a participação proporcional do metapneumovírus e do rinovírus nas internações. O que muda no consultório e no hospital Adote a oximetria intermitente nos pacientes estáveis e a meta de 90% para a alta. Racionalize o alto fluxo, sem uso profilático, e priorize
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