Doença invasiva por Streptococcus do grupo B em neonatos e lactentes jovens: epidemiologia, tratamento e estratégias de prevenção

Conhecimento atual e perspectivas futuras sobre o manejo e a prevenção da infecção pelo estreptococo do grupo B em neonatos e lactentes jovens Sobre o artigo  O Streptococcus agalactiae, ou estreptococo do grupo B (GBS), permanece uma das principais causas de sepse e meningite neonatal. Aproximadamente 10%–30% das gestantes apresentam colonização gastrointestinal ou geniturinária, geralmente assintomática, mas a colonização materna representa importante fator de risco para doença invasiva pelo GBS (iGBS) no recém-nascido. A doença é tradicionalmente dividida em doença de início precoce (EOD), ocorrendo antes de 7 dias de vida e relacionada predominantemente à transmissão vertical durante o parto, e doença de início tardio (LOD), entre 7 e 89 dias, na qual também têm importância a transmissão materna pós-natal, contatos colonizados, ambiente e transmissão nosocomial. No Reino Unido, a incidência estimada de iGBS em menores de 90 dias foi de 0,94 caso por 1.000 nascidos vivos na vigilância de 2014–2015. A apresentação predominante é sepse (62%), seguida por meningite (22%) e pneumonia (15%). A meningite é proporcionalmente mais frequente na LOD, correspondendo a 43% dos casos tardios versus 16% dos casos precoces. A revisão enfatiza que, apesar da profilaxia antibiótica intraparto (IAP), o GBS continua produzindo carga relevante de morbidade, mortalidade e comprometimento do neurodesenvolvimento, justificando a busca por estratégias preventivas mais abrangentes. Métodos utilizados Trata-se de uma revisão narrativa, concebida para sintetizar as evidências atuais sobre a doença invasiva pelo GBS em neonatos e lactentes jovens, com ênfase na relevância clínica para pediatras e neonatologistas. Os autores abordaram epidemiologia, colonização materna, transmissão, apresentações clínicas, características microbiológicas, resistência antimicrobiana, tratamento, prevenção, desfechos e perspectivas futuras. O artigo também apresenta a justificativa para um novo estudo de vigilância da British Paediatric Surveillance Unit (BPSU) destinado a atualizar a incidência e a epidemiologia da iGBS em crianças menores de 90 dias no Reino Unido e Irlanda. Por ser uma revisão, o artigo não descreve recrutamento próprio de pacientes, randomização ou intervenção experimental específica. Resultados Epidemiologia e fatores de risco A prevalência de colonização retovaginal materna pelo GBS no Reino Unido é estimada em aproximadamente 17,3%. A colonização pode variar durante a gestação: cerca de um quarto das gestantes negativas com 20 semanas pode apresentar colonização posteriormente no terceiro trimestre. A colonização materna no momento do parto constitui o principal fator de risco para EOD. Carga bacteriana elevada e colonização pelo sorotipo III aumentam o risco de transmissão para o recém-nascido. A bacteriúria por GBS durante a gestação é considerada marcador indireto de colonização retovaginal intensa. Prematuridade e baixo peso ao nascer aumentam o risco de doença, especialmente LOD, estando associados a risco aproximadamente seis vezes maior de doença tardia. Para EOD, outros fatores reconhecidos incluem ruptura prolongada de membranas, febre materna intraparto e antecedente de filho com doença invasiva pelo GBS. Transmissão A EOD está predominantemente associada à transmissão vertical, enquanto a LOD apresenta epidemiologia mais complexa e participação importante da transmissão horizontal. Após a alta, até 25% dos lactentes podem tornar-se colonizados, particularmente por cepas pertencentes ao complexo clonal hipervirulento CC17. O artigo ressalta que as evidências disponíveis não demonstram associação clara entre aleitamento materno e LOD. A transmissão hospitalar também merece atenção. Estima-se que aproximadamente 1 em cada 12 casos de LOD no Reino Unido possa representar transmissão cruzada em unidades neonatais. Diante de um caso de LOD em paciente hospitalizado, neonatologistas devem manter elevada suspeita para possíveis clusters, inclusive porque casos geneticamente relacionados podem ocorrer com intervalo superior a duas semanas. Sorotipos e características microbiológicas Os sorotipos Ia, Ib, II, III e V respondem pela grande maioria das infecções neonatais e por aproximadamente 94% dos casos de iGBS no Reino Unido. O sorotipo III apresenta especial relevância clínica, sendo responsável por aproximadamente: metade dos casos de EOD; três quartos dos casos de LOD; três quartos dos casos de meningite. O complexo clonal hipervirulento CC17 está relacionado a aproximadamente 80% dos casos de meningite por GBS, em parte pela expressão de adesinas que facilitam a passagem pela barreira hematoencefálica. Resistência antimicrobiana A resistência do GBS à penicilina permanece extremamente rara no Reino Unido. Entretanto, existe preocupação crescente com resistência aos macrolídeos e lincosamidas. Em 2023, entre isolados provenientes de sítios estéreis no Reino Unido, a resistência foi de 41% à eritromicina e 34% à clindamicina. Esse cenário contribuiu para a retirada da clindamicina como antibiótico recomendado para IAP em pacientes com alergia à penicilina nas diretrizes britânicas discutidas pelo artigo. Tratamento A doença invasiva pelo GBS exige antibioticoterapia intravenosa rápida e direcionada. Segundo as recomendações britânicas apresentadas na revisão, o tratamento empírico geralmente utiliza benzilpenicilina associada à gentamicina. Na confirmação microbiológica: Sepse por GBS sem meningite: benzilpenicilina isoladamente durante 7 dias. Meningite por GBS: mínimo de 14 dias de cefotaxima intravenosa, escolhida pela melhor penetração através da barreira hematoencefálica. O papel dos corticosteroides na meningite por GBS permanece incerto em lactentes menores de 3 meses. A recorrência ocorre em aproximadamente 1%–3% dos casos, principalmente entre prematuros e recém-nascidos de baixo peso. Segundo a revisão, prolongar a antibioticoterapia ou acrescentar rifampicina para erradicação da colonização mucosa não demonstrou prevenir claramente a recorrência, embora os dados disponíveis sejam limitados. Profilaxia antibiótica intraparto A principal estratégia preventiva atualmente utilizada é a administração intravenosa de antibióticos durante o trabalho de parto. Existem duas estratégias principais: Estratégia baseada em fatores de risco: utilizada atualmente no Reino Unido. Rastreamento microbiológico universal: cultura retovaginal realizada no final da gestação, adotada por vários outros países de alta renda. Uma meta-análise citada na revisão encontrou redução de 59% no risco de EOD com rastreamento universal, quando comparado à estratégia de IAP baseada em fatores de risco. Entretanto, ambas apresentam limitações. Cerca de um terço dos casos de EOD não possui fatores de risco previamente reconhecidos, o que reduz a capacidade da estratégia baseada exclusivamente em risco de identificar todos os recém-nascidos potencialmente expostos. Por outro lado, o rastreamento universal aumenta a exposição materna aos antibióticos, levantando preocupações relacionadas à resistência antimicrobiana, microbioma neonatal e risco, embora pequeno, de anafilaxia. Mais importante, a IAP atua predominantemente sobre a

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