Exacerbação grave de asma durante a gestação com insuficiência respiratória hipóxica e necessidade de internação em unidade de terapia intensiva

Fonte: American Academy of Pediatrics

Exacerbação grave de asma durante a gestação com insuficiência respiratória hipóxica e necessidade de internação em unidade de terapia intensiva Sobre o artigo  O artigo apresenta um caso clínico de exacerbação grave de asma durante a gestação, destacando os desafios do reconhecimento da deterioração respiratória, as particularidades fisiológicas da gravidez, o manejo intensivo da crise asmática e a necessidade de equilíbrio entre estabilização materna e bem-estar fetal. A paciente, de 22 anos, G2P1001, com acompanhamento pré-natal limitado, apresentou-se com 27 semanas de gestação por dispneia persistente e sibilância. Tinha diagnóstico prévio de asma intermitente leve, tratada ocasionalmente com albuterol. Quatro dias antes, já havia procurado atendimento de emergência por exacerbação da asma, sendo tratada com nebulizações de albuterol e prednisona. Entretanto, não conseguiu obter a prednisona prescrita após a alta. Na nova apresentação, apesar de saturação inicial de oxigênio de 99% em ar ambiente, mantinha respiração laboriosa e sibilância audível. Posteriormente, evoluiu com dessaturação para 88%, necessidade de oxigênio suplementar e insuficiência respiratória hipóxica, motivando transferência para a unidade de terapia intensiva. O caso ressalta que a gravidade clínica da exacerbação asmática pode não ser adequadamente representada por exames de imagem ou mesmo pela saturação de oxigênio nas fases iniciais. A radiografia de tórax da paciente, por exemplo, não apresentava alterações aparentes apesar da exacerbação grave. Métodos utilizados Trata-se de um relato de caso clínico materno-fetal, acompanhado de discussão baseada na literatura sobre asma durante a gravidez. A avaliação inicial incluiu exame clínico, oximetria, radiografia de tórax, gasometria venosa, investigação de infecções respiratórias e avaliação fetal por cardiotocografia. Após deterioração respiratória, foi realizada investigação viral ampliada, que identificou rinovírus. A paciente foi manejada em UTI com suporte respiratório e tratamento farmacológico intensivo. As principais intervenções descritas foram: albuterol; associação ipratrópio/albuterol; budesonida; corticosteroides sistêmicos, incluindo metilprednisolona 60 mg a cada 6 horas durante a fase crítica; cânula nasal de alto fluxo para administração de albuterol contínuo; betametasona antenatal devido ao risco potencial de parto prematuro; monitorização fetal contínua após a estabilização respiratória inicial; manutenção posterior com budesonida-formoterol e desmame de prednisona. Não se trata de ensaio clínico ou estudo observacional comparativo e, portanto, não há grupos de intervenção, análise estatística ou desfecho primário predefinido. Resultados Com 27 semanas e 1 dia, a paciente apresentou dessaturação para 88% em ar ambiente e evoluiu com insuficiência respiratória hipóxica secundária à exacerbação asmática, necessitando transferência para a UTI. O painel respiratório ampliado foi positivo para rinovírus, apontado como provável fator associado à descompensação. Foi utilizada cânula nasal de alto fluxo a 10 L/min, com fração inspirada de oxigênio de 0,21, para permitir administração contínua de albuterol a 3 mL/h. Ipratrópio/albuterol, budesonida e metilprednisolona foram mantidos. Após terapia intensiva, ocorreu melhora progressiva da função respiratória e a paciente foi desmamada para ar ambiente. Em seguida, retornou à unidade obstétrica, recebendo prednisona e budesonida-formoterol. Durante o acompanhamento fetal, houve traçado categoria 2 intermitente, com desacelerações espontâneas irregulares, que melhoraram em aproximadamente 24 horas. A paciente recebeu alta com esquema de redução progressiva da prednisona e budesonida-formoterol duas vezes ao dia, mantendo controle adequado da asma pelo restante da gestação. A gestação prosseguiu até 41 semanas, quando ocorreu ruptura espontânea das membranas e início do trabalho de parto. Desfecho materno A paciente apresentou parto vaginal sem complicações e recebeu alta no segundo dia pós-parto em boas condições clínicas. No seguimento puerperal, não foram relatados novos problemas respiratórios agudos. Desfecho neonatal Nasceu um recém-nascido do sexo masculino, vigoroso, com: peso de 3.820 g, correspondente ao percentil 71; Apgar 7 no primeiro minuto; Apgar 9 no quinto minuto. Portanto, apesar da exacerbação asmática materna grave no segundo trimestre tardio e da necessidade de UTI, houve recuperação materna completa, prolongamento da gestação até o termo tardio e evolução neonatal favorável. Discussão A asma complica aproximadamente 4% a 8% das gestações. O comportamento da doença durante a gravidez é variável, com proporções aproximadamente semelhantes de pacientes apresentando melhora, piora ou estabilidade dos sintomas. A gravidade prévia da asma influencia o risco de exacerbações. Segundo os dados discutidos no artigo, entre pacientes com asma intermitente leve, aproximadamente 12,6% apresentam exacerbação durante a gestação e 2,3% necessitam hospitalização. Na asma grave, esses valores aumentam para aproximadamente 52% e 27%, respectivamente. O controle inadequado da asma associa-se a importantes repercussões maternas e fetais/neonatais. Entre elas estão exacerbações e maior utilização de serviços de emergência, hospital e UTI, distúrbios hipertensivos da gestação, cesariana e diabetes gestacional relacionado ao uso crônico de corticosteroides. Para o feto e recém-nascido, são descritos parto prematuro, restrição de crescimento fetal/pequeno para a idade gestacional, taquipneia transitória, hipoglicemia e admissão em UTI neonatal. A gestação também produz modificações fisiológicas respiratórias relevantes, incluindo redução da capacidade residual funcional e do volume de reserva expiratório, aumento da ventilação-minuto, elevação do diafragma pelo útero gravídico e alcalose respiratória fisiológica com redução da PaCO₂. Essa fisiologia tem implicação direta no cuidado intensivo. A hipocapnia materna fisiológica estabelece gradiente favorável à eliminação fetal de CO₂. Por esse motivo, a estratégia de hipercapnia permissiva é menos adequada na gestação do que em pacientes não gestantes. O tratamento da exacerbação asmática durante a gravidez é, em linhas gerais, semelhante ao utilizado na população adulta não gestante, porém com meta de saturação de oxigênio mais elevada para assegurar adequada oxigenação fetal. O artigo destaca como pilares terapêuticos o controle de fatores desencadeantes, monitorização do pico de fluxo expiratório, uso precoce de beta-2 agonista de curta ação, como albuterol, além de corticosteroides sistêmicos e magnésio intravenoso durante exacerbações. Outro ponto clinicamente relevante é que o receio dos efeitos fetais dos medicamentos pode levar gestantes a reduzirem o tratamento da asma. O artigo ressalta que a asma subtratada aumenta o risco de exacerbações. Quando corticosteroides sistêmicos são necessários, a prednisona apresenta passagem placentária mínima, e os benefícios do adequado controle materno geralmente superam os potenciais riscos associados ao tratamento. A intubação durante a gravidez também pode ser mais difícil devido ao edema das vias aéreas, redução da reserva pulmonar e atraso do esvaziamento gástrico, reforçando a importância do reconhecimento precoce

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