Incompatibilidade sanguínea ABO materno-fetal e doença hemolítica do recém-nascido Sobre o artigo A incompatibilidade sanguínea ABO entre mãe e recém-nascido é reconhecida como a causa mais frequente de doença hemolítica do recém-nascido (DHRN). Tradicionalmente, entretanto, a doença hemolítica por incompatibilidade ABO é considerada uma condição predominantemente leve, com repercussões clínicas limitadas. Essa interpretação está relacionada à percepção de que a hemólise decorrente de anticorpos maternos anti-A e anti-B geralmente provoca manifestações menos graves do que aquelas associadas à aloimunização Rh. Diferentemente dos anticorpos anti-D, os anticorpos IgG contra antígenos ABO podem surgir naturalmente, independentemente de sensibilização gestacional prévia. Mulheres com grupo sanguíneo O frequentemente apresentam anticorpos IgG anti-A, anti-B e anti-A,B, capazes de atravessar a placenta e provocar destruição das hemácias fetais. Apesar da elevada frequência da incompatibilidade ABO, ainda existem lacunas importantes sobre sua verdadeira contribuição para hiperbilirrubinemia neonatal, anemia, necessidade de hospitalização e manifestações graves de doença hemolítica. O estudo de Wu e colaboradores investigou os efeitos da incompatibilidade ABO materno-fetal em uma grande coorte chinesa, buscando determinar a frequência das complicações hematológicas e comparar os riscos associados às diferentes combinações sanguíneas. O objetivo central foi verificar se a incompatibilidade ABO representa um problema clínico mais relevante do que tradicionalmente reconhecido, especialmente nas combinações mãe O/recém-nascido A e mãe O/recém-nascido B. Métodos utilizados Foi realizado um estudo de coorte envolvendo recém-nascidos vivos atendidos no Dongguan Maternal and Child Health Hospital, na China, entre agosto de 2018 e setembro de 2022. Durante o período, foram acompanhados 52.525 nascidos vivos, dos quais 47.679 apresentavam tipagem sanguínea ABO materna e neonatal confirmada e foram incluídos nas análises específicas de incompatibilidade ABO. A população incluiu recém-nascidos a termo e prematuros, abrangendo diferentes idades gestacionais. Os participantes foram classificados conforme a combinação sanguínea materno-neonatal: Incompatibilidade O-A: mãe com grupo sanguíneo O e recém-nascido A. Incompatibilidade O-B: mãe com grupo sanguíneo O e recém-nascido B. Outras incompatibilidades ABO: combinações A-B, B-A, A-AB e B-AB. Compatibilidade ABO: combinações sem incompatibilidade sanguínea materno-neonatal. Monitoramento neonatal Todos os recém-nascidos permaneceram sob observação hospitalar por pelo menos 48 a 72 horas após o nascimento. A avaliação incluiu monitoramento da icterícia por bilirrubina transcutânea, dosagem sérica de bilirrubina quando indicada e investigação de anemia por concentração de hemoglobina. Após a alta, os recém-nascidos foram acompanhados pelos serviços comunitários de saúde, com registros disponíveis durante os primeiros 14 dias de vida. Definição dos desfechos A hiperbilirrubinemia neonatal foi definida conforme valores de bilirrubina que atingiam os critérios para fototerapia. A hiperbilirrubinemia grave foi caracterizada por níveis de bilirrubina que preenchiam indicação de exsanguineotransfusão ou pela ocorrência de encefalopatia bilirrubínica aguda. A anemia neonatal foi determinada utilizando limites de hemoglobina específicos para idade pós-natal e condição de prematuridade. A anemia grave foi definida conforme os limiares de hemoglobina utilizados no estudo para indicação de transfusão de concentrado de hemácias. O diagnóstico de doença hemolítica neonatal exigiu evidência sorológica de anticorpos incompatíveis, identificados no eluato das hemácias neonatais, associada à presença de hiperbilirrubinemia e/ou anemia. Análise estatística Foram utilizadas análises de regressão logística binária, com cálculo de odds ratios (OR) e intervalos de confiança de 95%. Os pesquisadores também realizaram análises excluindo recém-nascidos com outros fatores reconhecidos para hiperbilirrubinemia ou anemia, mantendo a prematuridade como condição permitida, para avaliar mais especificamente a associação com incompatibilidade ABO. O nível de significância estatística adotado foi p < 0,05. Resultados Características da população Entre os 47.679 recém-nascidos com tipagem ABO confirmada: 7.039 (14,76%) apresentavam incompatibilidade O-A ou O-B. 4.872 (10,22%) apresentavam outras formas de incompatibilidade ABO. 35.768 apresentavam compatibilidade ABO. Na população total de 52.525 nascidos vivos, foram identificados: Desfecho Incidência Hospitalização neonatal 18,74% Hiperbilirrubinemia neonatal 13,50% Hiperbilirrubinemia grave 0,46% Anemia neonatal 2,76% Anemia grave 1,03% Encefalopatia bilirrubínica aguda 2 casos Incompatibilidade ABO e risco de complicações Os recém-nascidos com incompatibilidade O-A ou O-B apresentaram taxas superiores de hospitalização, hiperbilirrubinemia e anemia em comparação aos recém-nascidos com outras combinações sanguíneas. Incidência dos principais desfechos conforme a combinação ABO Desfecho Mãe O / RN B Mãe O / RN A Compatíveis Hospitalização 30,22% 25,08% 16,57% Hiperbilirrubinemia 25,96% 20,33% 11,49% Hiperbilirrubinemia grave 1,31% 0,82% 0,35% Anemia 6,55% 4,48% 2,23% Anemia grave 1,76% 0,92% 0,91% Os resultados demonstraram uma hierarquia consistente de risco: Incompatibilidade O-B > incompatibilidade O-A > outras incompatibilidades ABO > compatibilidade ABO. A incompatibilidade O-B apresentou a maior associação com hospitalização, hiperbilirrubinemia, anemia e manifestações graves. Associação com hospitalização e hiperbilirrubinemia Em comparação aos recém-nascidos com compatibilidade ABO, aqueles com incompatibilidade O-B apresentaram: Maior chance de hospitalização: OR 2,18 (IC 95%: 2,02–2,36). Maior chance de hiperbilirrubinemia: OR 2,70 (IC 95%: 2,49–2,94). Maior chance de hiperbilirrubinemia grave: OR 3,82 (IC 95%: 2,70–5,39). Maior chance de anemia: OR 3,08 (IC 95%: 2,64–3,59). Após a exclusão de outros fatores associados à hiperbilirrubinemia, a incompatibilidade O-B apresentou OR de 8,47 (IC 95%: 7,47–9,61) para hiperbilirrubinemia e OR de 18,94 (IC 95%: 10,58–33,89) para hiperbilirrubinemia grave. Esses resultados reforçam a magnitude da associação entre incompatibilidade ABO e complicações neonatais. Incidência de doença hemolítica por incompatibilidade ABO Entre os 7.039 recém-nascidos com incompatibilidade O-A ou O-B: Doença hemolítica ABO 13,21% 930 recém-nascidos Doença hemolítica ABO grave 1,58% 111 recém-nascidos A incidência de doença hemolítica foi significativamente maior na incompatibilidade O-B. Indicador O-A O-B Doença hemolítica ABO 11,33% 15,27% Doença hemolítica ABO grave 1,14% 2,05% A comparação O-B versus O-A demonstrou: Doença hemolítica ABO: OR 1,41 (IC 95%: 1,23–1,62). Doença hemolítica ABO grave: OR 1,82 (IC 95%: 1,23–2,67). A incidência de doença hemolítica ABO grave na coorte foi mais de 40 vezes superior à incidência de doença hemolítica grave associada a anticorpos de outros sistemas sanguíneos, considerando as incidências globais relatadas pelos autores. Contribuição da doença hemolítica ABO para hiperbilirrubinemia e anemia Entre os recém-nascidos com incompatibilidade O-A ou O-B, a doença hemolítica ABO esteve envolvida em: Manifestação clínica Participação da doença hemolítica ABO Hiperbilirrubinemia 57,16% Hiperbilirrubinemia grave 95,95% Anemia neonatal 64,16% Anemia grave 49,46% Entre os 52 recém-nascidos com hiperbilirrubinemia grave atribuída exclusivamente à doença hemolítica ABO, um apresentou encefalopatia bilirrubínica aguda. Esses achados demonstram que a incompatibilidade ABO pode
Faça login para acessar o conteúdo
ou cadastre-se. | ESQUECI MINHA SENHA



