Promovendo uma cirurgia mais segura: intervenções em nível de sistema para melhorar a segurança perioperatória pediátrica Sobre o artigo A ocorrência de eventos adversos graves durante o período perioperatório representa um importante desafio para hospitais pediátricos. Após identificar um agrupamento de 13 eventos graves de segurança em um intervalo de 21 meses, um hospital pediátrico implementou uma estratégia baseada nos princípios das Organizações de Alta Confiabilidade (High Reliability Organizations – HRO) com o objetivo de fortalecer a cultura de segurança, reduzir danos aos pacientes e melhorar os processos assistenciais. O estudo descreve a implementação dessas intervenções e avalia seus impactos ao longo de mais de dois anos de acompanhamento. Métodos utilizados Trata-se de um projeto de melhoria da qualidade desenvolvido em um hospital pediátrico terciário, envolvendo todo o serviço perioperatório. Foram implementadas três intervenções principais: realização de pausas institucionais de segurança (Surgical Safety Stand-Downs); treinamento padronizado em prevenção de erros, utilizando ferramentas como ARCC, QVV, STAR e SBAR, organizadas no programa "Partnering on S.A.F.E. Care"; criação de um programa de Safety Coaches para treinamento contínuo e feedback entre pares. Paralelamente, foi reforçada a cultura justa (Just Culture), estimulando aprendizado organizacional, comunicação aberta e análise sistemática das causas dos eventos adversos. Os principais desfechos avaliados foram: número de cirurgias entre eventos graves de segurança; dias entre eventos graves; volume cirúrgico (medida de equilíbrio); número de notificações espontâneas de segurança realizadas pelos profissionais. Resultados Após a implementação das intervenções, observou-se uma melhora expressiva na segurança perioperatória. Os principais resultados foram: aumento da média de 2.977 procedimentos entre eventos graves para 39.654 procedimentos antes da ocorrência do próximo evento grave; aumento do intervalo entre eventos graves de aproximadamente 50 dias para 585 dias; os dois eventos subsequentes também permaneceram muito acima da média histórica, com 13.040 e 14.715 cirurgias entre eventos; não houve redução do volume cirúrgico durante o período estudado; houve aumento progressivo das notificações de segurança, sugerindo fortalecimento da cultura de reporte; 87% dos colaboradores completaram o treinamento obrigatório no primeiro ano; o programa de Safety Coaches expandiu-se de 21 para 28 participantes, representando 16 diferentes funções profissionais. Discussão Os autores atribuem o sucesso das intervenções principalmente à integração de estratégias voltadas para cultura organizacional e liderança. Entre os fatores considerados determinantes destacam-se: forte apoio da liderança institucional; transparência na divulgação dos eventos de segurança; fortalecimento da segurança psicológica para estimular que profissionais reportassem riscos; utilização padronizada de ferramentas de comunicação; atuação contínua dos Safety Coaches junto às equipes assistenciais; incorporação dos princípios das Organizações de Alta Confiabilidade (HRO) à prática diária. Os autores ressaltam que intervenções isoladas costumam produzir resultados limitados, enquanto estratégias integradas promovem mudanças culturais sustentáveis. Como limitações, destacam que o estudo foi realizado em um único centro pediátrico, dependente do forte engajamento institucional, o que pode limitar sua generalização para outros serviços. Além disso, a notificação de eventos permanece voluntária, podendo haver subnotificação. Conclusão A implementação coordenada de intervenções sistêmicas fundamentadas nos princípios das Organizações de Alta Confiabilidade foi associada à redução expressiva de eventos graves de segurança no ambiente perioperatório pediátrico, sem comprometer o volume cirúrgico. O estudo demonstra que estratégias voltadas à cultura de segurança, treinamento contínuo, liderança ativa e comunicação estruturada podem promover melhorias sustentáveis na qualidade assistencial. Insights clínicos As intervenções reduziram eventos graves de segurança? Sim. Houve aumento expressivo no número de cirurgias realizadas entre eventos graves, indicando melhora consistente da segurança assistencial. Quais foram as principais estratégias implementadas? Pausas institucionais de segurança, treinamento estruturado em prevenção de erros, criação do programa Safety Coach e fortalecimento da Just Culture. O treinamento envolveu apenas médicos? Não. A estratégia foi multidisciplinar, incluindo cirurgiões, anestesiologistas, enfermagem, residentes e demais profissionais do ambiente perioperatório. A segurança foi melhorada às custas da redução do número de cirurgias? Não. O volume cirúrgico permaneceu estável e apresentou tendência de crescimento durante o acompanhamento. Por que aumentaram as notificações de segurança? Os autores interpretam esse aumento como sinal de fortalecimento da cultura de segurança e da segurança psicológica, estimulando os profissionais a relatarem eventos e quase-erros. Qual a principal mensagem para a prática clínica? Programas institucionais que combinam liderança ativa, cultura justa, comunicação estruturada, treinamento contínuo e feedback entre pares podem reduzir significativamente eventos graves e tornar o ambiente cirúrgico pediátrico mais seguro. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
Faça login para acessar o conteúdo
ou cadastre-se. | ESQUECI MINHA SENHA


