Suporte Avançado de Vida Pediátrico: Consenso Internacional ILCOR 2025 sobre Ciência e Recomendações de Tratamento Sobre o artigo Este documento representa a atualização de 2025 do International Liaison Committee on Resuscitation (ILCOR) para suporte avançado de vida pediátrico, consolidando evidências científicas publicadas desde o consenso de 2020 e incorporando novas revisões sistemáticas, revisões de escopo e atualizações de evidências relacionadas à parada cardiorrespiratória pediátrica. Foram abordadas 39 questões clínicas distribuídas nas fases de: Pré-parada cardíaca; Durante a ressuscitação; Pós-retorno da circulação espontânea. O objetivo principal foi produzir recomendações globais baseadas em evidências para otimizar a sobrevida e os desfechos neurológicos de crianças com parada cardiorrespiratória. Métodos utilizados O documento utilizou a metodologia padrão do ILCOR baseada no sistema GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation) para classificação da qualidade das evidências e força das recomendações. Foram incluídos: Revisões sistemáticas; Revisões de escopo; Atualizações de evidência; Estudos observacionais; Ensaios clínicos randomizados quando disponíveis. Foram excluídos: Estudos em animais; Simulações sem desfechos clínicos; Modelos matemáticos; Resumos de congressos e protocolos não publicados. Os desfechos priorizados seguiram o conjunto internacional P-COSCA (Pediatric Core Outcome Set for Cardiac Arrest), privilegiando sobrevida e prognóstico neurológico. Resultados Principais atualizações do consenso 2025 1. Bradicardia com comprometimento hemodinâmico Recomenda-se considerar início precoce da RCP em crianças com bradicardia e má perfusão refratárias à oxigenação e ventilação. As recomendações anteriores para uso rotineiro de atropina e epinefrina nessa situação foram retiradas devido à insuficiência de evidências. 2. Sequência ABC versus CAB Não existem evidências suficientes para recomendar definitivamente iniciar a RCP com ventilação (ABC) ou compressões (CAB). Ambas as estratégias são consideradas aceitáveis. O consenso reforça que ventilação e compressões são igualmente fundamentais na PCR pediátrica. 3. Via aérea avançada Em PCR extra-hospitalar, a ventilação com bolsa-válvula-máscara permanece preferível à intubação traqueal rotineira. A via aérea avançada deve ser utilizada apenas quando houver equipe treinada e sem prejuízo à qualidade das compressões torácicas. 4. Frequência ventilatória durante RCP com via aérea avançada Não há evidências suficientes para definir uma frequência ventilatória ideal. O ILCOR sugere utilizar frequências próximas às fisiológicas para a idade, evitando hipoventilação e hiperventilação. 5. Desfibrilação pediátrica Dose inicial recomendada: 2 a 4 J/kg para fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso. Não há evidência de superioridade entre 2 J/kg e 4 J/kg como primeira descarga. 6. Posicionamento das pás Recomenda-se posicionamento ântero-posterior em lactentes e crianças pequenas. O posicionamento deve maximizar a área cardíaca coberta e evitar contato entre as pás. 7. Choques únicos versus choques empilhados Mantém-se a estratégia de um único choque seguido imediatamente de compressões torácicas. Não existem estudos pediátricos apoiando a estratégia de choques empilhados. 8. Uso do DEA por leigos Recomenda-se utilização do DEA em todas as crianças acima de 1 ano com PCR extra-hospitalar não traumática. Para menores de 1 ano, não existem evidências suficientes para recomendação formal. 9. Verificação de pulso A palpação do pulso isoladamente não é confiável para diagnosticar parada cardíaca. Crianças inconscientes, sem respiração normal e sem sinais de vida devem receber RCP imediatamente. 10. Hipertensão pulmonar Devem ser evitados fatores que aumentam a resistência vascular pulmonar, como: Hipóxia; Hipercapnia; Acidose; Dor; Agitação; Sobrecarga hídrica. ECMO pode ser considerada precocemente em casos refratários ou como ECPR. Discussão O consenso evidencia a persistente escassez de ensaios clínicos pediátricos em ressuscitação, fazendo com que grande parte das recomendações continue baseada em estudos observacionais, extrapolações de dados adultos e consenso de especialistas. Os autores reforçam a necessidade de: Estudos multicêntricos pediátricos; Registros internacionais padronizados; Avaliação de desfechos neurológicos de longo prazo; Pesquisas específicas em monitorização intra-parada e estratégias ventilatórias. Conclusão O ILCOR 2025 mantém a maior parte das recomendações fundamentais de ressuscitação pediátrica, mas atualiza importantes aspectos relacionados ao manejo da bradicardia, desfibrilação, monitorização e suporte ventilatório. As principais mensagens clínicas incluem: Priorizar compressões torácicas de alta qualidade; Minimizar interrupções durante a RCP; Utilizar ventilação eficaz sem comprometer compressões; Considerar precocemente suporte extracorpóreo em pacientes selecionados; Reconhecer que ainda existem importantes lacunas de evidência em ressuscitação pediátrica. Insights clínicos Quando iniciar compressões em crianças com bradicardia? Deve-se considerar iniciar RCP quando houver bradicardia associada à má perfusão que não responde rapidamente à ventilação e oxigenação adequadas. CAB substituiu definitivamente o ABC na pediatria? Não. O consenso considera ambas as abordagens aceitáveis até que existam evidências pediátricas mais robustas. A intubação deve ser prioridade durante a PCR pediátrica? Não. O principal objetivo é garantir ventilação e oxigenação eficazes sem interromper compressões de qualidade. Qual dose inicial de desfibrilação deve ser utilizada? Entre 2 e 4 J/kg para fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso. Devemos utilizar três choques consecutivos? Não. A estratégia recomendada continua sendo um único choque seguido imediatamente por compressões torácicas. A palpação do pulso é suficiente para decidir iniciar RCP? Não. A ausência de sinais de vida e de respiração normal é suficiente para iniciar ressuscitação. Quando considerar ECMO ou ECPR? Em pacientes selecionados com hipertensão pulmonar grave, falência circulatória refratária ou PCR potencialmente reversível em centros com expertise disponível. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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