[AAP 2025] Acne vulgar: atualização na abordagem do tratamento

Por: Maria Paula Aquino Acne Vulgaris: Update on Approach to Treatment A acne vulgar continua sendo um dos problemas dermatológicos mais comuns na adolescência, mas o entendimento sobre sua origem e tratamento tem avançado rapidamente. Durante o Congresso Americano de Pediatria de 2025, a professora Ingrid Polcari, da Universidade de Minnesota, apresentou uma atualização sobre a abordagem clínica da acne, destacando desde a compreensão da epidemiologia e patogênese até a avaliação da gravidade e a escolha do tratamento ideal. A sessão também reforçou quando o encaminhamento ao especialista é recomendado, ajudando pediatras a oferecer um manejo mais preciso e personalizado para cada paciente. Mais que pele: o peso emocional da acne em adolescentes  A acne vai muito além de uma questão estética — seu impacto na vida dos adolescentes pode ser profundo e duradouro. Estudos mostram que o comprometimento da qualidade de vida em jovens com acne é comparável ao de doenças crônicas como asma, psoríase e artrite. Além disso, o quadro está frequentemente ligado a estigmatização, bullying, ansiedade, depressão e até ideação suicida. É importante lembrar que a percepção do paciente nem sempre acompanha a gravidade clínica da doença — mesmo casos leves podem gerar grande sofrimento emocional e afetar o bem-estar psicológico.  A acne é uma das condições dermatológicas mais prevalentes nos Estados Unidos, afetando cerca de 50 milhões de pessoas. Estima-se que entre 80% e 85% dos jovens de 11 a 25 anos apresentem algum grau da doença, sendo mais frequente em homens. Embora mais associada à adolescência, também pode acometer bebês, crianças menores de 9 anos e até 12% das mulheres acima dos 25 anos, reforçando seu caráter abrangente e multifatorial. Quatro fatores chave da patogênese  Queratinização anormal: as células da pele (corneócitos) aderem de forma irregular e ficam retidas dentro do folículo, dando origem ao microcomedão, a lesão inicial da acne. Esse processo está parcialmente relacionado à ação dos andrógenos, hormônios que estimulam a atividade folicular. Aumento da produção de sebo: os andrógenos também promovem o crescimento das glândulas sebáceas e o aumento da secreção de sebo. O exame de dosagem de andrógenos não é indicado rotineiramente, exceto quando há sinais clínicos de hiperandrogenismo (como hirsutismo, irregularidades menstruais, alopecia androgenética, síndrome dos ovários policísticos ou obesidade central). Cutibacterium acnes (C. acnes): essa bactéria anaeróbica Gram-positiva, normalmente presente na pele, utiliza o sebo como fonte de energia. Seus subprodutos metabólicos (como os ácidos graxos livres) funcionam como mediadores inflamatórios e quimiotáticos, desencadeando resposta local. Inflamação e resposta imune: o sistema imunológico reage aos mediadores inflamatórios produzidos pelo C. acnes. Quando o folículo se rompe na derme, ocorre uma reação inflamatória mais intensa, semelhante à de corpo estranho. O tipo e a gravidade da acne variam conforme a sensibilidade individual à bactéria e à resposta imunológica do hospedeiro. Nem toda acne é igual: reconhecendo padrões para tratar melhor  A definição do tipo e da gravidade da acne é o ponto de partida para escolher o tratamento mais adequado. A doença pode se apresentar na forma comedonal (cravos abertos e fechados), inflamatória (pústulas e nódulos) ou mista, quando há combinação de ambas. A severidade é classificada como leve, moderada ou grave, de acordo com a extensão e profundidade das lesões. Também é importante avaliar possíveis sequelas, como cicatrizes permanentes ou hiperpigmentação pós-inflamatória, geralmente temporária. Com base nessa classificação, as diretrizes da American Academy of Dermatology (AAD) de 2024 propõem 18 recomendações terapêuticas atualizadas e baseadas em evidências para orientar a abordagem clínica individualizada.  Tratamento da Acne Leve: foco no uso correto dos tópicos  O manejo da acne leve geralmente combina cuidados básicos com a pele e terapias tópicas. O objetivo é reduzir a inflamação, controlar a produção de sebo e prevenir novas lesões, utilizando uma estratégia multimodal que inclui retinoides, peróxido de benzoíla e, em alguns casos, antibióticos tópicos.  Os retinoides tópicos continuam sendo a base do tratamento, graças à sua capacidade de normalizar a renovação celular e prevenir a formação de comedões. A escolha da formulação depende da tolerância do paciente, da gravidade do quadro e do tipo de pele — géis tendem a ser mais secativos, enquanto cremes são mais hidratantes. Formulações com microesferas podem oferecer melhor tolerabilidade.  Aconselhamento sobre o uso de retinoides tópicos:  Escolher a concentração e o veículo (gel ou creme) conforme a tolerância do paciente.  Iniciar com a estratégia “baixa e lenta”, aplicando o produto em noites alternadas (a cada 2–3 dias). Aumentar gradualmente até o uso noturno, se houver boa tolerância.  Aplicar em todas as áreas propensas à acne, e não apenas sobre as lesões visíveis.  Hidratar a pele após a aplicação (ou antes, se necessário) para reduzir irritação.  Orientar o paciente sobre sensibilidade solar, reforçando o uso diário de protetor solar.  Explicar que os resultados surgem em média após 12 semanas de uso contínuo.  Além dos retinoides, o peróxido de benzoíla permanece como um dos pilares do tratamento. Deve ser armazenado em local fresco, já que há relatos de formação de benzeno quando exposto a altas temperaturas. O BPO é mais eficaz do que o ácido salicílico e deve ser preferido sempre que possível.  Os antibióticos tópicos também podem ser utilizados, mas com cautela. A eritromicina deve ser evitada devido à alta resistência bacteriana, enquanto a clindamicina deve sempre ser combinada com BPO para prevenir o mesmo problema.  Outra opção é o clascoterone 1% creme, aprovado pela FDA em 2020. Esse agente atua como um bloqueador do DHT (dihidrotestosterona), reduzindo a produção de sebo e a inflamação. Apesar da boa eficácia, seu uso ainda é limitado pelo alto custo e baixa disponibilidade.  Tratamento da Acne Moderada: quando os tópicos não são mais suficientes  Nos casos de acne moderada, a abordagem combina terapias tópicas com o uso de agentes sistêmicos, buscando controlar a inflamação, reduzir a proliferação bacteriana e equilibrar fatores hormonais. Essa etapa é indicada quando a acne não responde adequadamente ao tratamento tópico isolado ou quando há envolvimento mais extenso do tronco e face.  Entre os antibióticos orais, a doxiciclina é a mais recomendada, embora seu uso deva ser cauteloso devido ao risco de

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