Por Maria Paula Aquino No contexto do Congresso Americano de Pediatria, um dos maiores e mais influentes encontros da pediatria mundial ocorrido neste ano em Denver, Colorado, o tema reúne duas frentes críticas emergentes — o uso de cigarros eletrônicos aromatizados, especialmente entre adolescentes, e os desafios virais que incentivam comportamentos perigosos de inalação. Essa abordagem é vital para alertar profissionais de saúde e educadores sobre os riscos respiratórios, neurológicos e psicossociais envolvendo substâncias inaladas, além de orientar estratégias de prevenção eficazes na saúde infantil. O desafio da canela (The Cinnamon Challenge) Você já ouviu falar do “Desafio da Canela”? A proposta parece simples: engolir uma colher de sopa de canela em 60 segundos sem beber água. Popular em 2012, o desafio chegou a registrar 70 mil menções diárias no Twitter e mais de 19 milhões de visualizações. Mas os riscos são sérios — o cinamaldeído, composto presente na canela, pode causar asfixia, tosse intensa e aspiração, enquanto suas partículas de celulose podem levar à inflamação pulmonar e fibrose. Especialistas alertam que, por trás do desafio, há influência das redes sociais e da pressão dos colegas, e cabe ao pediatra orientar os jovens sobre os perigos de seguir essas tendências. Cigarros combustíveis e uso de tabaco As taxas de tabagismo (cigarros combustíveis) estão em níveis historicamente baixos nos EUA, principalmente devido as políticas públicas de saúde. 2% dos estudantes do ensino médio; 1% do ensino fundamental. Apesar disso, o tabagismo permanece mais alto em certos grupos mais vulneráveis como jovens de baixa renda, em situação de rua, LGBTQ+, e com problemas de saúde mental (depressão). Os riscos a longo prazo de câncer e doença cardiovascular, são bem estabelecidos. Cigarros eletrônicos (Vapes) e nicotina O uso de cigarros eletrônicos está em declínio, mas os jovens que usam o fazem com maior frequência. A aula destaca a influência dos familiares e amigos na iniciação e dependência de nicotina, aumentando de forma expressiva o risco, além de normalizar e glamorizar o uso. Você sabe o que realmente está por trás dos sabores dos cigarros eletrônicos? Cerca de 85% dos usuários preferem versões com aroma de menta, frutas ou mentol — substâncias consideradas seguras apenas para uso alimentar, não para inalação. Quando inaladas, essas substâncias podem irritar as vias aéreas e danificar as células ciliadas responsáveis pela defesa dos pulmões. Em ambientes industriais, a exposição prolongada a esses compostos já foi associada a lesões pulmonares graves. Nicotina e o cérebro adolescente O cérebro adolescente é unicamente suscetível aos efeitos da nicotina devido ao seu estágio de desenvolvimento e plasticidade neural. A nicotina prejudica a atenção e a concentração e aumenta a impulsividade, além de ativar vias de recompensa, podendo causar sintomas de abstinência. Os efeitos pulmonares agudos estão relacionados com a deposição de partículas ultrafinas e inflamação, podendo causar Doença Pulmonar Aguda, incluindo pneumonia eosinofílica e pneumotórax, dentre outras. O surto de EVALI (Lesão Pulmonar Associada ao Uso de E-cigarro ou Vaping) resultou em mais de 2800 casos e 68 mortes, nos Estado Unidos. As principais sequelas são: sintomas respiratórios (48%), limitação cognitiva (39%), depressão/ansiedade (59%) e sintomas de TEPT (62%). A função pulmonar geralmente se normaliza após 12 meses. Sobre os efeitos a longo prazo, ainda não são totalmente compreendidos, mas os principais acometimentos são ao sistema pulmonar e cardiovascular. Uso de canábis inalada Nos estados norte-americanos onde a cannabis é legalizada — seja para uso médico, em 39 estados, ou recreativo, em 24 — a percepção de risco tende a ser menor e o acesso, maior. O uso mais frequente e intenso tem elevado o risco de transtorno por uso de substâncias: dentro de três anos após o início, um em cada cinco adolescentes e um em cada dez jovens adultos já apresentam sinais de dependência. A curto prazo, os efeitos pulmonares incluem tosse, chiado, dispneia e sintomas semelhantes à bronquite. A longo prazo, estudos apontam associação entre o fumo de cannabis e maior risco de câncer de pulmão, resistência das vias aéreas e infecções respiratórias. Influência do marketing A aula reforça que exposição à mídia relacionada ao vapping impulsiona o início do uso. Uma revisão de 73 estudos mostrou que 76.3% das representações de uso de substâncias nas mídias sociais eram positivas, diminuindo a percepção de risco dos adolescentes. Mudanças Sugeridas na Prática Clínica Rastreio: rastrear o uso de produtos de tabaco em todas as consultas para crianças acima de 11 anos. Aconselhamento: falar com jovens e pais sobre a percepção de risco das várias substâncias. 3. Opções de Cessação: oferecer opções de cessação que incluam abordagens comportamentais e farmacológicas (as principais medicações em estudo para cessação do uso de nicotina são vareniclina e bupropiona). Referência da aula: FARICY, L. E., From flavored vapes to viral videos and the “Cinnamon challenge”: What pediatricians need to know about youth use of inhaled substances. Congresso da Academia Americana de Pediatria (AAP), 2025 - Denver, Colorado.
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