Por Jasmin Pacheco O que há de mais novo sobre autismo? Um dos hot topics do Congresso Americano de Pediatria de 2025, ocorrido no final de setembro no Colorado, foi apresentado pela pediatra do desenvolvimento Adiaha Spinks-Franklin. Em um tom divertido e envolvente, porém ao mesmo tempo sério e com muitas pautas importantes, a apresentadora abordou desde o porquê do aumento dos casos de autismo, mitos comuns, até formas diagnósticas e tratamento. O resumo feito pela NeoPedHub você encontra aqui: O que há de recente de estatísticas de TEA? Em 2025 foi publicado um estudo do CDC com dados até 2022. Uma coorte com dados de 16 estados dos EUA, de um programa de monitoramento de autismo e transtornos do desenvolvimento. Eram grupos de crianças de 4 anos e 8 anos, avaliadas por: sexo, raça, renda familiar e índice de vulnerabilidade social (IVS). Para definição de identificação da criança como autista, foi utilizado pelo o menos 1 dos 3 critérios abaixo: Avaliação do desenvolvimento (registros médicos); Elegibilidade para educação especial; Código CID de TEA em registros (CID-9 na faixa 299 e CID-10 F84.0, F84.3, F84.5, F84.8 ou F84.9). Aqui foi reforçado que educadores não diagnosticam autismo, eles determinam eligibilidade para educação especial na escola, já que é muito frequente pais virem com a fala “o professor diagnosticou meu filho com autismo”. O resultado do estudo? Cerca de 1/3 das crianças preenchia os 3 critérios. E o mais importante: 32% das crianças e tituladas como autista não passaram por avaliação do desenvolvimento. Além disso, 1 a cada 31 crianças de 8 anos foi considerada autista por algum dos 3 critérios, sendo uma proporção de 3 meninos para cada 1 menina. Em relação a raça, brancos tiveram menor número do que negros e outras raças. Não houve diferenças em renda familiar, mas com crianças com alto índice de vulnerabilidade tiveram mais diagnóstico de autismo. Além disso, 40% das crianças identificadas como autista tinham déficits intelectuais (QI < 70%). Por que aumentaram os casos de autismo? De acordo com o mesmo relatório do CDC (CDC AADM 2022), a prevalência do autismo em 2000 era de 6 a cada 1000 crianças, aumentando para 15 a cada 1000 crianças em 2020 e 32 a cada 1000 crianças em 2022: A palestra elencou os principais motivos desse aumento de diagnósticos: Aumento da consciência da população sobre o autismo; Realização de rastreio universal de rotina pelos pediatras (recomendação da AAP); Melhores ferramentas diagnósticas; Ampliação dos critérios pelo DM5 → criação do transtorno do espectro autista, com muitos diagnósticos inseridos conjuntamente; Mais serviços e recursos para crianças autistas e suas famílias; Leis estaduais/federais associadas ao autismo. Uma grande preocupação? Hoje muitos profissionais (e cuidadores) querem definir como “autista” e “não autista”, porém existem diversos outros diagnósticos diferenciais de alterações do neurodesenvolvimento: 5% das crianças com atrasos no desenvolvimento tem como origem síndrome alcoólica fetal (sendo ainda um número subestimado, considerando que 80% das crianças com síndrome alcoólica fetal não são diagnosticadas); 10% das crianças com atrasos no desenvolvimento tem déficit de atenção e hiperatividade; 15% das crianças com atrasos no desenvolvimento tem dificuldades em leitura; 3% das crianças com atrasos no desenvolvimento tem TEA. Etiologia Herança multifatorial complexa Alta hereditariedade (64-91%), milhares de genes associados ao TEA identificados Interações gene-ambiente Destacado que o uso de paracetamol na gravidez não aumenta risco de autismo e nada que os pais façam que cause autismo. A Linguagem Importa Falar “criança autista” (foco na identidade) e falar “criança com autismo” (linguagem centrada na pessoa) soa diferente e a linguagem importa. Para muitos, o autismo é uma identidade, mas é fundamental perguntar ao paciente o que ele prefere, sempre. Importante não utilizar frases como "curar o autismo", encorajar mascaramento, "sofre de autismo", seja com o paciente ou com outros profissionais de saúde. Critérios Diagnósticos DSM-5 para TEA Para diagnóstico de transtorno do espetro autista (TEA) pelo DSM-5, a criança precisa preencher os seguintes critérios (A-E): Déficits persistentes em comunicação social e interação social em múltiplos contextos, manifestados pelo seguinte, atualmente ou por história (TODOS os seguintes): Déficits em reciprocidade socioemocional (exemplo: acenar a cabeça). Déficits em comportamentos comunicativos não-verbais usados para interação social → reforçado uso do termo "non-speaking por que todos fazemos também comunicação não verbal. Dificuldades em desenvolver, manter e compreender relacionamentos → contato olho a olho não necessariamente faz parte (existem culturas que não se faz esse tipo de contato visual, seja por hierarquia, medo…). Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, manifestados por pelo menos dois dos 3 critérios, atualmente ou por história: Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos Insistência em mesmice, aderência inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não-verbal (inflexibilidade) Interesses altamente restritos e fixados que são anormais em intensidade ou foco (como obsessões prazerosas) Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensorial ou interesse incomum em aspectos sensoriais do ambiente → algumas pessoas podem ter hipersensibilidade (como ao cheio, a sons…) mas não necessariamente são autistas. Sintomas devem estar presentes no período desenvolvimental precoce (mas podem não se manifestar completamente até que demandas sociais excedam capacidades limitadas, ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas na vida adulta). → ferramenta útil: ver fotos e vídeos do aniversário de um ano ou de reuniões familiares e ver como a criança interagia socialmente. Sintomas causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, ocupacional ou outras áreasimportantes do funcionamento atual. Essas alterações não são melhor explicadas por deficiência intelectual (transtorno do desenvolvimento intelectual) ou atraso global do desenvolvimento. Deficiência intelectual e transtorno do espectro autista frequentemente co-ocorrem Para fazer diagnósticos comórbidos de transtorno do espectro autista e deficiência intelectual, a comunicação social deve estar abaixo do esperado para o nível geral de desenvolvimento. Níveis de Gravidade para TEA (DSM-V) Não há evidências robustas de se falar em níveis, mas é pergunta frequente dos pais e ajuda a entender como a criança está naquele momento, mas muitos pediatras do desenvolvimento nem usam pela falta de evidência. Observação: a mesma criança pode ter níveis diferentes
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