Por Carolina Paixão Sífilis Congênita – Uma Crise Evitável O conteúdo é baseado em uma aula apresentada durante o congresso anual da American Academy of Pediatrics (AAP) de 2025, realizado entre os dias 26 e 30 de setembro, em Denver, Colorado (EUA).“Todo caso de sífilis congênita deve ser visto como uma falha do nosso sistema de saúde pública em fornecer cuidados pré-natais ideais para gestantes, visto que a sífilis congênita pode ser prevenida por rastreamento sorológico pré-natal precoce e repetido das mães e tratamento com penicilina de mulheres infectadas, seus parceiros sexuais e seus recém-nascidos.” Cooper JM e Sanchez PJ, Seminars in Perinatology 42(3):176-184 (2018) Treponema pallidum Descrita como uma bactéria Gram-negativa com base em sua estrutura de membrana dupla No entanto, filogeneticamente, a bactéria não é como a maioria das Gram-negativas, pois não possui lipopolissacarídeos de membrana e tem uma composição de fosfolipídios da membrana externa diferente. A maioria de suas lipoproteínas não está na membrana externa, o que impede a ativação das respostas imunológicas do hospedeiro. A bactéria não pode ser cultivada comercialmente em meio artificial. Sífilis Congênita (SC) Descrita pela primeira vez por Gaspard Torella (1497) Sífilis Congênita: Período fetal Anomalias fetais/placentárias: Hidropsia fetal Lesão gastrointestinal e óssea, Anemia [Dopplers da ACM elevados] Placentomegalia Corioamnionite Sífilis Congênita Precoce: Manifestações Clínicas - Diagnosticadas em < 2 anos de idade Restrição de crescimento intrauterino Hepatoesplenomegalia/hepatite Linfadenopatia, anemia, trombocitopenia Pneumonia alba Coriza sifilítica Pênfigo (erupção cutânea) Ortopédica: ◦ Osteocondrite, periostite ◦ Sinal de Wimberger ◦ Pseudoparalisia de Parrot Renal: ◦ Síndrome nefrótica Ocular: ◦ Coriorretinite SNC ◦ Leptomeningite, sífilis meningovascular crônica (hidrocefalia, paralisia de nervos cranianos (NC), infartos vasculares) Manifestações Tardias da Sífilis Congênita - Crianças de 2 anos de idade ou mais SNC ◦ Retardo mental ◦ Convulsões ◦ Envolvimento do VIII par craniano (Vestibulococlear) - Perda auditiva aguda entre 8 e 10 anos de idade Ortopédica ◦ Sinal de Higouménakis (espessamento/deformidade esternoclavicular) Anormalidades Orofaríngeas ◦ Perfuração palatina ◦ Molares em amora (Mulberry molars) ◦ Incisivos de Hutchinson ◦ Perda precoce dos dentes de leite “Tríade de Hutchinson”: Incisivos de Hutchinson Ceratite intersticial Lesão do VIII NC Anormalidades da Face ◦ Nariz em sela ◦ Hipoplasia maxilar ◦ Bossas frontais Sífilis: Rastreamento e Diagnóstico Achados do exame físico História materna Testes não-treponêmicos (RPR / VDRL) Anticorpos IgM/IgG contra material lipoidal de células danificadas, bem como material tipo lipoproteína e cardiolipina de treponemas. Aparecem entre 3-6 semanas após a infecção. Testes não-treponêmicos quantitativos usados para estabelecer linha de base de reatividade, recuperação após o tratamento, evidência de reinfecção. Testes Rápidos: Identificam IgM, IgA, IgG contra antígenos recombinantes de T. pallidum com tiras imunocromatográficas. Baratos ($1-3/kit) Resultado rápido (5-20 minutos). Imunoensaios de Quimioluminescência (CIA): Micropartículas paramagnéticas revestidas com antígenos de T. pallidum Medem anticorpos IgG/IgM. Imunoensaios Enzimáticos (EIA): Medem IgG ou IgG/IgM contra antígenos de T. pallidum de tipo selvagem ou recombinantes. Testes treponêmicos precoces Anticorpos IgM/IgG de soro reativo se ligam a T. pallidum fixado (FTA-ABS, MHA-TP, TPPA, THPA) Usados como confirmação de resultados não-treponêmicos Permanecem positivos após a infecção inicial. Algoritmo de Rastreamento Tradicional: Teste Sorológico Não Treponêmico [Rastreamento] —> Teste Sorológico Treponêmico [Confirmação] Algoritmo de Rastreamento por Sequência Reversa (RS): Teste Sorológico Treponêmico [Rastreamento] —> Teste Sorológico Não Treponêmico Racional: Imunoensaios de Quimioluminescência e enzimáticos são altamente automatizados Elimina pipetagem manual e subjetividade humana Permite o processamento rápido de grandes volumes de amostras O Que Significa um Teste CIA/EIA Positivo na Gravidez? Se um teste treponêmico (por exemplo, EIA ou CIA) for usado para o rastreamento de sífilis anteparto, todos os testes EIA/CIA positivos devem ser investigados com um teste não-treponêmico quantitativo (RPR ou VDRL). Se o teste não-treponêmico for negativo, os resultados são considerados discrepantes e um segundo teste treponêmico (TP-PA) deve ser realizado, de preferência na mesma amostra. Se o segundo teste treponêmico for positivo, a infecção atual ou passada por sífilis pode ser confirmada. Mulheres sem histórico de tratamento devem ser estadiadas e tratadas de acordo com um regime de penicilina recomendado. Se o segundo teste treponêmico for negativo, o EIA/CIA positivo é mais provável que represente um resultado de teste falso-positivo em mulheres de baixo risco sem histórico de sífilis tratada. Se a mulher for de baixo risco para sífilis, não apresentar sinais ou sintomas de sífilis primária, tiver um parceiro sem evidência clínica ou sorológica de sífilis e for provável que faça o acompanhamento, pode-se considerar repetir o teste sorológico dentro de 4 semanas para determinar se o EIA/CIA permanece positivo ou se o RPR/VDRL ou o TP-PA se tornam positivos. Se tanto o RPR quanto o TP-PA permanecerem negativos, nenhum tratamento adicional é necessário. Se o acompanhamento não for possível, mulheres sem histórico de sífilis tratada devem ser tratadas de acordo com o estágio da sífilis. Os problemas com a disponibilidade de Penicilina: 2023 o FDA foi informado pela Pfizer, a descontinuação da produção de penicilina procaína. 16 de janeiro de 2024: O FDA permitiu temporariamente que uma formulação francesa de penicilina G benzatina fosse usada para abordar a escassez de penicilina G benzatina nos EUA. 18 de julho de 2024: O FDA permitiu temporariamente que uma formulação portuguesa de penicilina G benzatina fosse usada para abordar a escassez de penicilina G benzatina nos EUA. Setembro de 2024: Um aumento nas formulações adultas de penicilina G benzatina resultou na pronta disponibilidade do medicamento. Julho de 2025: O fabricante emitiu um recall voluntário de lotes específicos de penicilina G benzatina devido a partículas visíveis. Considerações Especiais Na ausência de penicilina G cristalina aquosa ou penicilina procaína, ceftriaxona (50-75 mg/kg por dia intravenosa, diariamente) pode ser usada SE ◦ O paciente tiver acompanhamento clínico e sorológico rigoroso ◦ Um especialista em doenças infecciosas pediátricas for consultado ◦ A criança não tiver hiperbilirrubinemia ◦ A criança não estiver recebendo fluidos IV contendo cálcio Porém as evidências existentes são insuficientes para apoiar o uso de ceftriaxona como tratamento da sífilis congênita. Pacientes com alergias à penicilina devem ser dessensibilizados e tratados
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