[AAP 2025] Telas e desenvolvimento: O que pediatras precisam saber?

Por Ruth Fiszon Zagarodny Em um mundo cada vez mais conectado, a presença das telas na vida das crianças começa cedo e levanta dúvidas legítimas entre pais e profissionais de saúde. Como o uso de tablets, celulares e TV afeta o desenvolvimento infantil? O que a ciência já sabe sobre isso? Essas perguntas nortearam a palestra da pediatra do desenvolvimento e comportamento Tiffany Munzer,da Universidade de Michigan. A base do desenvolvimento começa cedo  Os primeiros anos de vida — do nascimento até os cinco anos — são um período de crescimento intenso do cérebro. Aos três anos, cerca de 80% da estrutura cerebral já está formada. Nesse estágio, as crianças precisam de um ambiente seguro, estável e afetuoso, com boa nutrição e vínculos consistentes com seus cuidadores. É nesse contexto que se constroem as bases da saúde e do aprendizado para toda a vida. O novo cenário digital  Diferente da geração anterior, em que a televisão ocupava um canto da sala, a mídia digital atual é móvel, imersiva e interativa. Hoje, ela está presente em todos os espaços: é sala de aula, é parque, é entretenimento e, muitas vezes, um mediador das relações familiares. Os dispositivos não apenas exibem conteúdo — eles coletam dados, personalizam experiências e moldam o que as crianças veem e desejam. Mas, segundo a especialista, esse ambiente digital não foi projetado originalmente para atender às necessidades do desenvolvimento infantil. “Quando a tecnologia é pensada com base em princípios do desenvolvimento, pode ser uma aliada. Mas, na prática, ainda vemos muitos conteúdos e estratégias que incentivam o uso excessivo ou exploram a atenção e os dados das crianças”, observa. O que dizem os estudos  Grande parte das pesquisas sobre o tema ainda se concentra no tempo de exposição às telas. De modo geral, os estudos indicam que maior tempo de uso está associado a pequenos atrasos em linguagem, cognição e desenvolvimento socioemocional. No entanto, a pesquisadora alerta que essa métrica é limitada: “O número de horas não conta toda a história. O que importa é o conteúdo, o contexto e as diferenças individuais de cada criança”. Além disso, fatores como acesso a creches, segurança do bairro e tempo de convivência com adultos também influenciam o desenvolvimento — e precisam ser considerados junto com o uso de telas. Socioemocional: o papel do vínculo  O desenvolvimento emocional é o alicerce sobre o qual se constrói todo o aprendizado. Ele depende, principalmente, das interações entre a criança e seus cuidadores. “Os bebês nascem praticamente cegos — enxergam apenas a distância entre o rosto deles e o do cuidador. Isso é biologia a serviço do vínculo”, explica a pediatra. Nos primeiros anos, os cuidadores são verdadeiros “motores” do desenvolvimento. ● Bebês dependem quase totalmente do adulto para se acalmar. Crianças pequenas começam a nomear emoções e ajustar comportamentos, mas ainda precisam de ajuda. Pré-escolares já desenvolvem empatia e pequenas estratégias de autorregulação, com apoio e orientação. Quando a tela entra na relação  Estudos mostram que crianças que passam mais tempo com dispositivos aos 3 e 5 anos tendem a apresentar mais ansiedade, retraimento e impulsividade nos anos seguintes. Mas essa relação é complexa e bidirecional: crianças mais reativas emocionalmente também costumam ser mais expostas à mídia — às vezes, porque os pais recorrem às telas para acalmá-las. Ou seja, não é apenas o uso de tela que afeta o comportamento: o comportamento também afeta o uso. Conteúdos pró-sociais podem ajudar  Nem toda exposição digital é prejudicial. Alguns programas educativos foram desenvolvidos com base em princípios de desenvolvimento infantil e têm efeitos positivos comprovados, como melhora na empatia e no comportamento pró-social. Aplicativos de meditação e relaxamento também mostram benefícios entre crianças mais velhas e adolescentes. O perigo da “tecnoferência” Um dos riscos mais sutis é a tecnoferência — quando o uso de dispositivos por pais e cuidadores interrompe interações presenciais com a criança. “Essas interrupções afetam a qualidade do vínculo e o aprendizado socioemocional”, explica a especialista. Além disso, o uso constante das telas como forma de acalmar a criança pode dificultar o desenvolvimento da autorregulação emocional. Por outro lado, assistir juntos, conversar sobre o conteúdo e estabelecer momentos sem tecnologia ajudam a equilibrar a relação das famílias com as telas. Na saúde física  O tempo de uso de mídias com tela está associado a um risco maior de obesidade em crianças e adolescentes, bem como ao sedentarismo, já que há substituição de oportunidades a atividade física. Além disso, anúncios de alimentos com alta densidade calórica podem estimular maior ingestão alimentar. Há risco aumentado para o desenvolvimento de miopia e maiores despertares noturnos, já que muitas crianças em idade pré-escolar acessam seus tablets durante a noite. Orientações para famílias  Os pediatras têm um papel essencial na orientação das famílias. Entre as recomendações destacadas estão: Priorizar conteúdos pró-sociais e apropriados para a idade. Evitar o uso de telas como calmante Ajudar os pais a criar estratégias alternativas para lidar com o tédio ou a irritação infantil. Planejar transições suaves entre o tempo de tela e outras atividades. ● Modelar bons hábitos digitais — o comportamento dos cuidadores é um espelho poderoso. O desafio não é eliminar as telas, mas integrá-las de forma saudável e consciente à rotina das crianças. A mídia digital também pode ser uma ferramenta de aprendizado e conexão — desde que usada com intenção, limites e presença.   Acesse mais aulas sobre a AAP 2025 clicando aqui

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