Correção precoce versus tardia da hérnia inguinal em prematuros: ensaio clínico randomizado multicêntrico

Correção precoce versus tardia da hérnia inguinal em prematuros: ensaio clínico randomizado multicêntrico Sobre o artigo  A hérnia inguinal é uma das anomalias congênitas mais comuns que requerem cirurgia em prematuros, com incidência crescente quanto menor a idade gestacional, podendo atingir até 40% em meninos nascidos com 24 semanas. A correção cirúrgica é indicada para prevenir encarceramento, cuja taxa varia de 5% a 28%. Entretanto, o momento ideal da cirurgia é controverso. A correção antes da alta da UTI neonatal pode estar associada a complicações anestésicas e respiratórias, necessidade prolongada de ventilação mecânica e atraso na alta hospitalar. Por outro lado, postergar a cirurgia pode teoricamente aumentar o risco de encarceramento. Diante da ausência de ensaios clínicos randomizados e da lacuna destacada pela American Academy of Pediatrics, foi conduzido o HIP Trial para comparar a segurança da correção precoce versus tardia em prematuros com hérnia inguinal diagnosticada durante a internação inicial. Métodos utilizados Desenho do estudo: Ensaio clínico randomizado, multicêntrico, conduzido em 39 centros nos Estados Unidos, entre setembro de 2013 e abril de 2021. População: Prematuros (<37 semanas) com diagnóstico de hérnia inguinal durante internação inicial na UTI neonatal. Intervenções: Grupo correção precoce: cirurgia antes da alta da UTI neonatal. Grupo correção tardia: cirurgia após alta da UTI neonatal e com idade pós-menstrual >55 semanas. Randomização: 1:1, em blocos permutados, estratificada por centro e idade gestacional (<28 semanas ou ≥28 semanas). Desfecho primário: Ocorrência de pelo menos um evento adverso grave predefinido em 10 meses, avaliado por comitê de adjudicação cego. Eventos adversos incluíram: Eventos pulmonares (apneia com intervenção, reintubação, ventilação prolongada, pneumonia) Eventos cardíacos (bradicardia com intervenção, PCR, parada cardíaca) Complicações cirúrgicas Complicações relacionadas à hérnia (encarceramento, recorrência, reoperação) Óbito Desfecho secundário: Número total de dias de internação durante o período de 10 meses. Análise estatística: Abordagem bayesiana primária com modelos mistos ajustados por centro e idade gestacional. Análise interina interrompeu o estudo precocemente por atingir critério de eficácia. Resultados Foram randomizados 338 lactentes (172 precoce; 166 tardio). Dados completos disponíveis para 308 pacientes. Desfecho primário: Evento adverso grave ≥1 ocorreu em: 28% no grupo precoce (44/159) 18% no grupo tardio (27/149) Diferença absoluta de risco: −7,9% (ICr 95%: −16,9% a 0) RR: 0,68 (ICr 95%: 0,45–1,01) Probabilidade bayesiana de benefício com cirurgia tardia: 97% Desfecho secundário: Mediana de dias hospitalares: 19 dias (precoce) 16 dias (tardio) Probabilidade de benefício com cirurgia tardia: 82% Subgrupos: <28 semanas: RR 0,61; probabilidade de benefício 99% Displasia broncopulmonar: RR 0,50; probabilidade de benefício 99% Encarceramento: 2 casos (precoce) 6 casos (tardio) Nenhum exigiu cirurgia emergencial. Resolução espontânea da hérnia: 4% (precoce) 11% (tardio) Discussão A correção tardia associou-se a menor probabilidade de eventos adversos graves, especialmente complicações respiratórias relacionadas à anestesia. Prematuros extremos e aqueles com displasia broncopulmonar foram os que mais se beneficiaram do adiamento da cirurgia. O risco de encarceramento foi baixo no grupo tardio, e nenhum caso demandou intervenção emergencial. Além disso, observou-se resolução clínica espontânea em proporção relevante dos pacientes, principalmente no grupo tardio. Os autores destacam que a decisão sobre o momento cirúrgico pode impactar alguns dias de internação e que os dados são amplamente generalizáveis devido ao caráter multicêntrico e à diversidade populacional. Limitações incluem interrupção precoce do estudo, taxa de randomização inferior ao previsto e impacto da pandemia de COVID-19 no seguimento. Conclusão Entre prematuros com hérnia inguinal, a estratégia de correção tardia após alta da UTI neonatal e após 55 semanas de idade pós-menstrual resultou em menor ocorrência de eventos adversos graves em comparação à correção precoce. Os achados apoiam o adiamento da cirurgia até após a alta da UTI neonatal. Insights clínicos A correção tardia aumenta o risco de encarceramento? Não de forma clinicamente relevante. Embora tenha havido mais casos no grupo tardio (6 vs 2), nenhum exigiu cirurgia emergencial. Quais pacientes mais se beneficiam do adiamento? Prematuros com idade gestacional <28 semanas e aqueles com displasia broncopulmonar apresentaram maior probabilidade de redução de eventos adversos com a estratégia tardia. O adiamento prolonga a internação? Não. A mediana de dias hospitalares foi discretamente menor no grupo tardio. Existe chance de resolução espontânea da hérnia? Sim. Observou-se resolução clínica em 11% no grupo tardio versus 4% no grupo precoce. O principal risco da cirurgia precoce está relacionado a quê? Complicações respiratórias e eventos associados à anestesia, como apneia e ventilação prolongada. O estudo apoia mudança de prática clínica? Sim. Os dados sustentam que, na ausência de complicações, a correção pode ser postergada até após a alta da UTI neonatal e após 55 semanas de idade pós-menstrual. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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