Persistência de Transtorno do Espectro Autista (TEA) da infância precoce a idade escolar Sobre o artigo O Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta prevalência estimada de 1 em 36 crianças, com ênfase crescente no diagnóstico antes dos 3 anos para permitir intervenção precoce. Apesar disso, há incerteza quanto à estabilidade diagnóstica em crianças diagnosticadas precocemente segundo critérios contemporâneos do DSM-5. Estudos prévios demonstraram taxas de persistência variáveis (68%–100%), mas apresentam limitações metodológicas importantes, incluindo critérios diagnósticos antigos, amostras pequenas e heterogeneidade de desfechos. Além disso, permanece incerta a associação entre fatores clínicos basais, características demográficas e intensidade de intervenção com a persistência do diagnóstico. O objetivo do estudo foi: Determinar a frequência com que crianças diagnosticadas com TEA entre 12 e 36 meses mantêm o diagnóstico aos 5–7 anos. Avaliar a associação entre características basais (cognitivas, adaptativas, demográficas) e intervenções recebidas com a persistência do TEA. Métodos utilizados Desenho do estudo: Coorte de história natural. População: 213 crianças diagnosticadas clinicamente com TEA (DSM-5) entre 12–36 meses em centro acadêmico terciário. Reavaliação: Entre 5–7 anos (2018–2022), por equipe treinada em instrumentos padronizados. Instrumentos aplicados na reavaliação: ADOS-2 ADI-R Escalas cognitivas (DAS-II ou Bayley-III) Vineland Adaptive Behavior Scales – 3ª edição Preschool Language Scales – 5ª edição Desfecho principal: Persistência do diagnóstico de TEA segundo funcionamento atual, definido por psicólogo experiente com base em critérios DSM-5 e avaliação integrada. Intervenções: Relato parental detalhado sobre tipo e carga horária das intervenções (ABA, ESDM, Floortime, SCERTS, RDI e terapias gerais). A intensidade máxima nas primeiras janelas de 6 meses após o diagnóstico foi utilizada nos modelos estatísticos. Análise estatística: Testes t e qui-quadrado Regressão logística multinível ajustada para variáveis clínicas e demográficas Correção para agrupamento por avaliadores iniciais Imputação múltipla para dados ausentes Resultados Características da amostra: Idade média no diagnóstico: 24,6 meses Idade média na reavaliação: 74,3 meses 83,1% do sexo masculino Persistência diagnóstica: 62,9% mantiveram diagnóstico (TEA persistente) 37,1% não preencheram mais critérios (TEA não persistente) Aspectos cognitivos: Todas as crianças com TEA não persistente tinham QI ≥ 70 Grupo persistente apresentou distribuição bimodal (46 com QI <70; 88 com QI ≥70) Função adaptativa basal: Crianças com TEA não persistente apresentavam escores adaptativos significativamente mais altos no diagnóstico inicial. Modelo multivariado: Fatores associados à maior probabilidade de não persistência: Maior escore adaptativo basal (coeficiente b = −0,287; p = 0,008) Sexo feminino (b = 0,239; p < 0,001) A cada aumento de 15 pontos no Vineland basal, a probabilidade de persistência reduziu aproximadamente 20–26%. Intervenções: 100% receberam algum tipo de intervenção 94,4% receberam intervenção específica para TEA (principalmente ABA) Intensidade de intervenção nos primeiros 18 meses não se associou à persistência diagnóstica Discussão A taxa de 37,1% de não persistência é superior à descrita em estudos prévios, possivelmente devido à maior idade de seguimento (média 74 meses) e diferenças demográficas. Os autores discutem que: O diagnóstico inicial foi realizado por equipe multidisciplinar com instrumentos padronizados, reduzindo probabilidade de erro diagnóstico. A não persistência pode refletir trajetórias desenvolvimentais distintas. Mesmo crianças sem critérios atuais podem manter dificuldades residuais. A função adaptativa basal mostrou-se melhor preditor do que testes cognitivos estruturados isolados, possivelmente por refletir melhor o funcionamento global. O sexo feminino associou-se à maior probabilidade de não persistência, hipótese que pode envolver diferenças fenotípicas ou mecanismos de camuflagem social. A ausência de associação entre intensidade de intervenção e persistência não deve ser interpretada como ineficácia terapêutica, pois o estudo não foi desenhado para avaliar resposta causal ao tratamento. Limitações incluem: Centro único Amostra predominantemente branca e de maior nível socioeconômico Dados de intervenção baseados em recordação parental Avaliações durante pandemia com uso de máscara em parte da amostra Conclusão Uma proporção substancial de crianças diagnosticadas com TEA entre 12–36 meses não preenchia mais critérios diagnósticos aos 5–7 anos. Maior funcionamento adaptativo basal e sexo feminino associaram-se à não persistência. A intensidade de intervenção precoce não se associou à estabilidade diagnóstica. Crianças com diagnóstico precoce de TEA devem permanecer em acompanhamento longitudinal para reavaliação diagnóstica e ajuste terapêutico contínuo. Insights clínicos Qual a chance de uma criança diagnosticada com TEA antes dos 3 anos não manter o diagnóstico aos 6 anos? Aproximadamente 37% das crianças da coorte não preenchiam mais critérios aos 5–7 anos. O QI inicial prediz persistência do TEA? Não foi preditor independente no modelo multivariado. Entretanto, todas as crianças com TEA não persistente tinham QI ≥ 70. A função adaptativa inicial influencia o prognóstico? Sim. Maior escore no Vineland basal associou-se significativamente à não persistência do diagnóstico. Meninas têm maior chance de perder o diagnóstico? Sim. O sexo feminino foi fator independentemente associado à não persistência. A intensidade de ABA nos primeiros meses modifica a persistência diagnóstica? Neste estudo, não houve associação estatisticamente significativa entre intensidade de intervenção e manutenção do diagnóstico. O diagnóstico precoce de TEA é definitivo? Não necessariamente. Os dados reforçam a necessidade de monitoramento longitudinal e reavaliações diagnósticas ao longo do desenvolvimento. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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