Primeira evidência de acúmulo de microplásticos em placentas e cordões umbilicais de gestantes no Brasil Sobre o artigo A poluição por microplásticos (MPs) tornou-se um problema ambiental global. Estas partículas, com tamanho entre 1 μm e 5 mm, têm sido detectadas em diversos tecidos humanos, incluindo placenta e sangue do cordão umbilical. O presente estudo é o primeiro no Brasil — e na América Latina — a demonstrar a presença de MPs em placentas e cordões umbilicais de mulheres gestantes. O objetivo foi investigar a presença, tipo e concentração desses contaminantes em gestantes da cidade de Maceió (AL), apontando possíveis vias de exposição fetal intrauterina. Métodos utilizados Estudo piloto, observacional, transversal e descritivo, com 10 gestantes termo submetidas a parto vaginal ou cesárea no Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (UFAL). Após o parto, amostras de placenta e cordão umbilical foram coletadas sob rigoroso protocolo livre de plásticos. As amostras foram digeridas com solução de KOH 10%, filtradas em membranas de fibra de vidro e analisadas por espectroscopia Micro-Raman para identificação e caracterização dos MPs. Análises estatísticas incluíram testes de Shapiro-Wilk, Mann-Whitney, t pareado e ANOVA de uma via com correção de Bonferroni. Resultados Foram detectadas 229 partículas de MPs, sendo 110 na placenta e 119 no cordão umbilical. As partículas tinham tamanhos médios de 11,98 μm (placenta) e 13,26 μm (cordão), sem diferença estatística significativa. A concentração média foi de 13,75 MPs/50g na placenta e 26,67 MPs/50g no cordão. Em 80% das pacientes, houve maior concentração no cordão, sugerindo possível transposição placentária. Os principais polímeros identificados foram polietileno (PE), poliamida (PA), acetato de vinila e etileno (PEVA), poliuretano (PU) e polipropileno (PP). A maioria dos MPs era de formato irregular e coloração translúcida. Discussão Este estudo inédito na América Latina revela que gestantes brasileiras estão expostas aos mesmos níveis de poluição por MPs observados em outras regiões do mundo. As condições ambientais locais, como elevado consumo de alimentos ultraprocessados, água engarrafada e má gestão de resíduos sólidos, contribuem para o aumento da exposição. A presença de MPs no cordão umbilical sugere que esses contaminantes podem atravessar a barreira placentária, atingindo diretamente o feto. Apesar do número reduzido de participantes, os achados são consistentes com estudos internacionais e levantam preocupações sobre os potenciais efeitos à saúde materno-fetal. Conclusão Há acúmulo significativo de microplásticos em placentas e cordões umbilicais de gestantes brasileiras. A detecção em ambos os tecidos indica exposição fetal intrauterina e destaca a urgência de estudos adicionais sobre os efeitos a longo prazo dessa contaminação em populações vulneráveis. Este trabalho reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à redução do uso de plásticos, bem como de estratégias para mitigar a exposição ambiental em gestantes. Insights clínicos É possível que microplásticos atravessem a placenta e atinjam o feto? Sim. O estudo demonstrou maior concentração de MPs no cordão umbilical do que na placenta em 80% dos casos, sugerindo transferência transplacentária. Quais são os principais tipos de microplásticos identificados nas amostras? Polietileno (PE), poliamida (PA), PEVA, poliuretano (PU) e polipropileno (PP). Há correlação entre o tipo de parto ou complicações maternas e a presença de MPs? O estudo não identificou correlação direta com tipo de parto ou comorbidades maternas, embora todas as gestantes fossem de comunidades sub-representadas e expostas a fatores ambientais de risco. Qual o impacto clínico conhecido da exposição fetal a microplásticos? Ainda não há evidência conclusiva, mas estudos experimentais sugerem que MPs podem carregar aditivos tóxicos que afetam o desenvolvimento fetal e a saúde futura do recém-nascido. Qual a importância do estudo para a prática clínica? Este achado reforça a necessidade de considerar a exposição ambiental como fator de risco gestacional e justifica medidas preventivas e políticas de saúde pública voltadas à proteção materno-fetal. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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