Lesões necróticas e AVC no recém-nascido: um alerta para má perfusão vascular fetal

Lesões de pele ao nascimento? Pense além da dermatologia. Este caso clínico relata uma recém-nascida com lesões necróticas cutâneas, AVC isquêmico e múltiplos trombos arteriais, com causa identificada apenas após estudo placentário detalhado. O diagnóstico final de má perfusão vascular fetal de alto grau (Fetal Vascular Malperfusion – FVM) oferece lições valiosas sobre avaliação pós-natal e investigação etiológica neonatal.
Fonte: PEDIATRICS

Apresentação clínica

Nascida de cesárea de emergência com 38+1 semanas, por BPP 2/8 e oligoâmnio.

Peso ao nascimento: 3990g.

Imediatamente após o parto:

Lesões necróticas nos dedos e antebraço esquerdo.

Hipoatividade do membro afetado.

Necessitou CPAP nas primeiras horas.

Avaliações iniciais

Doppler: múltiplos trombos arteriais (subclávia, axilar, carótida interna esquerda).

RM: AVC trombótico na artéria cerebral média esquerda.

EEG: crises subclínicas; iniciada fenobarbital.

Investigação ampla: negativa para infecções, distúrbios hematológicos ou genéticos.

Patologia placentária: FVM de alto grau, com trombos agudos e recanalizações.

Tratamento e evolução

Anticoagulação com heparina ? enoxaparina por 6 semanas.

Nitro spray e enxerto de pele para as lesões cutâneas.

Evoluiu com paralisia cerebral hemiplégica direita leve e contratura isquêmica de Volkmann.

Alta com suporte NG; boa recuperação de alimentação oral até 1 ano.

Discussão e implicações clínicas

FVM é uma causa subdiagnosticada de eventos trombóticos neonatais, incluindo AVC e necrose de extremidades.

Lesões necróticas ao nascimento devem levar à investigação vascular com Doppler e imagem cerebral precoce.

Patologia placentária especializada pode esclarecer o diagnóstico e evitar investigação excessiva ou inadequada.

FVM está associada a crescimento intrauterino restrito, encefalopatia e desfechos neurológicos adversos.

Recomendações práticas

Frente a lesões necróticas ao nascimento, considerar trombose intrauterina e iniciar investigação precoce.

Solicitar estudo placentário com patologista perinatal sempre que houver sinais de lesão vascular neonatal.

Envolver equipe multidisciplinar (dermato, neuro, hemato, plástica) para manejo integral.

Planejamento reprodutivo futuro pode incluir uso de anticoagulantes profiláticos (ex.: enoxaparina e AAS).

A placenta pode guardar as respostas que o sangue e a genética não revelam. A atenção aos sinais clínicos raros pode salvar funções e orientar famílias.

Acompanhe a Neoped para mais casos clínicos desafiadores com implicações reais para a prática neonatal.

Compartilhe esse conteúdo

LinkedIn
Twitter
Facebook
WhatsApp

Posts relacionados

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Este site é feito exclusivamente para profissionais de saúde.