Sono de adolescentes brasileiros antes e após a pandemia de COVID-19: análises transversais repetidas e longitudinais Sobre o artigo A pandemia de COVID-19 provocou alterações substanciais na rotina de adolescentes, com impacto em seus padrões de sono, influenciados por fechamento de escolas, isolamento social e aumento do tempo de tela. Estudos iniciais mostraram maior duração de sono, horários mais tardios para dormir e pior qualidade do sono. O objetivo deste estudo foi comparar variáveis do sono antes (2019) e após (2022) a pandemia em adolescentes brasileiros. Métodos utilizados O estudo faz parte do Longitudinal Study of Adolescent Lifestyle (ELEVA), conduzido em escolas técnicas federais do sul do Brasil. Foi adotado um desenho de inquéritos transversais repetidos com coorte aninhada. Amostra: 674 adolescentes em 2019 e 625 em 2022 (subamostra longitudinal: 242 em 2019 e 138 em 2022). Instrumentos: Actígrafos de punho (GT3x+, wGT3x+) para medir regularidade do sono, duração, eficiência e jet lag social. Questionários validados para duração do sono e sonolência diurna. Escala Pediatric Daytime Sleepiness Scale. Análises estatísticas: Modelos lineares mistos generalizados, ajustados por sexo, idade, nível socioeconômico e turno escolar. Efeitos avaliados por Cohen’s d (pequeno ≥0,2; médio ≥0,5; grande ≥0,8). Resultados Dados transversais (2019 vs. 2022): Redução significativa do jet lag social (β: −0,28; p<0,001). Menor duração autorreferida do sono (β: −0,14; p=0,03). Efeitos de magnitude pequena (d≈0,14–0,15). Dados longitudinais (mesmos adolescentes): Maior irregularidade do sono (β: −4,27; p<0,001; d=0,31). Aumento da sonolência diurna (β: 1,05; p=0,01; d=0,19). Redução do sono de compensação (catch-up sleep) nos fins de semana (β: −0,35; p=0,04; d=0,17). Redução da duração do sono autorreferida (β: −0,42; p<0,001; d=0,32). Em ambos os anos, mais de 50% dos adolescentes não atingiram a recomendação de 8–10h de sono por noite. Discussão Os resultados sugerem que as alterações agudas no sono durante a pandemia não se mantiveram após o retorno às rotinas escolares. Entretanto, a insuficiência de sono permanece elevada e clinicamente relevante, associada a prejuízos cognitivos, acadêmicos, psicológicos e físicos. Diferenças relacionadas ao turno escolar (manhã vs. tarde) mostraram-se importantes, modulando duração e regularidade do sono. Esses achados reforçam a necessidade de intervenções em políticas educacionais, como horários escolares flexíveis, programas de educação em saúde do sono e estratégias para reduzir demandas acadêmicas excessivas e tempo de tela. Conclusão As características do sono dos adolescentes brasileiros após a pandemia são semelhantes às do período pré-pandêmico. Contudo, a persistência de altas taxas de privação de sono (≥50%) representa um desafio de saúde pública, exigindo estratégias preventivas para promover hábitos de sono saudáveis e reduzir riscos de longo prazo, como obesidade, transtornos de humor e dificuldades acadêmicas. Insights clínicos Os adolescentes brasileiros dormem melhor após a pandemia? Não. Embora algumas alterações da pandemia tenham desaparecido, mais de 50% continuam sem atingir a recomendação de 8–10h de sono. Quais os principais problemas de sono identificados? Irregularidade do sono, aumento da sonolência diurna, menor sono de compensação nos fins de semana e curta duração autorreferida do sono. O impacto da pandemia no sono foi permanente? Não. As alterações observadas durante o isolamento não se mantiveram após o retorno às atividades escolares. Qual fator escolar mais influenciou os padrões de sono? O turno escolar (manhã vs. tarde) modulou duração, regularidade e horário do sono. Quais recomendações práticas podem ser feitas? Implementar horários escolares mais flexíveis, programas de educação em sono e estratégias para reduzir tempo de tela e excesso de demandas acadêmicas. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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