Por Maria Paula Abrahão Aquino O que há de novidade no manejo da obesidade? A sessão “What’s New in Obesity Management?”, apresentada no Congresso Americano de Pediatria por Jaime Moore e Ihuoma Eneli, destacou as atualizações mais recentes no tratamento da obesidade infantil. O foco esteve na seleção adequada de pacientes para farmacoterapia conforme as diretrizes da AAP de 2023, no uso e monitoramento dos medicamentos de primeira linha e nas barreiras de acesso aos agentes antiobesidade. Diretrizes fundamentais de tratamento (AAP, 2023) As opções fundamentais de tratamento para obesidade pediátrica incluem: Entrevista Motivacional; Tratamento Intensivo de Comportamento de Saúde e Estilo de Vida; Farmacoterapia; Cirurgia Bariátrica. Recomendação para Adolescentes (Grau B): oferecer farmacoterapia para perda de peso a adolescentes com 12 anos ou mais com obesidade (IMC > percentil 95), como adjuvante ao tratamento de estilo de vida, considerando indicações, riscos e benefícios. Recomendação por Consenso (Evidência Insuficiente): oferecer farmacoterapia para perda de peso a crianças de 8 a 11 anos com obesidade, como adjuvante. Recomendação para Adolescentes (Grau C): oferecer indicação para avaliação metabólica e cirurgia bariátrica para perda de peso a adolescentes com 13 anos ou mais com obesidade (IMC > 120% do percentil 95), com equipe multidisciplinar. Princípios e monitoramento do tratamento crônico No manejo da obesidade pediátrica, não há um tempo mínimo de tratamento baseado apenas em mudanças de estilo de vida antes de iniciar a farmacoterapia. Os agentes antiobesidade são considerados terapias crônicas, pois atuam sobre a biologia da doença — e a interrupção costuma levar à recuperação do peso, salvo em casos de mudança metabólica significativa. A dose deve ser ajustada para o menor nível eficaz, com revisão prévia de contra indicações, interações medicamentosas e rastreio para transtornos alimentares. O acompanhamento a longo prazo inclui sinais vitais, exames laboratoriais e avaliação dos hábitos alimentares. Também é recomendado o uso de multivitamínicos e a substituição de medicamentos que favoreçam o ganho de peso por alternativas neutras. Seleção de pacientes e medicamentos Critérios de Seleção de Pacientes: Um paciente é apropriado para considerar a medicação se: Updates in Pediatric Obesity Management and Pharmacotherapy 1 Tiver obesidade (≥ percentil 95); E 2. Tiver 12 anos ou mais; E 3. Estiver engajado na intervenção de estilo de vida de mais alta intensidade prática; E 4. Tiver interesse em iniciar a medicação adjuvante. Fatores de Seleção de Medicamentos: considerar a preferência do paciente (pílulas vs. injeção), contraindicações, risco de efeitos colaterais com condições/medicações concomitantes, comorbidades que se alinham melhor com resultados de ensaios clínicos e acesso/cobertura. Detalhes Específicos e Efeitos Colaterais Medicamento Frequência Contraindicações/Advertências Efeitos Colaterais Comuns/Sérios Resultados Secundários Fentermina + Topiramato Oral, Diária Gravidez. Fentermina: HAS descontrolada, hipertensão pulmonar, hipertireoidismo. Topiramato: nefrolitíase. Ansiedade, insônia, aumento da FC, boca seca. Sério/Raro: Hipertensão pulmonar, acidose grave. Topiramato: parestesias, fatiga, tristeza. - GLP-1 RA (Liraglutida, Semaglutida) Injeção Diária ou Semanal Histórico pessoal ou familiar de câncer medular de tireoide ou MEN Tipo 2. Gravidez. Gastrointestinais, dores de cabeça, aumento da FC. Sério/Raro: Colelitíase, pancreatite. Redução de HbA1c, Triglicerídeos, LDL, ALT, Pressão Arterial (diastólica); Melhoria na Qualidade de Vida (total, física). Semaglutida: maior eficácia (redução média de 16,7% do peso), administrada por injeção semanal. Fentermina + Topiramato: opção oral com eficácia moderada (até 10% de redução de peso). Liraglutida, Orlistat, Setmelanotida e Metformina: com perfis variados de eficácia e efeitos colaterais. Descontinuação: A Fentermina e a Semaglutida podem ser interrompidas abruptamente; o Topiramato deve ser reduzido gradualmente (desmame de 25mg por semana). Acesso aos medicamentos em desenvolvimento O acesso aos medicamentos para obesidade ainda varia entre os estados norte-americanos. Em agosto de 2024, apenas 13 estados cobriam os agonistas de GLP-1 pelo Medicaid, e novas mudanças são esperadas diante dos cortes orçamentários federais previstos para 2025. O programa EPSDT (early and periodic secreening, diagnostic and treatment program), voltado a menores de 21 anos, continua sendo uma via importante de acesso aos agentes antiobesidade, conforme as regras de cada estado. Já os medicamentos manipulados não são considerados uma alternativa segura, pois carecem de regulamentação adequada e estão associados a relatos de eventos adversos. Pipeline de Medicamentos (em desenvolvimento): Peptídeos orais GLP-1 RAs: tomados com o estômago vazio e água para maximizar a absorção. Não-peptídeos orais GLP-1 RA ("pequenas moléculas"): interagem de forma diferente e podem ser tomados com alimentos. Combinações de agonistas de hormônios entero-pancreáticos (GLP1, GIP, Glucagon, Amilina, PYY), aproveitando mecanismos complementares. Bloqueador de receptor Activin tipo 2: estimula o crescimento do músculo esquelético enquanto reduz a massa gorda. O que ainda precisamos aprender? Apesar dos avanços no manejo da obesidade pediátrica, ainda há muitas perguntas sem resposta. Persistem dúvidas sobre a dosagem ideal dos medicamentos, o grau de mudança no estilo de vida necessário junto à farmacoterapia e a duração adequada do tratamento — especialmente em casos que podem exigir apenas uso temporário, como durante a puberdade. Também faltam dados sobre os efeitos de longo prazo dos agentes antiobesidade na composição corporal, na saúde óssea, nas comorbidades e na saúde mental. Além disso, há uma demanda crescente por ferramentas de precisão que permitam prever melhor o risco e a resposta individual ao tratamento. Aplicações práticas e discussões clínicas A definição de sucesso na farmacoterapia não se limita apenas à perda de peso, mas também à melhoria de comorbidades. Em pacientes em tratamento para obesidade, a perda de peso acelerada — superior a 1 kg por semana — deve ser investigada para identificar possíveis causas. Condições como ansiedade ou depressão, bem como o uso de antidepressivos da classe dos inibidores seletivos dos receptores de serotonina, não contraindicam o início de agentes antiobesidade. Em casos mais complexos, a metformina pode ser uma opção útil, especialmente em pacientes com dislipidemia, TDAH ou deficiência intelectual. Para reduzir efeitos gastrointestinais de agonistas de GLP-1, como náuseas e vômitos, recomenda se suporte nutricional. Antes de iniciar fármacos como a fentermina, é importante descartar causas como apneia obstrutiva do sono, que pode justificar sintomas de fadiga e queda de desempenho escolar. Por fim, quando o paciente é elegível tanto para farmacoterapia quanto para cirurgia bariátrica, é fundamental discutir cuidadosamente
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