Por Maria Paula Aquino A saúde mental dos jovens atletas ganhou destaque no Congresso Americano de Pediatria deste ano, refletindo uma preocupação crescente no cenário esportivo. A sessão abordou estratégias para reconhecer sinais de sofrimento emocional, iniciar conversas sensíveis sobre o tema e fortalecer o trabalho conjunto entre profissionais da saúde e do esporte no cuidado integral desses adolescentes. Preocupações com a saúde mental dos atletas A ansiedade de performance tem se tornado um tema central entre jovens atletas, impulsionada pela competitividade e exposição nas redes sociais. O medo de fracassar ou ser julgado por colegas e treinadores pode gerar pressão emocional intensa, com sintomas como palpitações, irritabilidade e crises de choro. Já a depressão, que afeta cerca de 11,7% dos adolescentes atletas, é mais comum entre meninas e se manifesta por tristeza persistente, perda de interesse, fadiga e queda no desempenho esportivo e escolar. Especialistas alertam que o reconhecimento precoce desses sinais é essencial para prevenir o esgotamento e proteger a saúde mental no esporte. Influências no atleta ️ O papel das figuras de referência — pais, treinadores e colegas — é determinante na saúde mental e no desenvolvimento psicológico dos jovens atletas. A forma como esses vínculos se estabelecem pode atuar como um fator de proteção ou de risco, influenciando diretamente o desempenho, a autoconfiança e o bem-estar emocional Entre os pais, o apoio emocional, o incentivo e o reconhecimento do esforço têm um impacto direto no bem-estar e no desempenho dos jovens atletas. Quando o ambiente familiar valoriza o aprendizado e não apenas o resultado, há menor risco de insatisfação corporal e de comportamentos alimentares prejudiciais. Já a pressão excessiva, as críticas constantes e o foco exagerado em vitórias aumentam a ansiedade, o perfeccionismo e o risco de burnout. Da mesma forma, a postura dos treinadores é decisiva. Reforço positivo e diálogo aberto sobre saúde mental ajudam a construir confiança e equilíbrio emocional. Por outro lado, o excesso de exigência e críticas pode gerar estresse, queda de desempenho e até quadros de depressão, especialmente quando há negligência ou práticas abusivas. O relacionamento treinador-atleta é considerado um eixo central na saúde mental esportiva, e destaca-se a necessidade de educar treinadores sobre prevenção, reconhecimento precoce e manejo de questões emocionais em seus atletas. Por fim, os pares — colegas de equipe e companheiros de treino — exercem papel significativo no equilíbrio emocional do jovem atleta. O apoio social entre colegas está fortemente relacionado ao bem-estar psicológico e a uma menor incidência de burnout, especialmente em esportes coletivos, nos quais a cooperação e o senso de pertencimento atuam como fatores de proteção. No entanto, situações de bullying, vitimização, trotes, exposição nas mídias sociais e uso arriscado de substâncias representam ameaças importantes à integridade emocional. Por isso, profissionais de saúde e educadores devem investigar a qualidade das relações entre os colegas, favorecendo um ambiente esportivo saudável, empático e colaborativo. Transtornos Alimentares e Imagem corporal Os transtornos alimentares são um problema crescente entre atletas, especialmente em esportes que valorizam o baixo peso ou a aparência física. Esses jovens estão expostos a pressões por desempenho, pesagens frequentes, lesões e perfeccionismo extremo, fatores que favorecem a restrição calórica crônica e comportamentos compensatórios. Essas práticas levam à queda do desempenho esportivo e à deterioração da saúde física e mental a longo prazo. O tratamento deve ser multidisciplinar, envolvendo nutricionistas e profissionais de saúde mental com experiência em atletas, visando restabelecer hábitos saudáveis e equilibrar o foco entre bem-estar e performance. Implicações Práticas e Tratamento A Deficiência de Energia Relativa no Esporte (RED-S) ocorre quando o atleta consome menos energia do que o corpo precisa para sustentar o treino e as funções vitais. Mais do que uma simples perda de peso, essa condição afeta o metabolismo, a imunidade, os hormônios, a saúde óssea e até o equilíbrio emocional. O problema pode surgir aos poucos, muitas vezes sem sintomas claros, e está ligado à restrição alimentar, ao excesso de treinamento e à pressão por desempenho ou estética. A educação sobre o tema é essencial para atletas, treinadores e profissionais de saúde, já que o RED-S pode levar a fadiga, irregularidades menstruais, fraturas e queda no rendimento esportivo. Mountjoy M, Ackerman KE, Bailey DM, et al 2023 International Olympic Committee’s (IOC) consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs)British Journal of Sports Medicine 2023;57:1073-1098. Disponível em: https://bjsm.bmj.com/content/57/17/1073) A relação entre saúde mental e lesões esportivas é uma verdadeira via de mão dupla. O estresse, a ansiedade e o perfeccionismo aumentam o risco de lesões, enquanto o afastamento causado por uma contusão pode gerar tristeza, insegurança e até perda de identidade como atleta. Por isso, é essencial incluir profissionais de saúde mental nas equipes e promover educação contínua sobre prevenção e bem-estar psicológico no esporte. Especialização esportiva precoce A especialização esportiva precoce, cada vez mais comum entre jovens atletas, tem despertado preocupação entre especialistas. A busca por alto desempenho desde cedo pode transformar o esporte em uma fonte de pressão intensa e perda de prazer, favorecendo o surgimento de ansiedade, depressão e transtornos alimentares, além de aumentar o risco de abandono precoce da prática esportiva. Diretrizes e Recomendações As diretrizes sugerem as seguintes práticas para mitigar os riscos da especialização precoce: Atraso na especialização: recomenda-se que a especialização precoce seja atrasada até após a puberdade ou adolescência tardia. Dias de descanso: recomenda-se 1-2 dias de folga do esporte por semana. Tempo livre anual: recomenda-se 3 ou mais meses de folga do esporte por ano. Limite de horas de participação: o número de horas de participação no esporte deve ser igual à idade do atleta em anos. Burnout (Esgotamento) Estudos indicam que cerca de 10% dos jovens atletas apresentam sinais de sofrimento psicológico, com taxas mais altas entre aqueles que se especializam precocemente. Teorias de desenvolvimento destacam que o esporte deve priorizar diversão e prazer até os 11 anos, enquanto fatores como excesso de treino, pressão por desempenho, relação com o treinador e perfeccionismo aumentam o risco de adoecimento mental. Sinais emocionais/psicológicos: exaustão emocional, desinteresse, cinismo e baixo
Faça login para acessar o conteúdo
ou cadastre-se. | ESQUECI MINHA SENHA