Por Maria Paula Aquino Durante o Congresso Americano de Pediatria deste ano, a sessão “Psychotherapy: Brief Interventions in the Pediatric Setting”, apresentada por Ryan Asherin, PhD, e Jeanne Van Cleave, MD, FAAP, destacou a crescente demanda por suporte em saúde mental infantil e o papel cada vez mais central dos pediatras na oferta de intervenções psicossociais breves e baseadas em evidências. A discussão enfatizou a importância de capacitar o pediatra para reconhecer necessidades emocionais, aplicar estratégias terapêuticas simples no contexto clínico e integrar abordagens psicoterapêuticas fundamentadas em evidências no cuidado pediátrico de rotina. A urgente necessidade de suporte em saúde comportamental pediátrica Estima-se que mais de uma em cada cinco crianças nos Estados Unidos — cerca de 7,7 milhões de menores de 18 anos — apresentem algum transtorno de saúde mental ou comportamental, refletindo uma prevalência alarmante. ⚠️ Entre os adolescentes, o cenário é ainda mais preocupante: o suicídio já representa a segunda principal causa de morte entre jovens de 12 a 18 anos. Especialistas também destacam o impacto das experiências adversas na infância, eventos traumáticos capazes de gerar estresse tóxico com repercussões neuroendócrinas e imunológicas, associadas a doenças crônicas e comportamentos de risco na vida adulta. Nesse contexto, as preocupações com a saúde comportamental têm se tornado cada vez mais frequentes nas práticas pediátricas, exigindo novas estratégias de abordagem clínica e integração entre pediatria e saúde mental. O papel ampliado do pediatra A sessão também destacou formas de reduzir a lacuna no acesso à saúde mental infantil, ressaltando que os pediatras são, muitas vezes, o primeiro e principal ponto de cuidado diante da escassez de profissionais especializados. A confiança das famílias nos provedores de atenção primária e a triagem rotineira de questões comportamentais foram apontadas como pilares para a detecção e o tratamento precoces. Os especialistas defenderam que pediatras podem aplicar intervenções psicossociais e psicofarmacológicas em casos leves a moderados, especialmente dentro de modelos de cuidado integrado que unem saúde médica e comportamental. Nesse contexto, os Consultores de Saúde Comportamental oferecem suporte técnico e treinamento, fortalecendo a capacidade das equipes pediátricas de responder às crescentes demandas em saúde mental. Intervenções psicossociais breves As intervenções psicossociais breves englobam estratégias práticas e baseadas em evidências que podem ser aplicadas pelo pediatra durante a consulta. Psicoeducação: fornecimento de informações e compreensão das condições de saúde mental e estratégias de enfrentamento. Entrevista motivacional: estilo de aconselhamento centrado no paciente para fortalecer a motivação para a mudança positiva. Tomada de decisão compartilhada: envolvimento colaborativo de pacientes e famílias no planejamento e nas escolhas de tratamento. Um componente essencial dessas abordagens são os chamados “Elementos Comuns”, um conjunto de técnicas terapêuticas empiricamente validadas que podem ser aplicadas a diferentes condições psicológicas. Esses elementos incluem psicoeducação, treinamento em habilidades de enfrentamento, reestruturação cognitiva, exposição gradual a situações ansiogênicas, técnicas de relaxamento e automonitoramento, todos voltados para a redução do sofrimento emocional e funcional e a promoção do bem-estar psicológico infantil. Princípios Fundamentais (HELP³): H (Hope): incentivar a melhoria e identificar forças. E (Empathy): ouvir atentamente. L² (Language & Loyalty): usar a linguagem da família, verificar a compreensão e mostrar apoio/compromisso. P³ (Permission, Partnership, Plan): pedir permissão antes de aconselhar, trabalhar em parceria para identificar barreiras e criar um plano ou primeiro passo acionável. Além disso, os especialistas também destacaram que o estilo de vida exerce forte influência sobre a saúde mental infantil. Sono inadequado, má alimentação e sedentarismo podem agravar sintomas emocionais e comportamentais, tornando essencial que o pediatra oriente e apoie famílias na adoção de hábitos saudáveis que promovam o bem-estar e o desenvolvimento integral da criança. Traigem baseada em evidências A triagem sistemática de problemas de saúde mental e comportamental foi enfatizada como uma prática essencial para o cuidado integral na pediatria. Ferramentas baseadas em evidências, de aplicação breve, gratuita e de fácil interpretação, permitem que o pediatra identifique precocemente sinais de sofrimento emocional e encaminhe o paciente para intervenções adequadas. Entre os principais instrumentos recomendados estão: Pediatric Symptom Checklist-17 (PSC-17), que rastreia uma ampla gama de condições, como ansiedade, depressão e problemas de conduta; Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9), voltado à detecção de depressão grave em adolescentes; Screen for Child Anxiety Related Emotional Disorders (SCARED), que avalia transtornos de ansiedade na infância, incluindo ansiedade generalizada, social, de separação e sintomas de pânico ou somáticos. O uso regular dessas ferramentas fortalece o vínculo clínico e amplia a capacidade do pediatra de oferecer um cuidado proativo, sensível e baseado em evidências. Entrevista Motivacional: o poder do diálogo na transformação de comportamentos A Entrevista Motivacional foi apresentada como uma ferramenta eficaz para promover mudanças de comportamento em pediatria, especialmente em temas como aderência ao tratamento, uso de substâncias e depressão. Baseada na colaboração, evocação e autonomia, essa ferramenta incentiva o diálogo empático e centrado no paciente. Suas habilidades centrais — perguntas abertas, afirmações, reflexões e resumos — ajudam a fortalecer a motivação intrínseca. O uso de perguntas “DARN” (desejo, habilidade, razões e necessidade) e escalas de ancoragem (0–10) permite avaliar prontidão e confiança para a mudança, tornando a entrevista motivacional uma abordagem breve, prática e aplicável na rotina pediátrica. Cuidar da mente é cuidar da infância: o papel das intervenções comportamentais Ferramentas simples, resultados reais: técnicas breves de terapia cognitivo-comportamental mostram eficácia no manejo de sintomas emocionais e comportamentais em crianças e adolescentes. As intervenções comportamentais e cognitivo-comportamentais foram destacadas como estratégias com forte evidência científica para transtornos internalizantes e externalizantes, como ansiedade, depressão e TDAH. As intervenções parentais mostraram grande eficácia em comportamentos externalizantes, enquanto a cognitivo-comportamental individual apresentou redução significativa de sintomas. Técnicas como exposição gradual, reestruturação cognitiva e habilidades de enfrentamento — incluindo respiração, mindfulness e atividade física — ajudam crianças e adolescentes a lidar com o estresse e a desenvolver resiliência emocional. Caminhos para transformar a prática pediátrica Estratégias baseadas em evidências orientam a integração da triagem comportamental, intervenções breves e cuidado colaborativo na rotina do pediatra. Os especialistas concluíram que enfrentar a crescente demanda em saúde mental pediátrica exige ações concretas e integradas na rotina clínica. Isso inclui a incorporação sistemática
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