Por Joana Machado Hérnia, Hidrocele e Testículos Não Descidos A aula do Dr Eric M Bortnick, no Congresso Americano de Pediatria, 2025, abordou de forma prática as principais condições da região inguinoescrotal na infância — hérnia, hidrocele e testículo não descido — com foco em diagnóstico clínico, conduta e reconhecimento de situações de urgência, como hérnia encarcerada e torção testicular. Hérnia e Hidrocele Hérnias inguinais e hidroceles acometem 1 a 3% dos recém-nascidos a termo e são três vezes mais frequentes em prematuros. Em relação à hérnia, há predomínio no sexo masculino (8:1). A incidência é maior em pacientes com fibrose cística, doenças do tecido conjuntivo, luxação congênita do quadril e em crianças com derivação ventrículo-peritoneal ou em diálise peritoneal. O exame físico deve, sempre que possível, ser feito com a criança em pé, inspecionando a região da parede abdominal inferior ao escroto. O abaulamento torna-se mais evidente durante choro, riso ou esforço, e pode ser provocado com manobras que aumentam a pressão intra-abdominal (pular, soprar bolhas ou encher luva). Se o abaulamento não for observado em consultório, os pais podem registrar o episódio em foto ou vídeo. O diagnóstico é clínico, e a ultrassonografia só é indicada em casos selecionados, para diferenciar tipos de hidrocele ou localizar o testículo não palpável. O exame pode ser falso-negativo para hérnia, se o conteúdo intestinal não estiver no canal inguinal no momento da avaliação. A hérnia inguinal encarcerada é emergência cirúrgica. A criança apresenta irritabilidade, inapetência, vômitos e ausência de flatos ou evacuação. O exame revela abaulamento persistente, sem redução espontânea, frequentemente eritematoso, inflamado e doloroso. O tratamento das hérnias é sempre cirúrgico. Hérnias redutíveis devem ser reparadas precocemente; encarceradas exigem urgência. Em prematuros, estudos indicam menor taxa de complicações com o reparo tardio (após 50–55 semanas pós-menstruais), especialmente em menores de 28 semanas e com displasia broncopulmonar. As hidroceles podem regredir espontaneamente e só requerem correção se persistirem após 18–24 meses. Testículo não descido A criptorquidia é o distúrbio genital mais comum ao nascimento (1–3% dos a termo; até 30% dos prematuros), com prevalência residual de 0,7–1% aos 12 meses. O risco de câncer testicular é 2 a 5 vezes maior em meninos com testículo não descido, diminuindo quanto mais precoce a correção cirúrgica. Quanto à fertilidade, meninos com testículo não descido unilateral têm o mesmo potencial reprodutivo que os com ambos os testículos escrotais, enquanto os casos bilaterais têm risco aumentado de infertilidade. O manejo consiste em aguardar descida espontânea até 4–6 meses, sendo improvável após esse período. O encaminhamento ao cirurgião pediátrico deve ocorrer aos 6 meses se o testículo permanecer não descido. O tratamento padrão é orquidopexia entre 6 e 18 meses. Recém-nascidos com testículos bilaterais não palpáveis devem ser avaliados para distúrbios do desenvolvimento sexual, e testículos retráteis devem ser acompanhados anualmente. Exames de imagem não são indicados antes da avaliação especializada. Testículo agudo A dor escrotal aguda é uma urgência diagnóstica, exigindo diferenciação entre causas cirúrgicas e benignas, como trauma, torção testicular, torção do apêndice testicular, epididimite, hérnia encarcerada, tumor e varicocele. A torção testicular é a mais grave, com dor súbita intensa, edema, testículo elevado e ausência do reflexo cremastérico. O diagnóstico é clínico e requer exploração cirúrgica imediata com destorção e orquidopexia bilateral; a ultrassonografia Doppler é reservada a casos duvidosos. A torção neonatal pode ser pré-natal (testículo endurecido, indolor e escroto descolorido, com mínima taxa de salvamento) ou pós-natal (dor, eritema e aumento de volume), devendo ser tratada como emergência. Outras causas incluem torção do apêndice testicular (sinal do ponto azul, dor leve), epididimite (dor gradual, hiperemia, aumento de fluxo ao Doppler) e trauma testicular (ruptura da túnica albugínea, dor e edema imediatos), que devem ser diferenciadas conforme a história e achados ultrassonográficos. HIGHLIGHTS DA AULA: Em prematuros, o reparo da hérnia deve ser feito tardiamente, após 50–55 semanas pós-menstruais, reduzindo complicações respiratórias e cardíacas, sobretudo em menores de 28 semanas ou com displasia broncopulmonar. As hidroceles geralmente regridem espontaneamente e só exigem correção cirúrgica se persistirem após 18 a 24 meses. O risco de câncer testicular é 2 a 5 vezes maior em meninos com testículo não descido, e a correção precoce reduz significativamente essa probabilidade. Na criptorquidia unilateral, o potencial reprodutivo é normal; nos casos bilaterais, há risco aumentado de infertilidade. Deve-se aguardar a descida espontânea até 4–6 meses e encaminhar ao cirurgião pediátrico aos 6 meses se não houver descida. A orquidopexia é indicada entre 6 e 18 meses de idade. Nos casos de testículos não palpáveis bilaterais, a investigação de distúrbios do desenvolvimento sexual é obrigatória. O testículo retrátil, normalmente descido, pode se retrair por reflexo cremastérico e retornar ao escroto; é variante normal e requer apenas acompanhamento anual. A torção testicular cursa com dor súbita intensa, edema escrotal, testículo elevado e ausência do reflexo cremastérico, sendo emergência cirúrgica que exige exploração imediata e orquidopexia bilateral. BORTNICK, E. Hernia, Hydrocele, Undescended Testicles. Congresso da Academia Americana de Pediatria (AAP), 2025 – Denver, Colorado (EUA) Acesse mais aulas sobre a AAP 2025 clicando aqui
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