Exposição pré-natal ao vírus Zika e risco de hospitalização relacionada à epilepsia na primeira infância Sobre o artigo A epilepsia é uma condição neurológica crônica com elevada carga global. Em crianças com Síndrome Congênita do Zika (SCZ), a epilepsia é manifestação frequente, podendo atingir quase 50% dos casos e até 99% na presença de microcefalia. Entretanto, permanece incerto se a exposição intrauterina ao vírus Zika (ZIKV), na ausência de SCZ, está associada a maior risco de epilepsia em comparação a crianças não expostas. O objetivo do estudo foi comparar o risco de hospitalização por epilepsia nos primeiros 4 anos de vida entre três grupos: Crianças com SCZ Crianças expostas ao ZIKV sem SCZ Crianças não expostas Métodos utilizados Estudo de coorte populacional baseado em registros administrativos nacionais do Brasil. População Nascidos vivos únicos Idade gestacional ≥22 semanas Período: janeiro de 2015 a novembro de 2018 Total incluído: 10.828.887 crianças Definição de exposição Exposição ao ZIKV: notificação materna durante a gestação Classificação em: SCZ (confirmada ou provável) Expostos sem SCZ Não expostos Foram excluídos casos com exposição concomitante a dengue ou chikungunya na gestação. Desfecho primário Tempo até a primeira hospitalização por epilepsia Identificação por CID-10 G40–G41 como causa principal de internação Óbitos foram considerados eventos competitivos. Análise estatística Modelo de regressão de Cox causa-específico Ajustes para: Escolaridade materna Raça/etnia autorreferida Idade materna Ano de nascimento Adequação do pré-natal Foram realizadas múltiplas análises de sensibilidade. Resultados Características da coorte 2.780 (0,03%) com SCZ 8.361 (0,08%) expostos sem SCZ 10.817.746 não expostos Crianças com SCZ apresentaram: Maior frequência de baixo peso ao nascer (35,5%) Maior prematuridade (20%) Menor adequação do pré-natal Incidência de hospitalização por epilepsia SCZ: 2,44 por 100 pessoas-ano Expostos sem SCZ: 0,04 por 100 pessoas-ano Não expostos: 0,07 por 100 pessoas-ano Risco ajustado (aHR) SCZ vs não expostos: aHR global: 34,22 (IC95% 29,16–40,16) Risco por faixa etária: 0–6 meses: aHR 33,72 7–18 meses: aHR 44,58 19–48 meses: aHR 20,62 O risco permaneceu elevado mesmo após 18 meses. Expostos sem SCZ aHR 0,66 (IC95% 0,34–1,27) Não houve aumento significativo de risco. Circunferência cefálica na SCZ Mesmo após ajuste: Microcefalia: aHR 38,76 Macrocefalia: aHR 34,92 Normocefalia: aHR 30,36 O risco elevado foi independente do perímetro cefálico. As análises de sensibilidade confirmaram a robustez dos achados. Discussão A SCZ está fortemente associada a risco elevado de hospitalização por epilepsia, especialmente entre 7 e 18 meses, período possivelmente relacionado à maior ocorrência de espasmos epilépticos e epilepsia focal. A exposição ao ZIKV sem desenvolvimento de SCZ não demonstrou associação com epilepsia grave que necessite hospitalização. O estudo sugere que: O dano estrutural cerebral presente na SCZ é o principal determinante do risco epiléptico. A exposição viral isolada, sem manifestação estrutural, não parece aumentar o risco de epilepsia grave. Limitações Possível subnotificação de casos leves Uso exclusivo de hospitalizações (epilepsia grave) Possível subestimação de casos atendidos na rede privada Ausência de dados sobre fatores maternos comportamentais Conclusão Crianças brasileiras com SCZ apresentam risco substancialmente elevado de hospitalização por epilepsia nos primeiros 4 anos de vida, independentemente da presença de microcefalia. Crianças expostas ao ZIKV sem SCZ não apresentaram aumento do risco de hospitalização por epilepsia em comparação às não expostas. Os achados reforçam a necessidade de vigilância neurológica estruturada em crianças com SCZ. Insights clínicos Crianças expostas ao Zika sem síndrome congênita têm maior risco de epilepsia grave? Não. O estudo não encontrou aumento significativo no risco de hospitalização por epilepsia nesse grupo. O risco de epilepsia na SCZ depende da presença de microcefalia? Não. O risco elevado foi observado mesmo em crianças com SCZ normocefálicas ou macrocefálicas. Em que período o risco é maior? Entre 7 e 18 meses de vida, com risco aproximadamente 44 vezes maior que o grupo não exposto. O estudo avaliou epilepsia leve? Não. O desfecho foi hospitalização por epilepsia, refletindo formas mais graves ou que necessitaram internação. Qual a implicação prática para o pediatra? Crianças com SCZ devem manter seguimento neurológico rigoroso nos primeiros anos de vida, especialmente no segundo ano, período de maior risco para epilepsia grave. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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