Impacto do tabagismo materno nos desfechos respiratórios de prematuros extremos

Impacto do tabagismo materno nos desfechos respiratórios de prematuros extremos Sobre o artigo O nascimento prematuro é uma das principais causas de mortalidade infantil global, representando parcela significativa dos óbitos neonatais, especialmente abaixo de 37 semanas. Entre os fatores modificáveis associados à mortalidade neonatal, o tabagismo materno se destaca. Além de aumentar a taxa de prematuridade, o tabagismo durante a gestação está relacionado a alterações no desenvolvimento pulmonar fetal, produção de surfactante, reatividade das vias aéreas e regulação imune. Estudos prévios associaram o tabagismo materno a displasia broncopulmonar (DBP), maior necessidade de suporte respiratório e maior tempo de oxigenoterapia domiciliar, porém com limitações metodológicas e risco de confundimento. O objetivo deste estudo foi comparar desfechos hospitalares de curto prazo em prematuros <30 semanas expostos ao tabagismo materno versus não expostos, utilizando pareamento por escore de propensão para minimizar vieses. Métodos utilizados Estudo de coorte retrospectivo unicêntrico, realizado entre 2019 e 2023, incluindo recém-nascidos entre 23 semanas e menos de 30 semanas de idade gestacional que receberam a maior parte do cuidado no centro estudado. Foram excluídos recém-nascidos com malformações congênitas maiores, cuidados paliativos planejados ou dados substancialmente incompletos. A exposição foi definida como “mãe que já fumou” (ever smoked), com base em autorrelato materno, independentemente do momento da gestação. Não foram coletadas informações sobre quantidade de cigarros, nível de monóxido de carbono, tipo de consumo (incluindo vaping) ou uso de múltiplas substâncias. O pareamento foi realizado por escore de propensão, utilizando como covariáveis: Idade gestacional ao nascimento Sexo do recém-nascido Apgar no 1º minuto Foi utilizado pareamento 1:1 sem reposição, pelo método nearest neighbour. Diferença média padronizada ≤0,1 foi considerada aceitável para equilíbrio entre grupos. Desfechos avaliados incluíram: Intubação ao nascimento Uso de surfactante Hemorragia intraventricular (qualquer grau e graus 3–4) Leucomalácia periventricular Enterocolite necrosante Retinopatia da prematuridade com necessidade de tratamento Sepse precoce e tardia DBP e DBP grave (necessidade de suporte aos 36 semanas) Oxigênio domiciliar na alta Duração de ventilação, CPAP, alto fluxo e internação Resultados Foram identificados 179 prematuros <30 semanas no período. Após exclusão de 26 óbitos, 153 recém-nascidos permaneceram para análise inicial. Após pareamento, 46 recém-nascidos permaneceram em cada grupo. O equilíbrio entre variáveis basais foi adequado (diferença média padronizada ≤0,1), exceto para Apgar no 10º minuto e proporção de nascidos no próprio centro. Principais achados após pareamento: Menor uso de surfactante no grupo exposto ao tabagismo (58,7% vs 80%; OR 0,33; IC 95% 0,09–0,96; p=0,02). Maior chance de alta com oxigênio domiciliar no grupo exposto (54,4% vs 32,6%; OR 2,7; IC 95% 1–8,3; p=0,03). Número necessário para dano: aproximadamente 4–5 recém-nascidos expostos para um necessitar oxigênio domiciliar adicional. Não houve diferença significativa em: DBP DBP grave Hemorragia intraventricular grave Enterocolite necrosante Retinopatia da prematuridade Sepse Duração de ventilação ou tempo de internação A taxa de óbito não diferiu significativamente entre os grupos (12% no grupo tabagismo vs 16% no grupo não tabagismo antes do pareamento). Discussão Este é o primeiro estudo a utilizar pareamento por escore de propensão para comparar desfechos em prematuros extremos expostos ao tabagismo materno. Diferentemente de parte da literatura, o estudo não demonstrou aumento de DBP ou DBP grave no grupo exposto. Revisões sistemáticas prévias mostraram associação fraca ou de baixa qualidade metodológica entre tabagismo materno e DBP grave. Apesar de não haver diferença na taxa de DBP aos 36 semanas, houve maior necessidade de oxigênio domiciliar na alta entre os expostos. Os autores sugerem que isso pode refletir diferenças no curso clínico após 36 semanas, incluindo fatores como oximetria noturna, capacidade alimentar e critérios de segurança para alta, que não são totalmente capturados pela definição de DBP. O achado de menor necessidade de surfactante no grupo exposto é considerado gerador de hipótese. Uma possível explicação sugerida é que a hipóxia fetal crônica associada à nicotina poderia estimular resposta de estresse com aumento de glicocorticoides e produção de surfactante. Limitações importantes incluem: Amostra pequena Dados baseados em autorrelato materno Ausência de dados sobre intensidade e momento do tabagismo Ausência de avaliação de uso de múltiplas substâncias Estudo unicêntrico Conclusão Prematuros <30 semanas expostos ao tabagismo materno apresentaram maior probabilidade de alta com oxigênio domiciliar, mesmo após pareamento por escore de propensão. Para cada quatro a cinco recém-nascidos expostos, um necessitou oxigênio domiciliar adicional, destacando impacto clínico e econômico relevante. O tabagismo materno permanece um dos poucos fatores modificáveis associados a desfechos neonatais adversos, reforçando a importância de estratégias de cessação durante o pré-natal. Insights clínicos  Prematuros expostos ao tabagismo materno têm mais displasia broncopulmonar? Neste estudo, não houve diferença significativa na taxa de DBP ou DBP grave entre os grupos após pareamento. O tabagismo materno aumenta a necessidade de oxigênio na alta? Sim. Houve aumento significativo da alta com oxigênio domiciliar (OR 2,7), com NNH aproximado de 4–5. Há diferença na mortalidade neonatal? Não houve diferença estatisticamente significativa nas taxas de óbito entre os grupos. O uso de surfactante foi maior nos expostos? Não. O grupo exposto apresentou menor necessidade de surfactante, achado considerado gerador de hipótese. Qual a implicação prática para o neonatologista? O histórico de tabagismo materno deve ser considerado fator de risco para necessidade prolongada de suporte de oxigênio e possível impacto no planejamento de alta e seguimento ambulatorial. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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