Adolescentes e fase de sono atrasada na vida adulta Sobre o Artigo A fase de sono atrasada (DSP) representa uma forma subclínica do transtorno da fase de sono atrasada (DSPD), caracterizada por horários persistentemente tardios para dormir e acordar, gerando prejuízo funcional diurno. Apesar de ser uma condição frequente em adolescentes, pouco se sabe sobre sua evolução ao longo do desenvolvimento e sobre os fatores que determinam sua persistência ou resolução. O estudo teve como objetivo investigar a continuidade da DSP entre a adolescência tardia e a vida adulta jovem, avaliando a influência de características comportamentais, psiquiátricas, atividade física e marcadores fisiológicos relacionados à termorregulação circadiana. Métodos Utilizados Estudo longitudinal de base populacional derivado da coorte SleepHelsinki!. Avaliação inicial de 1.374 adolescentes com idade média de 16,8 anos. Seguimento em dois momentos subsequentes: T2: aproximadamente 7 meses após a avaliação inicial. T3: aproximadamente 19 meses após a avaliação inicial. Foram coletados: Questionários sobre sono. Sintomas psiquiátricos e comportamentais. Actigrafia para avaliação objetiva do sono e atividade física. Temperatura cutânea para análise da termorregulação circadiana. DSP foi definida como horário de dormir às 1h da manhã ou mais tarde em pelo menos três noites por semana. Foram realizadas análises de cluster, regressões logísticas e análises de continuidade temporal da DSP. Resultados Perfis comportamentais associados à DSP A análise de clusters identificou três perfis principais: Grupo com predominância de dependência de jogos eletrônicos. Grupo com poucos problemas comportamentais ou psiquiátricos. Grupo com múltiplas dificuldades comportamentais e psiquiátricas. Os adolescentes com DSP concentraram-se principalmente nos grupos de dependência de jogos e de múltiplos problemas comportamentais. Estabilidade da DSP A DSP mostrou elevada estabilidade ao longo do tempo: 70% dos participantes com DSP mantiveram o quadro durante o acompanhamento. 76% daqueles com DSP em T2 continuavam apresentando DSP em T3. Entre os adolescentes inicialmente sem DSP, 26% desenvolveram o quadro durante o seguimento. Fatores associados à persistência da DSP A persistência da DSP foi explicada principalmente por: Baixo autocontrole. Sintomas de TDAH. Consumo de álcool. Esses fatores responderam por aproximadamente 18% da estabilidade do quadro. Fatores associados ao surgimento da DSP O desenvolvimento de DSP ao longo do acompanhamento esteve associado principalmente a: Consumo de álcool. Baixo autocontrole. Esses fatores explicaram aproximadamente 16% dos novos casos. Atividade física e termorregulação Embora adolescentes com DSP apresentassem menor atividade física moderada-vigorosa e mais comportamento sedentário em algumas análises transversais, essas variáveis não explicaram a continuidade da DSP. Da mesma forma, os marcadores de temperatura circadiana não se associaram à persistência ou ao surgimento da DSP. Discussão Os resultados sugerem que a DSP é uma condição altamente persistente durante a transição da adolescência para a vida adulta. Os principais determinantes da evolução da DSP parecem estar relacionados ao controle comportamental, e não a alterações fisiológicas mensuradas neste estudo. O baixo autocontrole emergiu como o componente mais fortemente relacionado à continuidade da condição. Além disso, os achados reforçam a associação entre DSP e sintomas de TDAH, bem como o impacto potencial do consumo de álcool na manutenção e no desenvolvimento do atraso de fase do sono. Ao contrário do que poderia ser esperado, medidas de termorregulação circadiana e padrões de atividade física não mostraram influência significativa sobre a trajetória temporal da DSP. Conclusão A fase de sono atrasada apresenta elevada estabilidade da adolescência tardia até o início da vida adulta. A persistência e o surgimento da condição estão mais fortemente associados a fatores comportamentais, especialmente baixo autocontrole, sintomas de TDAH e uso de álcool, do que a alterações fisiológicas relacionadas à termorregulação circadiana ou atividade física. Os resultados sugerem que intervenções comportamentais, incluindo estratégias de terapia cognitivo-comportamental e treinamento de autorregulação, podem representar importantes alvos terapêuticos para adolescentes com DSP. Insights Clínicos A fase de sono atrasada tende a desaparecer espontaneamente na vida adulta jovem? Não na maioria dos casos. Cerca de 70% dos adolescentes com DSP mantiveram a condição ao longo do seguimento. Quais fatores aumentam a chance de persistência da DSP? Baixo autocontrole, sintomas de TDAH e uso de álcool foram os principais fatores associados à manutenção da DSP. O uso de álcool influencia a evolução da DSP? Sim. O consumo de álcool esteve associado tanto à persistência quanto ao surgimento de novos casos de DSP. Existe relação entre TDAH e fase de sono atrasada? Sim. Sintomas de TDAH contribuíram significativamente para a estabilidade da DSP ao longo do tempo. Alterações fisiológicas de temperatura corporal explicam a persistência da DSP? Não. Os marcadores de termorregulação circadiana avaliados não apresentaram associação significativa com a continuidade da condição. A atividade física protege contra a persistência da DSP? Neste estudo, a quantidade e intensidade da atividade física não influenciaram a continuidade da DSP ao longo do acompanhamento. Qual a principal implicação prática para pediatras e especialistas em sono? A identificação precoce de adolescentes com dificuldades de autorregulação, sintomas de TDAH e uso de álcool pode permitir intervenções comportamentais direcionadas para reduzir a persistência da DSP. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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