Em lactentes com enterocolite necrosante cirúrgica, a anastomose primária ou a confecção de estomia proporciona menor tempo de nutrição parenteral? Sobre o Artigo A enterocolite necrosante (ECN) permanece uma das emergências gastrointestinais mais graves da neonatologia, especialmente em prematuros. Embora a intervenção cirúrgica seja necessária nos casos de perfuração intestinal ou falha do tratamento clínico, ainda existe controvérsia sobre a melhor estratégia reconstrutiva após a ressecção intestinal: realizar anastomose primária ou confeccionar uma estomia. O estudo STAT Trial foi desenvolvido para responder essa questão por meio de um ensaio clínico randomizado multicêntrico. Métodos Utilizados O STAT Trial foi um estudo multicêntrico, multinacional e randomizado realizado entre 2010 e 2019 em 12 centros distribuídos pela Europa, Canadá, América do Sul, Singapura e Nova Zelândia. Foram incluídos recém-nascidos com suspeita de ECN que necessitavam laparotomia por perfuração intestinal ou falha do tratamento clínico. A randomização ocorreu durante o ato cirúrgico, após avaliação da extensão da doença e exclusão dos casos não elegíveis. Após a ressecção do intestino necrótico, os pacientes foram alocados para: Anastomose primária; Formação de estomia. O desfecho primário foi a duração da nutrição parenteral. Os desfechos secundários incluíram: Mortalidade; Necessidade de novas cirurgias; Complicações intestinais, incluindo fístulas, obstruções, recorrência da ECN e complicações relacionadas à estomia. Participaram 79 lactentes após consentimento dos responsáveis. Resultados As características basais, incluindo idade gestacional, peso ao nascimento, sexo e extensão da doença, foram semelhantes entre os grupos. Desfecho primário A duração mediana da nutrição parenteral foi significativamente menor no grupo submetido à anastomose primária: Anastomose primária: 30 dias (4–105 dias); Estomia: 51 dias (3–310 dias); Diferença estatisticamente significativa (p < 0,05). Desfechos secundários A mortalidade foi semelhante entre os grupos. As complicações intestinais ocorreram com maior frequência no grupo estomia: Estomia: 46%; Anastomose primária: 16%; Diferença estatisticamente significativa (p < 0,05). Os autores concluíram que, na ausência de doença distal ao segmento ressecado, a anastomose primária promove recuperação mais rápida da ECN e reduz complicações intestinais sem aumentar eventos adversos. Discussão Este é o primeiro ensaio clínico randomizado a fornecer evidências robustas comparando diretamente anastomose primária e estomia na ECN cirúrgica neonatal. Os resultados favorecem a anastomose primária, associando-se a menor dependência de nutrição parenteral e menor incidência de complicações intestinais, sem aumento da mortalidade. Entretanto, algumas limitações devem ser consideradas: Concentração da maioria dos pacientes em poucos países; Ausência de padronização dos protocolos de alimentação enteral pós-operatória; Possível viés de seleção devido à decisão do cirurgião sobre a elegibilidade para randomização; Ausência de poder estatístico para análises de subgrupos, especialmente em recém-nascidos extremamente prematuros ou criticamente enfermos. Apesar dessas limitações, o estudo representa um avanço importante na tomada de decisão cirúrgica para ECN. Conclusão Em recém-nascidos submetidos à cirurgia por enterocolite necrosante, a anastomose primária mostrou-se superior à estomia em relação ao tempo de nutrição parenteral e à ocorrência de complicações intestinais, sem aumento da mortalidade. Os achados sugerem que a anastomose primária deve ser considerada a estratégia preferencial em pacientes selecionados, quando não houver doença intestinal distal significativa após a ressecção. Insights Clínicos A anastomose primária reduz o tempo de nutrição parenteral em comparação à estomia? Sim. O tempo mediano de nutrição parenteral foi de 30 dias no grupo anastomose primária versus 51 dias no grupo estomia. A anastomose primária aumenta a mortalidade? Não. O estudo não identificou diferença significativa de mortalidade entre os grupos. Qual técnica apresentou menos complicações intestinais? A anastomose primária apresentou menor taxa de complicações intestinais (16%) quando comparada à estomia (46%). Em quais pacientes os resultados parecem mais aplicáveis? Em recém-nascidos com ECN submetidos à ressecção intestinal sem evidência de doença distal significativa, cenário utilizado para inclusão no estudo. O estudo permite extrapolar os resultados para prematuros extremamente pequenos ou criticamente enfermos? Com cautela. O estudo não teve poder estatístico suficiente para avaliar adequadamente subgrupos de maior risco, como recém-nascidos extremamente prematuros ou gravemente instáveis. Como este estudo pode impactar a prática clínica? Os resultados apoiam a consideração da anastomose primária como estratégia cirúrgica preferencial em casos selecionados de ECN, potencialmente reduzindo o tempo de nutrição parenteral, o número de complicações intestinais e a necessidade de procedimentos adicionais relacionados à estomia. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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