Diretrizes para Infecções do Trato Urinário Complicadas em Crianças: Revisão e Recomendações da Sociedade Europeia de Doenças Infecciosas Pediátricas (ESPID) Sobre o artigo As infecções do trato urinário complicadas (ITUc) representam um desafio clínico devido à heterogeneidade das apresentações, ausência de uma definição padronizada e escassez de recomendações específicas em diretrizes pediátricas. A incidência cumulativa de ITU até os sete anos de idade é estimada em 1–2% nos meninos e 7% nas meninas, sendo que entre 5% e 24% dos atendimentos de emergência correspondem a ITUc. Os autores propõem considerar ITUc como aquelas associadas a maior probabilidade de falha do manejo convencional. Cinco subgrupos foram identificados: anormalidades urológicas anatômicas ou funcionais significativas, ITU recorrente, apresentações clínicas graves, doenças de base não urológicas e neonatos. Métodos utilizados A Comissão de Diretrizes da European Society for Pediatric Infectious Diseases constituiu um grupo multidisciplinar formado por especialistas em infectologia pediátrica, nefrologia pediátrica e microbiologia. Foi realizada revisão abrangente da literatura nas bases PubMed, Embase e Cochrane Library, incluindo estudos publicados até dezembro de 2024 envolvendo pacientes menores de 18 anos. Foram avaliadas quatro controvérsias principais: Definição de ITU complicada; Investigação diagnóstica; Tratamento; Seguimento clínico. As recomendações foram elaboradas utilizando a metodologia GRADE e consenso de especialistas. Resultados Os autores definem ITUc como uma infecção urinária associada a maior risco de insucesso terapêutico com estratégias convencionais. Os principais grupos de risco incluem: Anomalias urológicas importantes; ITU recorrente; Sepse ou acometimento renal extenso; Imunossupressão ou outras doenças sistêmicas; Neonatos. A avaliação inicial deve incluir análise e cultura de urina em todos os pacientes, preferencialmente obtida por jato médio, cateterismo vesical ou punção suprapúbica. Exames laboratoriais complementares podem incluir: Hemograma; Marcadores inflamatórios; Hemoculturas; Função renal; Eletrólitos séricos. A reavaliação clínica após 48 horas é recomendada para todos os pacientes com ITUc. Quanto ao tratamento antimicrobiano, antibióticos orais podem ser utilizados na maioria das crianças clinicamente estáveis. Antibioticoterapia intravenosa inicial é recomendada em situações específicas: Refluxo vesicoureteral graus IV–V; Obstrução urinária significativa; Sepse; Nefronia ou abscesso renal; Neonatos e lactentes menores de dois meses; Pós-transplante renal; Imunossuprimidos com neutropenia febril. A duração total do tratamento geralmente varia entre 10 e 14 dias, podendo chegar a 21 dias nos casos de abscesso renal ou nefronia. A profilaxia antimicrobiana contínua não deve ser utilizada rotineiramente, sendo reservada para grupos selecionados, como: Refluxo vesicoureteral de alto grau; Disfunção vesicointestinal; Espinha bífida com cateterismo intermitente; Uropatias obstrutivas graves; Recorrência frequente de ITU. Discussão Este documento representa a primeira diretriz abrangente dedicada exclusivamente às ITU complicadas em crianças. Os autores destacam que ITUc não constitui uma entidade única, mas um espectro de doenças com diferentes fatores predisponentes, apresentações clínicas e riscos de desfechos adversos. Grande parte das recomendações é baseada em estudos retrospectivos e consenso de especialistas, refletindo a escassez de ensaios clínicos randomizados envolvendo pacientes pediátricos com ITUc. Outro ponto importante é a necessidade de equilibrar prevenção de recorrências e preservação da eficácia antimicrobiana, considerando o impacto da profilaxia contínua sobre o desenvolvimento de resistência bacteriana. Conclusão As diretrizes da ESPID propõem uma definição prática de ITU complicada baseada no risco de falha terapêutica convencional. A estratificação em cinco subgrupos permite individualizar investigação diagnóstica, escolha antimicrobiana, duração do tratamento, necessidade de profilaxia e seguimento por imagem. A maioria das crianças clinicamente estáveis pode ser manejada com antibióticos orais, enquanto apresentações graves, uropatias significativas e neonatos frequentemente necessitam de tratamento intravenoso inicial. São necessários estudos prospectivos para validar estratégias de duração reduzida de antibióticos e definir melhor o papel da profilaxia antimicrobiana em cada subgrupo. Insights clínicos Como a ESPID define uma infecção urinária complicada na infância? Como uma ITU associada a maior probabilidade de falha do manejo convencional, incluindo pacientes com anomalias urológicas, recorrências, apresentações graves, doenças sistêmicas ou período neonatal. Quais crianças devem receber antibiótico intravenoso inicialmente? Crianças com sepse, refluxo vesicoureteral graus IV–V, obstrução urinária significativa, nefronia/abscesso renal, neonatos, receptores de transplante renal e imunocomprometidos com neutropenia febril. Quando a profilaxia antimicrobiana contínua está indicada? Principalmente em pacientes com refluxo vesicoureteral de alto grau, disfunção vesicointestinal, espinha bífida associada a cateterismo intermitente, uropatias obstrutivas graves e episódios recorrentes de ITU. Qual a duração habitual do tratamento antibiótico? Entre 10 e 14 dias na maioria dos casos, podendo ser prolongado até 21 dias em crianças com nefronia ou abscesso renal. 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