Ensaio Clínico de Prednisolona como tratamento adjuvante da Doença de Kawasaki Sobre o artigo A Doença de Kawasaki é uma vasculite sistêmica aguda que acomete predominantemente crianças menores de cinco anos e representa uma das principais causas de cardiopatia adquirida na infância. Apesar do tratamento padrão com imunoglobulina intravenosa (IVIG) associada ao ácido acetilsalicílico, entre 10% e 20% dos pacientes desenvolvem lesões coronarianas. Estudos prévios sobre o uso de corticosteroides adjuvantes apresentaram resultados conflitantes, especialmente em populações fora do Japão e em pacientes com lesões coronarianas já presentes no diagnóstico. O presente estudo investigou se a prednisolona adicionada ao tratamento inicial poderia reduzir a incidência de lesões coronarianas em uma população não selecionada de crianças chinesas com Doença de Kawasaki. Métodos utilizados Ensaio clínico de fase III, multicêntrico, aberto e randomizado, realizado em 28 centros da China. Foram incluídas crianças com idade superior a um mês, diagnosticadas com Doença de Kawasaki conforme critérios da American Heart Association de 2017, com até dez dias de evolução da doença e sem tratamento prévio com IVIG. Os participantes foram randomizados para receber: Tratamento padrão: IVIG 2 g/kg associada a aspirina. Tratamento padrão acrescido de prednisolona 2 mg/kg/dia, iniciada concomitantemente à IVIG e reduzida progressivamente após normalização da proteína C reativa. O desfecho primário foi a ocorrência de lesões coronarianas um mês após o início da doença. Desfechos secundários incluíram necessidade de terapia de resgate, duração da febre, redução da proteína C reativa e evolução dos escores Z das artérias coronárias. Resultados Foram randomizados 3.208 pacientes, sendo 1.604 em cada grupo. Lesões coronarianas estavam presentes no momento do diagnóstico em 27,3% dos participantes. Após um mês, a incidência de lesões coronarianas foi: 16,0% no grupo prednisolona + tratamento padrão 13,8% no grupo tratamento padrão isolado A diferença não foi estatisticamente significativa (P=0,31). Entretanto, o uso de prednisolona esteve associado a: Menor necessidade de terapia de resgate (4,6% versus 10,1%) Menor duração mediana da febre (8,4 horas versus 13,2 horas) Redução mais acentuada da proteína C reativa após 72 horas A incidência de aneurismas coronarianos médios ou gigantes aos três meses foi semelhante entre os grupos. Não houve aumento significativo de eventos adversos com o uso da prednisolona. Discussão Os resultados confirmam achados prévios observados em estudos norte-americanos, mas diferem do estudo japonês RAISE, que demonstrou benefício do corticosteroide em pacientes selecionados de alto risco para resistência à IVIG. A inclusão de pacientes independentemente do risco de resistência à imunoglobulina ou da presença inicial de lesões coronarianas pode explicar a ausência de benefício observado neste estudo. Embora a prednisolona tenha promovido controle inflamatório mais rápido, essa melhora não se traduziu em redução do acometimento coronariano, sugerindo que a supressão da inflamação sistêmica pode não ser suficiente para modificar a evolução vascular da doença. Conclusão A adição de prednisolona ao tratamento inicial padrão da Doença de Kawasaki não reduziu a incidência de lesões coronarianas após um mês em crianças chinesas não selecionadas. Apesar de diminuir a duração da febre, reduzir os níveis de proteína C reativa e diminuir a necessidade de terapias de resgate, a estratégia não demonstrou benefício na prevenção do comprometimento coronariano. Novos estudos são necessários para avaliar esquemas prolongados de corticosteroides ou outras terapias imunomoduladoras. Insights clínicos A prednisolona deve ser utilizada rotineiramente em todos os pacientes com Doença de Kawasaki? Não. Neste estudo, a prednisolona não reduziu a incidência de lesões coronarianas em pacientes não selecionados. A prednisolona apresentou algum benefício clínico? Sim. Houve redução da duração da febre, menor necessidade de terapias de resgate e queda mais rápida da proteína C reativa. Pacientes de alto risco podem se beneficiar de corticosteroides? Possivelmente. Estudos anteriores, como o RAISE, demonstraram benefício em pacientes japoneses com alto risco de resistência à IVIG, mas esses achados não foram confirmados nesta população mais ampla. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
Faça login para acessar o conteúdo
ou cadastre-se. | ESQUECI MINHA SENHA