Melhorando o manejo da concussão pediátrica na atenção primária Sobre o artigo A concussão é uma condição frequente na população pediátrica e pode produzir sintomas físicos, cognitivos e psicológicos, incluindo cefaleia, tontura, alterações cognitivas e sofrimento psicológico. Além do impacto clínico, pode resultar em afastamento da escola e das atividades esportivas e comprometer significativamente a qualidade de vida. Apesar da existência de diretrizes para diagnóstico e tratamento, o manejo na atenção primária permanece pouco padronizado. Esse aspecto é particularmente relevante porque grande parte das crianças e adolescentes com concussão procura inicialmente serviços de atenção primária. Os autores identificaram, em suas unidades, inconsistências na utilização de instrumentos padronizados para avaliação dos sintomas, baixa frequência de fornecimento de orientações escritas às famílias e adesão inadequada ao acompanhamento após o diagnóstico. O objetivo principal do projeto foi elevar para pelo menos 70% a proporção de pacientes com concussão que realizassem uma avaliação padronizada por meio da Post-Concussion Symptom Scale (PCSS). Também foram estabelecidas metas de pelo menos 70% para o fornecimento de orientações escritas e para a realização do acompanhamento em até duas semanas quando clinicamente indicado. Métodos utilizados Foi realizado um projeto multidisciplinar de melhoria da qualidade, utilizando ciclos Plan-Do-Study-Act (PDSA) dentro do Model for Improvement. A intervenção ocorreu em duas grandes clínicas urbanas de atenção primária vinculadas a um hospital pediátrico de cuidados quaternários. Em conjunto, as unidades atendiam aproximadamente 23.000 pacientes, com cerca de 70.000 consultas anuais. O projeto de intervenção ocorreu entre abril de 2021 e maio de 2024, enquanto os dados analisados abrangeram janeiro de 2019 a maio de 2024. Foram incluídos pacientes com 5 anos ou mais atendidos por diagnósticos relacionados à concussão, com posterior revisão dos prontuários. Foram excluídas consultas nas quais o paciente foi encaminhado imediatamente ao departamento de emergência ou nas quais a concussão não foi abordada na documentação clínica. As principais intervenções incluíram: criação de um protocolo clínico estruturado para concussão; incorporação da PCSS ao prontuário eletrônico; criação de textos eletrônicos padronizados para educação das famílias; protocolos de retorno progressivo à escola, atividades físicas e esportes; educação de médicos, residentes, enfermeiros e demais profissionais; disponibilização da PCSS em espanhol; lembretes e feedback individualizado para profissionais; checklist específico para consultas de concussão; reorganização do processo de agendamento do acompanhamento; utilização de consultas virtuais quando apropriadas; busca ativa de pacientes que necessitavam de seguimento. O desfecho primário foi a proporção de consultas em que a PCSS foi realizada. Os desfechos secundários foram o fornecimento de orientações escritas na consulta inicial e a realização do acompanhamento em até duas semanas quando indicado. Os autores utilizaram gráficos de controle estatístico de processo e regressão logística multivariada. Também investigaram possíveis disparidades relacionadas a raça/etnia, idioma e tipo de seguro de saúde. Resultados Foram avaliados 704 pacientes únicos. Houve 357 consultas relacionadas à concussão no período basal e 991 durante o período de intervenção, totalizando 1.348 consultas. A implementação do programa resultou em melhora substancial dos três principais indicadores: utilização da PCSS: de 37% para 85%; fornecimento de educação e instruções escritas: de 42% para 83%; realização do acompanhamento indicado em até duas semanas: de 47% para 71%. A recomendação explícita do profissional para acompanhamento aumentou de 49% para 90%. A utilização do texto eletrônico padronizado contendo as orientações aumentou de 59% para 89%, enquanto a utilização da versão eletrônica da PCSS aumentou de 62% para 73%. O uso de consultas virtuais no acompanhamento aumentou inicialmente de 6% para 43% durante a pandemia de COVID-19, permanecendo posteriormente estável. Um achado importante foi a ausência de aumento de encaminhamentos para o departamento de emergência: a taxa permaneceu inferior a 5% durante todo o projeto. Entre os profissionais que responderam à pesquisa realizada ao final da intervenção, 88,2% concordaram ou concordaram fortemente que os novos procedimentos levaram a melhor atendimento das crianças com concussão, enquanto 85,3% consideraram o processo mais útil do que oneroso. Equidade no atendimento Antes da intervenção, pacientes de famílias cujo idioma principal não era o inglês apresentavam menor probabilidade de realizar a PCSS (OR 0,371; IC95% 0,157–0,875). Pacientes com seguro comercial apresentavam maior probabilidade de realizar a PCSS (OR 2,357; IC95% 1,358–4,091) e de receber orientações escritas (OR 2,223; IC95% 1,158–4,266) em comparação com aqueles com seguro público. Nos 12 meses finais da intervenção, nenhuma diferença estatisticamente significativa relacionada a raça/etnia, idioma ou tipo de seguro foi encontrada para os três desfechos analisados, sugerindo atenuação das disparidades previamente observadas. Discussão O estudo demonstra que uma intervenção multidisciplinar combinando protocolo clínico, ferramentas incorporadas ao prontuário eletrônico, educação profissional e reorganização do seguimento pode melhorar significativamente a padronização do manejo da concussão pediátrica na atenção primária. O protocolo clínico foi a intervenção central. Ele reuniu recomendações sobre diagnóstico, sinais de alerta, exame físico, tratamento direcionado dos sintomas, retorno às atividades escolares e esportivas e critérios de acompanhamento. A incorporação da PCSS ao prontuário eletrônico permitiu documentar objetivamente a carga de sintomas e acompanhar sua evolução entre diferentes consultas. A ferramenta também podia ser utilizada durante consultas virtuais. Outro componente relevante foi a padronização das orientações fornecidas às famílias. Um texto eletrônico reunia recomendações para o ambiente domiciliar, escolar e esportivo, podendo ser individualizado pelo profissional. Os resultados também sugerem que a padronização do processo assistencial pode contribuir para reduzir desigualdades. A disponibilização da PCSS em espanhol provavelmente contribuiu para reduzir a diferença associada ao idioma. Entretanto, a redução das diferenças relacionadas ao tipo de seguro ocorreu mesmo sem uma intervenção específica direcionada a esse fator, indicando possível efeito da própria padronização da assistência. Entre as limitações, o projeto foi realizado em uma rede acadêmica de atenção primária com infraestrutura robusta, prontuário eletrônico, serviços de intérprete e recursos para gestão populacional, o que pode limitar a generalização dos resultados. Além disso, houve baixa taxa de resposta à pesquisa dos profissionais, especialmente entre enfermeiros. O estudo também não avaliou diretamente desfechos clínicos centrados no paciente, como duração dos sintomas, tempo para retorno à escola, qualidade de vida ou tempo para recuperação completa. Assim, embora tenha demonstrado melhora clara nos processos
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