Hipospádia em recém-nascidos: anomalias renais e extrarrenais identificadas por rastreamento ultrassonográfico de rotina em uma UTI neonatal terciária Sobre o artigo A hipospádia é uma das anomalias congênitas genitais mais frequentes no sexo masculino, ficando atrás apenas da criptorquidia. Caracteriza-se pelo posicionamento anormal do meato uretral na face ventral do pênis, decorrente do fechamento inadequado dos tecidos penianos durante o desenvolvimento embrionário. Embora possa se apresentar como uma alteração anatômica aparentemente isolada, diferentes estudos descrevem sua associação com outras malformações, especialmente alterações geniturinárias. Entre elas estão as anomalias congênitas dos rins e do trato urinário (CAKUT), grupo que inclui alterações renais e das vias urinárias decorrentes de distúrbios do desenvolvimento embrionário. Os autores destacam que anomalias associadas à hipospádia podem ser classificadas em urinárias, genitais e extrarrenais, incluindo alterações cardiotorácicas e craniofaciais. A hipótese de um campo de desenvolvimento embrionário compartilhado ajuda a explicar a coexistência dessas malformações. O objetivo do estudo foi descrever as anomalias renais e extrarrenais identificadas por rastreamento ultrassonográfico de rotina em recém-nascidos com hipospádia, enfatizando a possibilidade de que a alteração genital funcione como marcador clínico precoce de outras anomalias congênitas. Métodos utilizados Foi realizada uma série retrospectiva de cinco casos de recém-nascidos diagnosticados com hipospádia em uma unidade neonatal terciária ao longo de dois anos, entre novembro de 2023 e novembro de 2025. Todos os pacientes foram submetidos à investigação por imagem para pesquisa de anomalias associadas. O protocolo descrito incluiu: ultrassonografia abdominal e do sistema renal/pélvico para investigação de anomalias renais; ultrassonografia craniana para avaliação de possíveis alterações extrarrenais; ecocardiograma para investigação de alterações cardíacas; investigação ultrassonográfica adicional quando indicada por achados clínicos, como ocorreu no recém-nascido que apresentava fosseta sacral atípica. Dos cinco recém-nascidos, quatro eram a termo e um era prematuro tardio de 36 semanas. Três apresentavam hipospádia glanular e dois, hipospádia coronal. Resultados A investigação demonstrou alterações renais em três dos cinco recém-nascidos. Caso 1: recém-nascido a termo com hipospádia glanular. A ultrassonografia abdominal mostrou sistema pielocalicial proeminente. A ultrassonografia craniana foi normal e o ecocardiograma mostrou forame oval patente (FOP). Devido à presença de fosseta sacral atípica, foi realizada ultrassonografia sacral, que identificou lipoma subdural entre L2 e L4. Caso 2: prematuro tardio de 36 semanas com hipospádia coronal. A ultrassonografia abdominal identificou agenesia renal esquerda associada à dilatação grau I do sistema pielocalicial do rim direito. A ultrassonografia craniana mostrou periventricular flare e o ecocardiograma revelou FOP. Caso 3: recém-nascido a termo com hipospádia glanular. As ultrassonografias abdominal e craniana não demonstraram alterações relevantes. O ecocardiograma mostrou FOP e pequeno canal arterial patente (PCA) em processo de fechamento. Caso 4: recém-nascido a termo com hipospádia glanular. A ultrassonografia abdominal identificou hidronefrose grau III à direita e grau I à esquerda. A ultrassonografia craniana foi normal, enquanto o ecocardiograma demonstrou FOP e pequeno PCA em fechamento. Caso 5: recém-nascido a termo com hipospádia coronal. As ultrassonografias abdominal e craniana foram normais e o ecocardiograma mostrou FOP. Assim, os principais achados renais da série foram agenesia renal unilateral, dilatação do sistema pielocalicial e diferentes graus de hidronefrose. Nenhum dos pacientes apresentou quadro sindrômico evidente ou dismorfismos associados. Os achados ecocardiográficos limitaram-se principalmente a FOP e PCA em fechamento espontâneo, considerados pelos autores achados típicos do início da vida e não defeitos cardíacos estruturais significativos. Discussão Os autores destacam que a associação entre hipospádia e alterações do sistema geniturinário é biologicamente plausível devido às relações espaciais, temporais e hierárquicas existentes entre as estruturas durante o desenvolvimento embrionário. Um aspecto relevante desta série é o foco específico no período neonatal, enquanto grande parte da literatura disponível avalia lactentes mais velhos e crianças. O diagnóstico desde o nascimento em uma unidade terciária permitiu investigação precoce das possíveis anomalias associadas. Na série apresentada, três dos cinco pacientes tiveram algum achado renal, incluindo um recém-nascido com agenesia renal esquerda e alteração pielocalicial no rim contralateral e outros casos com diferentes graus de dilatação/hidronefrose. Os autores relacionam esses achados ao espectro das CAKUT. Todos os casos apresentavam formas distais de hipospádia, glanular ou coronal. Apenas um dos cinco recém-nascidos apresentava história familiar positiva para hipospádia. Embora estudos prévios descrevam associação entre hipospádia e malformações cardíacas, craniofaciais, neurológicas e síndromes como a associação VACTERL, nenhum recém-nascido desta série apresentou fenótipo sindrômico. O periventricular flare identificado em um paciente não foi considerado uma malformação congênita pelos autores. Do ponto de vista clínico, o trabalho chama atenção para a possibilidade de que mesmo apresentações aparentemente menos complexas da hipospádia possam coexistir com alterações renais relevantes. Entretanto, os resultados devem ser interpretados considerando o número extremamente reduzido de pacientes, o desenho retrospectivo e o caráter descritivo de uma série de casos, que não permitem determinar prevalência, risco relativo ou estabelecer, isoladamente, uma recomendação universal de rastreamento. Conclusão A hipospádia pode funcionar como marcador clínico precoce de anomalias renais ou extrarrenais no período neonatal. Na série apresentada, três dos cinco recém-nascidos apresentaram alterações renais ao rastreamento, incluindo agenesia renal, dilatação pielocalicial e hidronefrose. Os autores defendem que a hipospádia não deve ser considerada exclusivamente uma malformação da abertura uretral, pois pode representar a primeira manifestação clínica de alterações urogenitais ou extrarrenais mais relevantes. O estudo reforça a importância da avaliação clínica cuidadosa do recém-nascido com hipospádia e da consideração de possíveis anomalias associadas, particularmente do sistema renal e urinário. Insights clínicos A hipospádia neonatal pode estar associada a anomalias renais? Sim. Nesta série, três dos cinco recém-nascidos apresentaram alterações renais ao exame ultrassonográfico, incluindo agenesia renal, dilatação pielocalicial e hidronefrose. Quais foram as alterações renais mais relevantes encontradas? Um recém-nascido apresentou agenesia renal esquerda com dilatação grau I do sistema pielocalicial do rim direito. Outro apresentou hidronefrose grau III à direita e grau I à esquerda. Também foi descrito sistema pielocalicial proeminente em outro paciente. A associação ocorreu apenas em hipospádias proximais ou graves? Não. Todos os recém-nascidos desta série apresentavam formas glanulares ou coronais, ou seja, formas distais. Mesmo nesse pequeno grupo foram encontradas alterações renais relevantes. Os pacientes apresentavam sinais clínicos externos que previssem as alterações renais? Os
Faça login para acessar o conteúdo
ou cadastre-se. | ESQUECI MINHA SENHA