Onfalocele Gigante: avaliação pré-natal, manejo neonatal e estratégias de fechamento Sobre o artigo A onfalocele é o segundo defeito congênito mais comum da parede abdominal, com incidência aproximada de 1 a 2 casos por 10.000 nascidos vivos. Caracteriza-se pela herniação de vísceras abdominais através do anel umbilical, permanecendo recobertas por um saco membranoso. A onfalocele gigante (OG) é geralmente definida como um defeito fascial com diâmetro ≥5 cm ou com hernição de pelo menos 50% do fígado para o saco. Entretanto, os autores ressaltam que não existe definição universal, dificultando a comparação entre estudos e estratégias terapêuticas. Mais do que o tamanho absoluto do defeito, a desproporção víscero-abdominal, o conteúdo hepático, a reserva pulmonar e as anomalias associadas determinam a complexidade clínica. A fisiopatologia envolve alterações do desenvolvimento embrionário, com falha do fechamento das pregas laterais da parede abdominal e do retorno das alças intestinais à cavidade abdominal entre a 6ª e a 11ª semanas de desenvolvimento. A OG apresenta importante associação com anomalias congênitas e condições genéticas, incluindo cardiopatias, trissomias 13 e 18 e espectro de Beckwith-Wiedemann. A hipoplasia pulmonar e a hipertensão pulmonar (HP) constituem importantes determinantes da morbidade e mortalidade neonatal. Métodos utilizados O artigo é uma revisão clínica que integra evidências da literatura com a experiência institucional dos autores. Não é apresentado como ensaio clínico ou estudo prospectivo com uma população própria de pacientes. A revisão aborda quatro grandes componentes da assistência à OG: avaliação e estratificação pré-natal; anomalias congênitas e genéticas associadas; estabilização e manejo cardiopulmonar neonatal; estratégias cirúrgicas e não operatórias, incluindo fechamento primário, fechamento em etapas e abordagem “paint-and-wait”. Os autores também discutem técnicas adjuvantes utilizadas para aumentar o domínio abdominal e facilitar o fechamento definitivo. Resultados Avaliação pré-natal e estratificação de risco A ultrassonografia fetal é o principal método diagnóstico e geralmente permite o diagnóstico definitivo após a resolução da herniação fisiológica do intestino médio, depois de 12 semanas de gestação. A avaliação deve caracterizar: dimensões do defeito; integridade do saco; órgãos herniados; inserção do cordão umbilical; crescimento fetal e volume de líquido amniótico; desenvolvimento cardiopulmonar. Uma medida particularmente relevante é a relação entre o diâmetro da onfalocele e a circunferência abdominal (OD/AC). Valores ≥0,26 estão associados a maior necessidade de fechamento em etapas e suporte respiratório prolongado, enquanto valores <0,26 indicam maior probabilidade de fechamento fascial primário bem-sucedido. A ressonância magnética fetal pode complementar a avaliação, especialmente quando existe suspeita de hipoplasia pulmonar grave. O volume pulmonar fetal total e o volume pulmonar observado/esperado podem contribuir para estimar a gravidade da hipoplasia pulmonar e a morbidade respiratória prevista. Avaliação genética e malformações associadas Alterações cromossômicas são descritas em aproximadamente 30% a 40% dos casos de onfalocele, enquanto diagnósticos sindrômicos podem alcançar até 70% quando pesquisados sistematicamente. Os autores recomendam oferecer investigação genética invasiva nos casos diagnosticados no período pré-natal, independentemente do tamanho aparente do defeito. Entre as principais associações estão: trissomia 13; trissomia 18; espectro de Beckwith-Wiedemann; pentalogia de Cantrell; complexo OEIS. Na suspeita fenotípica de espectro de Beckwith-Wiedemann, deve ser considerada investigação de metilação de 11p15. Anomalias cardíacas estão entre as alterações associadas mais importantes. Cardiopatias congênitas maiores são relatadas em aproximadamente 20% a 50% dos casos, justificando a realização de ecocardiografia fetal abrangente em todas as onfaloceles diagnosticadas no pré-natal. Planejamento do parto O acompanhamento ideal deve ocorrer em centro fetal multidisciplinar, envolvendo medicina materno-fetal, neonatologia, cirurgia pediátrica, cardiologia fetal, genética e demais especialidades necessárias. O parto deve ser planejado em centro terciário com disponibilidade imediata de ressuscitação neonatal, suporte cardiopulmonar avançado e cirurgia pediátrica. O parto vaginal pode ser adequado em onfaloceles pequenas, contendo apenas intestino e com saco íntegro. Na OG, especialmente diante de risco de ruptura do saco ou outras indicações obstétricas, a cesariana deve ser considerada. Estabilização neonatal Após o nascimento, as prioridades são: proteger e preservar a integridade do saco; prevenir hipotermia; realizar posicionamento adequado; promover descompressão gastrointestinal com sonda nasogástrica; estabilizar respiração e circulação; pesquisar precocemente hipertensão pulmonar. Alguns recém-nascidos necessitam de intubação e sedação precoces devido à mecânica pulmonar restritiva e ao risco de deterioração durante tentativas de redução das vísceras. Hipoplasia e hipertensão pulmonar A hipertensão pulmonar é descrita em aproximadamente 30% a 60% dos pacientes com OG e representa um fenótipo de alto risco. O artigo destaca a necessidade de diferenciar a hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido (HPPN), com manifestação precoce, hipoxemia lábil e shunt direita-esquerda, da HP mais tardia ou crônica relacionada à hipoplasia pulmonar. A presença de HP associa-se a: maior necessidade de intubação precoce; ventilação mecânica mais prolongada; maior utilização de vasodilatadores pulmonares; internações mais longas; maior frequência de traqueostomia; maior mortalidade. Recomenda-se acompanhamento ecocardiográfico seriado e seguimento cardiológico longitudinal. As estratégias ventilatórias devem ser protetoras e podem incluir PEEP mais elevada, hipercapnia permissiva e ventilação de alta frequência quando houver hipercapnia ou falha de oxigenação refratárias. O tratamento da HPPN segue princípios convencionais, incluindo otimização da oxigenação e ventilação, sedação, prevenção da acidose e uso seletivo de vasodilatadores pulmonares, como óxido nítrico inalatório e sildenafil. Nutrição A alimentação enteral frequentemente é retardada por íleo pós-operatório, dismotilidade relacionada à redução visceral e instabilidade respiratória. Parte dos pacientes necessita de nutrição parenteral prolongada. Refluxo gastroesofágico, aversão oral e necessidade de terapia alimentar também podem fazer parte da evolução clínica. Escolha da estratégia de fechamento O objetivo do tratamento é obter cobertura e, posteriormente, fechamento abdominal durável sem produzir comprometimento cardiopulmonar pela elevação excessiva da pressão intra-abdominal. Os autores enfatizam que nenhuma técnica é universalmente superior. A decisão deve ser individualizada principalmente de acordo com desproporção víscero-abdominal, reserva pulmonar e anomalias associadas. Fechamento primário É preferível quando existe domínio abdominal suficiente e a redução das vísceras pode ocorrer sem deterioração ventilatória ou hemodinâmica. Os melhores resultados observados nesses pacientes refletem, em grande parte, uma fisiologia basal mais favorável, e não necessariamente superioridade intrínseca da técnica. Fechamento em etapas É utilizado quando a aproximação fascial primária produziria pressão intra-abdominal excessiva. Podem ser utilizados silo, materiais protéticos, telas e reconstruções posteriores. Essa abordagem evita aumento abrupto da pressão intra-abdominal, mas
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