O Índice de Arredondamento Corporal é um preditor mais forte de risco cardiometabólico do que o Índice de Massa Corporal em crianças de 8 a 17 anos.

Fonte: The Journal of Pediatrics

O Índice de Arredondamento Corporal é um preditor mais forte de risco cardiometabólico do que o Índice de Massa Corporal em crianças de 8 a 17 anos. Sobre o artigo  A obesidade pediátrica está associada a hipertensão arterial, dislipidemia, resistência à insulina e maior risco futuro de doença cardiovascular e diabetes tipo 2. Entretanto, o índice de massa corporal (IMC), apesar de amplamente utilizado, apresenta limitações importantes: não diferencia massa magra de massa adiposa e fornece pouca informação sobre a distribuição da gordura corporal. O Body Roundness Index (BRI) é uma medida antropométrica que utiliza altura e circunferência da cintura para caracterizar o formato corporal e estimar a distribuição da adiposidade, especialmente a adiposidade central. Diferentemente do IMC, o BRI busca incorporar informações relacionadas à distribuição da gordura e ao tecido adiposo visceral. O objetivo do estudo foi determinar se o BRI apresenta associação mais forte com desfechos cardiometabólicos do que o IMC em crianças e adolescentes de 8 a 17 anos. A hipótese dos autores foi de que o BRI seria um melhor preditor de pressão arterial do que o IMC nessa população. Métodos utilizados Foi realizado um estudo transversal utilizando dados dos ciclos de 2015 a 2020 do NHANES, levantamento representativo da população civil não institucionalizada dos Estados Unidos. Foram incluídos 3.996 participantes entre 8 e 17 anos com registros disponíveis de pressão arterial, peso, altura e circunferência da cintura. As principais exposições analisadas foram: z-score do IMC, calculado de acordo com idade e sexo utilizando as curvas de crescimento do CDC; z-score do BRI, obtido a partir do BRI calculado com altura e circunferência da cintura. Como não existem padrões pediátricos estabelecidos por idade e sexo para o BRI, os autores utilizaram z-scores calculados dentro da própria amostra. Os desfechos primários foram pressão arterial em faixa hipertensiva e os índices de pressão arterial sistólica (PAS) e diastólica (PAD). A definição de pressão arterial hipertensiva seguiu os critérios pediátricos utilizados pelos autores: valores ≥130/80 mmHg para participantes com 13 anos ou mais e ≥ percentil 95 para idade, sexo e altura naqueles com menos de 13 anos. Foram realizadas três aferições da pressão arterial, sendo utilizada a média das medidas. Os desfechos secundários foram glicemia, insulina e triglicerídeos séricos. As análises laboratoriais ficaram restritas aos participantes com dados disponíveis, totalizando 2.189 adolescentes de 12 a 17 anos segundo o fluxo de inclusão apresentado no estudo. Foram empregados modelos de regressão linear e logística para comparar as associações do IMC e do BRI com os desfechos cardiometabólicos. Os modelos foram ajustados para idade, sexo, insegurança alimentar, razão de pobreza e gasto energético. A análise estatística considerou o desenho amostral complexo e os pesos amostrais do NHANES. Embora BRI e IMC apresentassem forte correlação (r = 0,805; P < 0,001), o VIF de 2,847 indicou ausência de multicolinearidade problemática. Resultados A idade média da população foi de 12,66 anos, com distribuição equilibrada entre os sexos: 50,6% eram meninos e 49,4% meninas. A prevalência de obesidade foi de 13%, enquanto 3,6% apresentaram pressão arterial em faixa hipertensiva. Participantes com pressão arterial hipertensiva apresentaram BRI médio significativamente maior (P = 0,01). Também apresentaram níveis médios superiores de insulina (P = 0,02) e triglicerídeos (P = 0,04). BRI, IMC e pressão arterial Quando analisados individualmente, tanto o z-score do BRI quanto o z-score do IMC apresentaram associação significativa com os índices de PAS e PAD. Para cada aumento de uma unidade no z-score do BRI: o índice de PAS aumentou 0,013; o índice de PAD aumentou 0,018. Para cada aumento de uma unidade no z-score do IMC: o índice de PAS aumentou 0,012; o índice de PAD aumentou 0,010. Um dos achados mais relevantes surgiu na análise da pressão arterial hipertensiva. O z-score do IMC isoladamente não apresentou associação estatisticamente significativa: OR 1,322; IC95% 0,925–1,889; P = 0,122. Em contraste, o z-score do BRI apresentou associação significativa: OR 1,497; IC95% 1,175–1,907; P = 0,002. Assim, cada aumento de uma unidade no z-score do BRI esteve associado a aproximadamente 50% de aumento nas chances de apresentar pressão arterial hipertensiva. No modelo contendo IMC e BRI, a associação com pressão arterial hipertensiva foi: OR 1,630; IC95% 1,206–2,203; P = 0,002. A inclusão do BRI ao modelo com IMC também mostrou associação mais forte com o índice de pressão arterial diastólica, mas não com o índice de pressão arterial sistólica. Desfechos metabólicos Quando avaliados separadamente, tanto IMC quanto BRI apresentaram associação significativa com insulina e triglicerídeos, mas não com glicemia. Nos modelos combinando IMC e BRI, houve associação significativa com os três marcadores metabólicos avaliados: Glicose: β = 1,711 mg/dL; IC95% 0,539–2,882; P = 0,005. Insulina: β = 6,871 μU/mL; IC95% 4,915–8,828; P < 0,001. Triglicerídeos: β = 11,281 mg/dL; IC95% 6,393–16,169; P < 0,001. Os resultados indicam que a incorporação do BRI pode acrescentar informação à avaliação antropométrica tradicional baseada no IMC. Discussão Os achados sugerem que o BRI pode fornecer informação adicional ao IMC na identificação do risco cardiometabólico pediátrico, especialmente em relação à pressão arterial hipertensiva, pressão arterial diastólica e marcadores metabólicos. Uma possível explicação discutida pelos autores é a capacidade do BRI de incorporar a circunferência da cintura, refletindo melhor a adiposidade central. O tecido adiposo visceral apresenta maior atividade metabólica e está relacionado a estados pró-inflamatórios e de resistência à insulina, mecanismos associados ao desenvolvimento de hipertensão, dislipidemia e diabetes tipo 2. O BRI pode, portanto, identificar características da distribuição da gordura corporal que não são capturadas adequadamente pelo IMC. Entretanto, o estudo não demonstrou benefício semelhante para todos os desfechos. A inclusão do BRI não fortaleceu a associação com o índice de PAS, mostrando que sua superioridade não foi uniforme. Os autores também destacam que outros índices antropométricos, como relação cintura/altura, índice de massa triponderal e índices de formato corporal, podem complementar o IMC na avaliação da adiposidade pediátrica. Entre os principais pontos fortes estão o grande tamanho da amostra, a utilização de dados representativos da população norte-americana e a análise estatística considerando o desenho complexo do NHANES. As

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