Abordando Desenvolvimento Mental e Emocional Saudável em Pediatria

Fonte: American Academy of Pediatrics

Abordando Desenvolvimento Mental e Emocional Saudável em Pediatria Sobre o artigo  O relatório parte do reconhecimento de que os problemas de saúde mental e emocional entre crianças, adolescentes e adultos jovens atingiram níveis preocupantes. A pandemia de COVID-19, determinantes sociais e desigualdades no sistema de saúde contribuíram para intensificar esse cenário. A proposta central da American Academy of Pediatrics é modificar a forma como a saúde mental é compreendida na prática pediátrica. Em vez de abordá-la apenas quando existe um transtorno ou diagnóstico estabelecido, o artigo propõe considerar o desenvolvimento mental e emocional saudável (Healthy Mental and Emotional Development – HMED) como componente inseparável da saúde global da criança. Nesse modelo, saúde mental corresponde ao desenvolvimento cognitivo, emocional, comportamental e social ao longo da vida. Portanto, o objetivo não é simplesmente distinguir crianças “normais” daquelas com transtornos, mas compreender seu funcionamento em um espectro, identificando simultaneamente dificuldades, fatores de proteção e potencialidades. Um aspecto central é a saúde relacional. Relações seguras, estáveis e acolhedoras com cuidadores são fundamentais para apego seguro, resiliência, autonomia, autoeficácia e capacidade de enfrentar desafios. O pediatra ocupa posição privilegiada nesse processo pela possibilidade de acompanhar longitudinalmente a criança e sua família. O artigo destaca que aproximadamente 1 em cada 5 crianças de 3 a 17 anos apresentará uma condição mental ou emocional diagnosticável, enquanto um número ainda maior apresenta dificuldades que interferem no funcionamento sem preencher critérios diagnósticos. A abordagem precoce dessas situações pode evitar a progressão dos sintomas e ampliar oportunidades de prevenção e intervenção antes do estabelecimento de transtornos mais graves. Métodos utilizados Trata-se de um relatório clínico da American Academy of Pediatrics, desenvolvido pelo Committee on Psychosocial Aspects of Child and Family Health e pela Section on Developmental and Behavioral Pediatrics. Os autores participaram da concepção do documento, revisão e interpretação da literatura relevante, elaboração do manuscrito, revisões e aprovação da versão final. O documento não corresponde a ensaio clínico ou estudo observacional com uma população específica. Seu propósito é organizar evidências e conceitos relevantes e propor uma estrutura prática para incorporar a promoção, vigilância, avaliação e manejo do desenvolvimento mental e emocional à assistência pediátrica. A proposta é fundamentada em uma visão longitudinal, biopsicossocial, centrada na família, baseada em potencialidades, informada pelo trauma e integrada à saúde global da criança. Resultados O relatório identifica importantes barreiras à incorporação da saúde mental na Pediatria. Entre elas estão treinamento insuficiente, consultas com tempo limitado, descontinuidade assistencial, longas esperas por atendimento especializado, dificuldades de remuneração e cobertura, escassez de profissionais de saúde mental e separação estrutural entre assistência física e mental. Mais de 65% dos pediatras relatam falta de treinamento necessário, e mais de 50% referem falta de confiança para abordar adequadamente questões relacionadas ao desenvolvimento mental e emocional. O documento também destaca desigualdades relevantes. Crianças negras e hispânicas recebem atendimento ambulatorial de saúde mental em taxas aproximadamente 50% menores que crianças brancas, enquanto mais da metade dos jovens LGBTQ+ de 13 a 24 anos não recebe os serviços de saúde mental desejados. Como resposta, a AAP propõe substituir um modelo predominantemente biomédico, centrado em identificar “o que está errado”, por uma abordagem de saúde integral, que também investigue “o que está forte” na criança e na família. O modelo clínico é organizado em cinco etapas: Promoção do desenvolvimento mental e emocional saudável: incorporar orientação antecipatória, parentalidade positiva, apoio à relação cuidador-criança e desenvolvimento de habilidades socioemocionais à rotina pediátrica. Vigilância e rastreamento: realizar atualizações breves sobre saúde mental ao longo dos atendimentos e utilizar instrumentos validados de rastreamento nas consultas preventivas. O rastreamento identifica situações que necessitam de avaliação adicional, mas não estabelece isoladamente um diagnóstico. Avaliação do funcionamento: abandonar exclusivamente a dicotomia “normal versus anormal” e analisar a criança em um espectro que vai de funcionamento ótimo e florescimento, passa por situações preocupantes e chega ao estresse significativo. Parceria com a família e intervenções breves: diante de preocupações que não demandam intervenção urgente, compreender o significado do comportamento, identificar fatores desencadeantes e protetores e construir soluções conjuntamente. O relatório apresenta estratégias como fatores comuns de comunicação terapêutica, entrevista motivacional, intervenções transdiagnósticas e intervenções breves. Encaminhamento para serviços especializados: utilizar recursos especializados de saúde mental e emocional quando a gravidade, complexidade ou necessidade clínica indicar. O relatório também organiza marcos sociais, emocionais e comportamentais desde a primeira infância até o início da vida adulta, relacionando-os a oportunidades de orientação antecipatória e intervenções clínicas. Entre as intervenções baseadas em evidências discutidas estão o treinamento de manejo parental (Parent Management Training – PMT) para comportamentos externalizantes em crianças menores, a terapia de interação pais-filhos, a psicoterapia criança-pais em situações relacionadas a experiências traumáticas e estratégias derivadas da terapia cognitivo-comportamental (TCC). Discussão Um dos principais conceitos do relatório é que o desenvolvimento mental e emocional não deve começar a ser abordado somente quando existe uma doença. Assim como crescimento, alimentação, atividade física e prevenção de acidentes fazem parte da Pediatria preventiva, competências emocionais, relações familiares, autorregulação, autonomia, identidade, resiliência e funcionamento social também devem ser acompanhados longitudinalmente. A avaliação deve considerar simultaneamente fatores individuais e ambientais: temperamento, experiências adversas e protetoras, trauma, discriminação, determinantes sociais da saúde, relações familiares e entre pares e características neurodesenvolvimentais. A perspectiva da família também é fundamental. Classificar determinada manifestação como “normal” apesar de sofrimento funcional importante pode prejudicar o cuidado; por outro lado, patologizar comportamentos que não causam prejuízo significativo também pode resultar em intervenções inadequadas. O rastreamento deve ser universal, e não direcionado somente às crianças que o profissional considera previamente “de risco”. Essa estratégia pode reduzir a influência de vieses subjetivos, estereótipos e desigualdades na identificação e encaminhamento dos pacientes. Outro conceito relevante é o uso das habilidades de comunicação já presentes na prática pediátrica. O modelo HEL²P³ organiza elementos terapêuticos em esperança (Hope), empatia (Empathy), linguagem (Language), lealdade/compromisso (Loyalty), permissão (Permission), parceria (Partnership) e plano (Plan). O ambiente assistencial também deve ser informado pelo trauma, inclusivo e centrado no paciente. Toda a equipe — recepção, enfermagem, médicos e profissionais de saúde comportamental — pode contribuir para

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