Efeitos da semaglutida no peso e nas necessidades de insulina em duas adolescentes com diabetes tipo 1

Fonte: American Academy of Pediatrics

Efeitos da semaglutida no peso e nas necessidades de insulina em duas adolescentes com diabetes tipo 1 Sobre o artigo  O manejo do diabetes mellitus tipo 1 (DM1) durante a adolescência torna-se particularmente complexo quando associado à obesidade. O excesso de peso reduz a sensibilidade à insulina, aumenta a necessidade diária de insulina e pode estabelecer um ciclo de maior insulinização e ganho ponderal. Além disso, a coexistência de DM1 e obesidade amplia os desafios psicossociais e o risco cardiometabólico. Embora sistemas de administração automatizada de insulina, bombas de infusão contínua e monitorização contínua da glicose tenham melhorado significativamente o tratamento do DM1, essas tecnologias podem não ser suficientes para otimizar simultaneamente controle glicêmico e peso corporal. Os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1RA) são utilizados no diabetes tipo 2 e na obesidade pediátrica em determinadas faixas etárias. A semaglutida, especificamente, é aprovada para tratamento da obesidade a partir dos 12 anos, mas seu emprego como terapia adjuvante no DM1 pediátrico permanece off-label. O artigo apresenta duas adolescentes com DM1, obesidade, ganho ponderal progressivo e aumento das necessidades de insulina tratadas com semaglutida associada à insulinoterapia e ao reforço das intervenções de estilo de vida. O objetivo foi descrever a evolução do peso, necessidade de insulina, controle glicêmico, tolerabilidade e segurança durante 12 meses. Métodos utilizados Trata-se de um relato de dois casos de adolescentes do sexo feminino com DM1 e obesidade acompanhadas por 12 meses após introdução de semaglutida subcutânea semanal como terapia adjuvante. A adolescente 1, de 17 anos, apresentava DM1 havia 10 anos. Pesava 87 kg, com IMC de 30,1 kg/m², HbA1c de 7,5% e dose diária total de insulina (TDD) de 79 unidades. Utilizava sistema automatizado MiniMed 780G com SmartGuard e Guardian Sensor 4. A semaglutida foi iniciada em 0,25 mg/semana e aumentada para 0,5 mg após seis meses. A adolescente 2, de 12 anos, apresentava DM1 havia quatro anos e obesidade grave, com peso próximo de 96–97 kg e IMC de 38 kg/m². Utilizava 115 unidades de insulina/dia por sistema de infusão contínua Omnipod, associado ao FreeStyle Libre 2. A semaglutida foi iniciada em dose de 0,125 mg/semana, com titulação gradual até 0,5 mg aos seis meses. As doses foram individualizadas de acordo com resposta clínica e tolerabilidade. O artigo descreve utilização de microdoses orientadas pelo número de cliques das canetas de semaglutida. Os próprios autores enfatizam que essa estratégia de microdosing não é baseada em evidências e não integra as instruções de dose aprovadas. Durante o acompanhamento foram avaliados peso, altura, IMC, dose total diária de insulina, HbA1c, métricas da monitorização contínua de glicose e eventos adversos. As adolescentes e suas famílias receberam reforço das orientações nutricionais e de atividade física, educação sobre hipoglicemia e orientação para monitorização frequente de cetonas devido ao risco potencial de cetoacidose diabética (CAD) associado à redução da insulinoterapia. Resultados Após 12 meses, ambas as adolescentes apresentaram redução importante do peso corporal e da necessidade diária de insulina, acompanhada de melhora ou manutenção favorável dos parâmetros glicêmicos. Adolescente 1: apresentou perda de 12 kg, passando de 87 kg para aproximadamente 75 kg. O IMC caiu de 30,1 para 26 kg/m², com redução do escore-z de aproximadamente 2,8 para 1,6. A dose total diária de insulina diminuiu em 27,7 unidades, partindo de 79 unidades/dia. Houve melhora do controle glicêmico, com redução da HbA1c e discreto aumento do tempo no alvo (TIR). O artigo descreve redução da HbA1c de 4 mmol/mol; embora o texto apresente também “2,5%”, esse valor percentual é inconsistente com a conversão apresentada, motivo pelo qual deve ser interpretado conforme relatado pelos próprios autores. Adolescente 2: apresentou perda de 8,4 kg ao final de 12 meses. O IMC caiu de 38 para 34,1 kg/m², com redução do escore-z de 6,2 para aproximadamente 4,8. A dose diária de insulina diminuiu expressivamente, em 53 unidades/dia, partindo de 115 unidades. O tempo no alvo aumentou 9 pontos percentuais, enquanto tempo abaixo do alvo (TBR) e tempo acima do alvo (TAR) diminuíram 4 pontos percentuais cada. O TBR inicialmente elevado na segunda adolescente foi atribuído a leituras falsamente baixas decorrentes da compressão do sensor durante o sono. As leituras de hipoglicemia foram verificadas por glicemia capilar e consideradas falsos positivos. Não foram observados episódios de hipoglicemia grave com glicose <54 mg/dL, e não foram relatados efeitos adversos significativos. As famílias também relataram mudanças positivas no bem-estar psicossocial. Ambas estavam no estágio V de Tanner, apresentavam ciclos menstruais regulares antes da introdução da semaglutida e permaneceram com ciclos regulares durante o tratamento. Discussão Os casos sugerem que baixas doses de semaglutida podem ser uma estratégia adjuvante potencial para adolescentes com DM1 e obesidade, especialmente quando intervenções de estilo de vida e tecnologias avançadas de insulinoterapia não conseguem impedir ganho ponderal e aumento progressivo das necessidades de insulina. Os mecanismos potencialmente relevantes dos GLP-1RA incluem redução da ingestão alimentar, retardo do esvaziamento gástrico e supressão da secreção de glucagon, fatores que podem reduzir a necessidade de insulina prandial e contribuir para o controle do peso. Entretanto, existem questões de segurança particularmente importantes no DM1. Embora os GLP-1RA isoladamente não provoquem hipoglicemia de forma intrínseca, sua associação à insulina exige ajuste cuidadoso das doses. Além disso, náuseas, vômitos e dor abdominal relacionados aos GLP-1RA podem mimetizar manifestações iniciais de CAD. Por esse motivo, os autores reforçam a necessidade de educação específica do paciente, monitorização contínua da glicose e avaliação de cetonas durante hiperglicemia ou doenças intercorrentes. Nos dois casos, as estratégias de mitigação de risco incluíram redução da insulina prandial, reforço dos alertas da monitorização contínua, monitorização de cetonas e educação estruturada sobre hipoglicemia. A principal limitação é a natureza do estudo: apenas dois casos, sem grupo controle. Além disso, a literatura sobre GLP-1RA em adolescentes com DM1 permanece limitada. Portanto, esses resultados não estabelecem eficácia, segurança ou esquema posológico para uso rotineiro. Os autores destacam a necessidade de estudos clínicos maiores para avaliar particularmente risco de CAD, composição corporal, crescimento, puberdade e desfechos cardiovasculares em longo prazo. Conclusão A adição

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