Avaliação da bradicardia fetal na ultrassonografia pré-natal: considerações diagnósticas e implicações clínicas

Avaliação da bradicardia fetal na ultrassonografia pré-natal: considerações diagnósticas e implicações clínicas Sobre o artigo  A bradicardia fetal identificada durante uma ultrassonografia pré-natal de rotina, fora do contexto do trabalho de parto, representa um desafio diagnóstico distinto das alterações da frequência cardíaca associadas ao sofrimento fetal intraparto. Tradicionalmente, a bradicardia fetal é definida como frequência cardíaca fetal (FCF) inferior a 110 bpm por pelo menos 10 minutos. Entretanto, os autores destacam que limites ajustados à idade gestacional, especialmente valores abaixo do terceiro percentil, podem identificar de maneira mais precisa situações patológicas. Na ausência de outros sinais de sofrimento fetal, a bradicardia persistente pode decorrer principalmente de bradicardia sinusal, bloqueio atrioventricular (BAV) completo congênito, BAV 2:1 ou bigeminismo atrial bloqueado. Uma FCF normal em determinado momento não exclui uma arritmia; história de ritmo irregular ou lento deve motivar avaliação por ecocardiografia fetal. A ecocardiografia fetal é apresentada como o padrão-ouro para avaliação do ritmo cardíaco intrauterino. Como não se dispõe rotineiramente de um eletrocardiograma fetal convencional, a atividade elétrica é inferida a partir dos eventos mecânicos atriais e ventriculares. O modo M permite analisar a relação entre as contrações atriais e ventriculares, enquanto o Doppler pulsado pode avaliar simultaneamente fluxos como mitral/aórtico ou veia cava superior/aorta. O intervalo de tempo de contração atrioventricular (AVCTI) funciona como equivalente mecânico do intervalo PR do ECG pós-natal. Métodos utilizados O artigo consiste em uma revisão clínica didática associada a uma vinheta de imagem pré-natal, não sendo um ensaio clínico ou estudo observacional original. O caso ilustrativo apresenta feto com FCF de 83 bpm, avaliado por ultrassonografia bidimensional, modo M, Doppler colorido e Doppler pulsado. A análise ecocardiográfica demonstra a relação entre as contrações atriais e ventriculares e permite identificar dissociação atrioventricular. A revisão aborda sistematicamente os principais diagnósticos diferenciais da bradicardia fetal, com ênfase em: BAV completo congênito; doença imunomediada associada aos anticorpos anti-SSA/Ro e anti-SSB/La; bradicardia sinusal; bigeminismo atrial bloqueado; BAV de segundo grau; vigilância fetal e neonatal; tratamento intrauterino; planejamento do parto, estabilização neonatal e indicação de estimulação cardíaca. Resultados Bloqueio atrioventricular completo congênito O BAV completo congênito (CCHB) é descrito como a forma mais comum de bradicardia fetal e caracteriza-se pela perda da sincronia entre as contrações atriais e ventriculares. Sua incidência é estimada em aproximadamente 1 para 20.000 nascidos vivos. A dissociação AV faz com que os ventrículos dependam de um ritmo de escape juncional ou ventricular, mais lento e menos confiável. Como consequência, podem ocorrer redução do débito cardíaco, insuficiência cardíaca fetal e hidropisia. O CCHB pode estar associado a cardiopatias congênitas estruturais, particularmente isomerismo atrial esquerdo, transposição congenitamente corrigida das grandes artérias e defeitos do septo atrioventricular. Quando cardiopatia estrutural e distúrbio elétrico coexistem, o prognóstico fetal é pior. BAV completo imunomediado Nos fetos com coração estruturalmente típico, o CCHB imunomediado está fortemente associado à exposição transplacentária a anticorpos anti-SSA/Ro. Os autoanticorpos desencadeiam resposta inflamatória que pode produzir fibrose do sistema de condução fetal, sobretudo do nó AV. A transferência de anticorpos pode ocorrer a partir de 12 semanas, enquanto o processo inflamatório apresenta maior atividade entre 18 e 25 semanas de gestação. A fibrose do nó AV frequentemente é irreversível e culmina em bloqueio completo. Gestantes com anti-SSA/Ro apresentam risco de aproximadamente 1% a 2% de CCHB fetal. O risco é relatado como 3% na presença conjunta de SSA/Ro e SSB/La. Após uma gestação previamente afetada pelo CCHB, o artigo relata risco de recorrência de 16% a 40%. Um ponto clinicamente relevante é que os autoanticorpos estão presentes em cerca de 95% das gestantes de fetos com CCHB isolado, enquanto apenas 20% a 30% dos lactentes afetados têm progenitores com doença autoimune previamente diagnosticada, como lúpus ou síndrome de Sjögren. Além da lesão do sistema de condução, o processo imunomediado pode acometer miocárdio, valvas e vasos. Fibroelastose endocárdica e disfunção valvar AV são marcadores prognósticos importantes. Vigilância fetal As diretrizes citadas pelos autores recomendam ecocardiografia fetal seriada nas gestações com anticorpos anti-Ro/SSA e/ou anti-La/SSB. Sem antecedente de filho afetado por CCHB ou lúpus neonatal, sugere-se vigilância ecocardiográfica em intervalos inferiores à frequência semanal entre 16–18 e 26 semanas, embora a periodicidade ideal permaneça indefinida. Quando existe antecedente de CCHB ou lúpus neonatal, recomenda-se ecocardiografia fetal semanal entre 16–18 e 26 semanas. Tratamento do CCHB O acompanhamento fetal deve procurar progressão da bradicardia, disfunção cardíaca e hidropisia. A avaliação inclui frequência ventricular, AVCTI, função cardíaca, fibroelastose endocárdica, insuficiência das valvas AV e padrões Doppler vasculares. Nos bloqueios associados a processo imunomediado, os autores discutem o uso de dexametasona para reduzir a inflamação do sistema de condução e do miocárdio, embora as evidências apresentadas sejam predominantemente observacionais. Imunoglobulina intravenosa permanece mais controversa e tende a ser reservada para progressão da doença de condução ou evidência de inflamação miocárdica. Em fetos com frequência ventricular inferior a 55 bpm, β-simpatomiméticos como terbutalina, salbutamol ou isoprenalina podem aumentar a frequência ventricular, especialmente diante de cardiopatia estrutural ou sinais de insuficiência cardíaca. O artigo ressalta, contudo, seus potenciais efeitos adversos e pró-arrítmicos. A estimulação cardíaca fetal permanece experimental e não demonstrou melhora da sobrevida ou prolongamento da gestação. Mais da metade dos fetos com CCHB necessita de implante de marca-passo até os 18 meses de idade, apesar do tratamento com corticoides. Hidroxicloroquina O artigo destaca evidências de que a hidroxicloroquina reduz em mais de 50% a recorrência do CCHB e, portanto, deve ser utilizada como prevenção secundária nas gestações expostas a anti-SSA/Ro, conforme os dados do estudo PATCH citados pelos autores. Bradicardia sinusal A bradicardia sinusal fetal é descrita como FCF persistentemente entre aproximadamente 90 e 130 bpm, com ritmo atrial regular e condução AV 1:1. Entre as possíveis causas estão hipotireoidismo materno, β-bloqueadores, antitireoidianos, metadona, disfunção autoimune do nó sinusal, miocardite, doença de Pompe, síndrome de Holt-Oram, mutações em TBX5 e NKX2.5, síndrome do QT longo e outras canalopatias. Também devem ser consideradas alterações do sistema nervoso central fetal, restrição grave do crescimento, sofrimento fetal e compressão do cordão umbilical. Nos casos isolados, geralmente não é necessário tratamento específico da condução

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