Manejo Obstétrico e Implicações Neonatais das Gestações Múltiplas de Alta Ordem Sobre o artigo As gestações de trigêmeos e de maior ordem representam situações obstétricas de elevada complexidade e estão associadas a aumento importante da morbidade materna, fetal e neonatal. O crescimento histórico dessas gestações esteve relacionado principalmente ao uso de tecnologias de reprodução assistida, embora mudanças recentes, como a limitação do número de embriões transferidos, tenham reduzido sua incidência. O artigo destaca que a corionicidade constitui um dos principais determinantes do risco perinatal, sendo fundamental sua definição ainda no primeiro trimestre. A presença de pares monocoriônicos dentro de uma gestação múltipla exige vigilância adicional devido às complicações relacionadas à circulação placentária compartilhada. Do ponto de vista neonatal, o principal determinante de morbidade é a prematuridade, associada a síndrome do desconforto respiratório, hemorragia intraventricular, enterocolite necrosante, imaturidade alimentar e hospitalização prolongada em unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN). Em pares monocoriônicos, podem existir ainda repercussões cardiovasculares, anemia e outras consequências do compartilhamento vascular placentário. O artigo utiliza como fio condutor o caso de uma gestante de 37 anos com gestação espontânea de trigêmeos tricoriônicos e triamnióticos, acompanhada até o parto prematuro com 33 semanas. Métodos utilizados Trata-se de uma revisão clínica estruturada a partir da apresentação e evolução de um caso, integrando evidências disponíveis e recomendações de entidades como o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), Society for Maternal-Fetal Medicine (SMFM) e American Academy of Pediatrics. No caso apresentado, a gestação tripla foi identificada precocemente e caracterizada como tricoriônica e triamniótica. Após aconselhamento sobre riscos maternos, fetais e neonatais, incluindo a possibilidade de redução multifetal, o casal optou pela manutenção dos três fetos. O acompanhamento incluiu ácido acetilsalicílico em baixa dose para prevenção de pré-eclâmpsia, avaliação anatômica fetal detalhada, exames laboratoriais maternos e ultrassonografias seriadas de crescimento a cada quatro semanas. Com 33 semanas, a gestante apresentou trabalho de parto prematuro, recebendo betametasona para benefício fetal, cefazolina para profilaxia de Streptococcus do grupo B e tocólise. A progressão do trabalho de parto, associada à apresentação pélvica do primeiro feto, determinou a realização de cesariana. Resultados Os três recém-nascidos eram do sexo masculino e nasceram vivos com 33 semanas de idade gestacional. Os pesos foram: Trigêmeo 1: 1.950 g, percentil 43; Trigêmeo 2: 1.820 g, percentil 31; Trigêmeo 3: 1.900 g, percentil 38. Os escores de Apgar no primeiro e quinto minutos foram 8/9 para os trigêmeos 1 e 3 e 6/8 para o trigêmeo 2. Todos foram internados em UTIN. Apenas o segundo trigêmeo necessitou de pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP) por curto período. Os demais apresentaram evolução neonatal sem intercorrências relevantes descritas no artigo. O tempo de internação variou entre 32 e 36 dias. A mãe apresentou evolução pós-operatória sem complicações, com perda sanguínea estimada em 800 mL e alta no quarto dia após a cesariana. Discussão A principal mensagem clínica é que gestações de alta ordem apresentam riscos substancialmente maiores que gestações únicas ou gemelares e necessitam de acompanhamento multidisciplinar envolvendo obstetrícia, medicina materno-fetal e neonatologia. Corionicidade e acompanhamento fetal A determinação da corionicidade e amnionicidade deve ocorrer preferencialmente entre 10 e 14 semanas. A avaliação da membrana intergemelar e do sinal lambda auxilia na diferenciação entre placentação dicoriônica e monocoriônica. Quando existe um par monocoriônico, deve-se considerar vigilância específica para complicações como: síndrome de transfusão feto-fetal; sequência anemia-policitemia; restrição seletiva do crescimento fetal. Cada feto deve receber uma identificação consistente durante toda a gestação para permitir acompanhamento longitudinal adequado do crescimento e de eventuais anomalias. O artigo recomenda avaliação anatômica detalhada aproximadamente entre 18 e 20 semanas e avaliações seriadas da biometria fetal a cada 3 a 4 semanas. Perfis biofísicos fetais semanais no terceiro trimestre podem ser considerados diante do risco aumentado de insuficiência placentária e óbito fetal. Redução multifetal A redução multifetal é apresentada como uma possibilidade a ser discutida precocemente mediante consentimento informado. Segundo os dados citados pelos autores, a manutenção de gestações múltiplas de alta ordem está associada a risco aproximadamente cinco vezes maior de natimortalidade e sete vezes maior de morte neonatal. O risco de perda espontânea de toda a gestação é estimado no artigo em 25% para quadrigêmeos e 15% para trigêmeos. A redução de um ou mais fetos pode melhorar os resultados, porém o próprio procedimento apresenta risco de aproximadamente 4% a 5% de perda gestacional. A corionicidade é particularmente importante nessa decisão, pois a redução em gestações monocoriônicas apresenta maior complexidade técnica devido às comunicações vasculares placentárias. Momento e via de parto A decisão deve equilibrar os riscos da prematuridade com os riscos da permanência intrauterina. Para trigêmeos sem complicações, o artigo relata recomendação da SMFM de parto aproximadamente entre 34 e 35 semanas. A cesariana costuma ser preferida em razão das dificuldades logísticas de monitorização simultânea e das diferentes apresentações fetais. O parto vaginal pode ser considerado em circunstâncias selecionadas, especialmente quando o primeiro feto está em apresentação cefálica e existe equipe obstétrica experiente. Riscos maternos Entre as principais complicações maternas associadas às gestações de alta ordem encontram-se pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, anemia, hemorragia, hospitalização prolongada e maior risco de mortalidade materna. O artigo enfatiza vigilância materna intensificada, incluindo rastreamento precoce de diabetes gestacional, uso de ácido acetilsalicílico em baixa dose para prevenção de pré-eclâmpsia e monitorização de complicações hipertensivas e cardiopulmonares. Implicações neonatais A prematuridade é o principal risco neonatal. Segundo os autores, a idade gestacional média no nascimento de trigêmeos é aproximadamente 32 semanas, frequentemente em consequência de trabalho de parto prematuro espontâneo ou indicação médica de interrupção. Restrição e discordância do crescimento também são frequentes. O artigo destaca que essas alterações podem refletir distribuição placentária desigual, limitação do espaço uterino e alterações da perfusão placentária. A equipe neonatal deve estar preparada para a reanimação simultânea de três recém-nascidos prematuros, com disponibilidade de suporte respiratório e recursos adequados de UTIN. Quando há pares monocoriônicos complicados por hidropisia fetal, cardiomiopatia ou anemia fetal significativa, podem ser necessários recursos adicionais, incluindo suporte transfusional e avaliação cardiológica neonatal. Em longo prazo, os desfechos neurodesenvolvimentais são influenciados
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