O “Som do Silêncio” em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal: ouvindo fala e música dentro de uma incubadora

O “Som do Silêncio” em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal: ouvindo fala e música dentro de uma incubadora Sobre o artigo  A experiência auditiva do recém-nascido prematuro internado em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) é substancialmente diferente daquela vivenciada no ambiente intrauterino. Enquanto o útero transmite predominantemente sons de baixa frequência, especialmente abaixo de 500 Hz, o ambiente da UTIN expõe o prematuro a múltiplos sons, inclusive de frequências mais altas e intensidades superiores às recomendadas. A audição já constitui uma função sensorial estabelecida no início do terceiro trimestre da gestação. Assim, a exposição acústica durante a prematuridade ocorre em uma fase importante do desenvolvimento do sistema auditivo. Os autores destacam que os níveis sonoros encontrados nas UTIN frequentemente ultrapassam as recomendações citadas no artigo, de até 45 dB durante o dia e 35 dB à noite. Monitores, alarmes, conversas, abertura e fechamento da incubadora e equipamentos de suporte respiratório são fontes relevantes de ruído. A incubadora exerce papel complexo nesse cenário: pode atenuar determinados sons externos, mas também modificar, amplificar ou gerar estímulos acústicos internamente. O objetivo do estudo foi caracterizar precisamente essa dinâmica sonora e demonstrar o que efetivamente pode ser ouvido pelo prematuro “dentro da caixa”. Métodos utilizados Foi realizado um estudo experimental com gravações de áudio dentro e fora de uma incubadora Dräger Isolette Infant Incubator C2000, no Centro de Simulação Pediátrica da Universidade Médica de Viena. Como modelo de paciente foi utilizado o simulador de prematuro Paul (SIMCharacters), representando um recém-nascido de aproximadamente 27 semanas, com 35 cm e menos de 1.000 g. Um microfone foi posicionado próximo à orelha esquerda do manequim. O prematuro simulado recebeu suporte respiratório pelo sistema Infant Flow SiPAP, avaliado sem fluxo e com fluxos de 8 e 12 L/min. Foram empregados diferentes estímulos acústicos, incluindo ruído de banda larga, tons puros entre 62,5 e 16.000 Hz, varredura logarítmica entre 20 Hz e 21 kHz, voz masculina cantada, voz feminina falada e cantada, voz feminina em canto suave/sussurro e ruído branco. As gravações avaliaram diferentes combinações de incubadora coberta ou descoberta, portinholas abertas ou fechadas e diferentes intensidades de fluxo respiratório. Os sinais foram analisados quanto à relação sinal-ruído, limiar de mascaramento e intensidade em diferentes bandas de frequência. Os autores também documentaram níveis absolutos de ruído associados a atividades rotineiras realizadas na incubadora. Resultados A incubadora apresentou comportamento acústico dependente da frequência. Sem fluxo respiratório, houve atenuação dos sons de médias e altas frequências, especialmente acima de 500 Hz. No estímulo de varredura acústica, a redução foi de aproximadamente 5–8 dB acima de 500 Hz, podendo alcançar 15 dB acima de 1.000 Hz. Em contraste, ocorreu importante amplificação das baixas frequências, particularmente abaixo de 125 Hz. No teste de varredura, frequências inferiores a 62 Hz e entre 62–125 Hz apresentaram aumento aproximado de 6–8 dB dentro da incubadora. A abertura das portinholas aumentou a transmissão de frequências mais altas para o interior da incubadora. Para frequências superiores a 200 Hz, a abertura das portas aumentou o nível sonoro em mais de 15 dB em algumas avaliações envolvendo voz. A cobertura da incubadora com manta apresentou efeito acústico protetor pequeno e não significativo, embora os autores ressaltem sua possível utilidade para proteção luminosa e amortecimento de sons de impacto. O suporte respiratório teve impacto expressivo. O aumento do fluxo do SiPAP elevou significativamente o ruído, sobretudo nas frequências mais altas, produzindo mascaramento de outros estímulos acústicos. Com fluxo de 12 L/min, o nível medido foi de aproximadamente 71 dB(A). A redução do fluxo em 2 L/min esteve associada a uma redução de aproximadamente 3 dB, correspondente, segundo os autores, a uma redução de 25% da energia sonora. As vozes faladas, cantadas ou sussurradas podiam tornar-se extremamente fracas ou até praticamente inaudíveis junto à orelha do prematuro simulado quando o suporte respiratório estava funcionando. O mascaramento foi especialmente relevante para a voz feminina em sussurro. Atividades aparentemente simples também produziram níveis elevados dentro da incubadora: colocar um aparelho de pressão arterial sobre ela resultou em 84 dB internamente, colocar materiais médicos sobre sua superfície produziu 85 dB, e fechar a portinhola atingiu 91 dB no interior. Discussão Os resultados demonstram que a incubadora não deve ser considerada simplesmente uma barreira acústica. Ela modifica seletivamente o espectro sonoro: reduz determinadas frequências médias e altas, mas apresenta ressonância importante nas baixas frequências. Essa característica é clinicamente relevante porque impactos e ruídos produzidos diretamente na estrutura da incubadora podem ser transmitidos e amplificados. Os autores relatam que ruídos curtos produzidos externamente nas paredes da incubadora podem apresentar ganho de aproximadamente 20 dB em seu interior. O suporte respiratório representa outro componente particularmente importante da exposição acústica. O aumento do fluxo pode elevar substancialmente o ruído de fundo e mascarar estímulos potencialmente relevantes, como a voz dos pais e cuidadores. Os autores relacionam essa questão ao desenvolvimento auditivo. Evidências discutidas no artigo indicam que experiências auditivas precoces podem influenciar o desenvolvimento estrutural e funcional do córtex auditivo. Portanto, o ambiente acústico da UTIN não envolve apenas prevenção de ruído excessivo, mas também preservação de estímulos auditivos adequados. Entre as medidas discutidas estão redução de fontes desnecessárias de ruído, cuidado no fechamento das portinholas, evitar utilizar a parte superior da incubadora como superfície de apoio, resposta rápida aos alarmes e educação contínua da equipe. Em relação à musicoterapia, os autores alertam para a amplificação das baixas frequências dentro da incubadora e sugerem evitar instrumentos com forte conteúdo de graves. O estudo apresenta limitações importantes: foi realizado em ambiente de simulação; características acústicas podem variar entre diferentes UTIN; não foram avaliadas adequadamente informações vibrotáteis e binaurais; e não houve mensuração absoluta de SPL para todas as gravações, fazendo com que parte da análise espectral utilizasse amplitudes relativas. Conclusão A incubadora oferece proteção parcial contra sons de médias e altas frequências, porém amplifica baixas frequências e apresenta fenômenos de ressonância. A cobertura com manta praticamente não apresentou proteção acústica adicional significativa. A abertura das portinholas aumenta a entrada de frequências mais altas, enquanto dispositivos de

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