Otimização da dose de gentamicina em pacientes pediátricos oncológicos por modelagem farmacocinética populacional.

Fonte: The Pediatric Infectious Disease Journal

Otimização da dose de gentamicina em pacientes pediátricos oncológicos por modelagem farmacocinética populacional. Sobre o artigo  A gentamicina permanece como um dos principais aminoglicosídeos utilizados no tratamento de infecções por bacilos Gram-negativos na população pediátrica. Entretanto, sua farmacocinética apresenta elevada variabilidade, especialmente em crianças com câncer, devido às alterações fisiológicas relacionadas à malignidade, quimioterapia, composição corporal e função renal. A monitorização terapêutica é essencial porque a eficácia depende da obtenção de uma relação Cmax/MIC adequada, enquanto concentrações residuais elevadas aumentam o risco de nefrotoxicidade. Apesar de estudos prévios, ainda existiam resultados conflitantes sobre o impacto da oncologia pediátrica na farmacocinética da gentamicina, justificando o desenvolvimento de um modelo farmacocinético específico para orientar esquemas de dose mais precisos. Métodos utilizados Foi realizado um estudo retrospectivo multicêntrico envolvendo dois hospitais da Arábia Saudita. Foram incluídas 222 crianças entre 1 mês e 14 anos que receberam gentamicina por pelo menos 72 horas e possuíam monitorização terapêutica com níveis de pico e vale. Os pesquisadores desenvolveram um modelo farmacocinético populacional utilizando o software Monolix, avaliando como potenciais covariáveis: idade; peso corporal; massa livre de gordura; taxa de filtração glomerular (TFG); sexo; presença de doença oncológica. Também foram realizadas simulações de Monte Carlo com doses entre 5 e 10 mg/kg em dose única diária, avaliando: probabilidade de atingir Cmax/MIC ≥8; risco de toxicidade (vale <1 mg/L). Resultados Foram analisados 98 pacientes oncológicos e 124 não oncológicos. Os principais achados foram: O modelo farmacocinético que melhor descreveu a gentamicina foi o de um compartimento com eliminação linear. Peso corporal, idade e TFG foram os principais determinantes da depuração da gentamicina. A presença de câncer não alterou significativamente os parâmetros farmacocinéticos. A depuração renal aumentada (Augmented Renal Clearance – ARC) foi significativamente mais frequente nas crianças oncológicas (33,7% versus 21%). Apenas cinco pacientes desenvolveram lesão renal aguda. Para microrganismos com MIC ≤1 mg/L, doses mínimas de 6 mg/kg/dia alcançaram probabilidade de sucesso terapêutico ≥90%. Para MIC de 1,5 mg/L, somente 10 mg/kg/dia atingiu aproximadamente 90% de sucesso. Para MIC de 2 mg/L, nenhuma das doses testadas foi suficiente para alcançar a meta farmacodinâmica. Em todas as simulações, o risco de concentrações residuais acima de 1 mg/L permaneceu inferior a 2%, sugerindo baixo potencial de nefrotoxicidade mesmo com doses maiores. Discussão O estudo demonstra que o diagnóstico de câncer, isoladamente, não exige ajustes específicos da dose de gentamicina. O principal fator responsável pela variabilidade farmacocinética foi a função renal, especialmente a presença de depuração renal aumentada, condição frequente em pacientes com neutropenia febril e durante o tratamento oncológico. Os autores reforçam que a individualização baseada na TFG, idade e peso corporal, associada à monitorização terapêutica, oferece maior segurança do que simplesmente diferenciar pacientes oncológicos dos demais. Outro achado importante foi o suporte adicional ao uso de esquemas de dose única diária, que mantêm elevada eficácia microbiológica com baixa probabilidade de toxicidade renal. Os autores reconhecem limitações como o desenho retrospectivo, ausência de dados microbiológicos individuais (MIC), pequena representação de lactentes e falta de avaliação dos diferentes estágios da quimioterapia. Conclusão O estado oncológico exerce pouca influência direta sobre a farmacocinética da gentamicina em crianças. Entretanto, a elevada frequência de depuração renal aumentada nessa população reforça a necessidade de individualização da dose baseada em idade, peso e função renal. Os resultados sugerem que uma dose mínima de 6 mg/kg/dia em administração única diária é adequada para infecções por patógenos com MIC ≤1 mg/L, enquanto infecções causadas por microrganismos menos sensíveis podem exigir estratégias terapêuticas alternativas. A monitorização terapêutica permanece fundamental para maximizar eficácia e minimizar toxicidade. Insights clínicos  A presença de câncer exige aumento rotineiro da dose de gentamicina? Não. O estudo mostrou que o câncer, por si só, não alterou significativamente a farmacocinética da gentamicina. Qual variável mais influencia a depuração da gentamicina? Peso corporal, idade e taxa de filtração glomerular foram os principais determinantes da depuração. Qual dose diária apresentou melhor desempenho para microrganismos com MIC ≤1 mg/L? Pelo menos 6 mg/kg em dose única diária atingiu probabilidade de sucesso terapêutico superior a 90%. Pacientes oncológicos apresentam maior depuração renal aumentada? Sim. A ARC foi significativamente mais frequente entre crianças com câncer, reforçando a necessidade de monitorização da função renal. Doses maiores aumentaram significativamente o risco de nefrotoxicidade? Não. Nas simulações, mesmo doses de até 10 mg/kg/dia apresentaram menos de 2% de probabilidade de concentrações residuais potencialmente tóxicas. A gentamicina é suficiente para patógenos com MIC de 2 mg/L? Não. Nenhuma das doses avaliadas alcançou a meta farmacodinâmica desejada, sugerindo necessidade de estratégias terapêuticas alternativas. Qual a principal aplicação prática deste estudo? Individualizar a dose de gentamicina com base na idade, peso, função renal e monitorização terapêutica, em vez de ajustar a dose apenas pelo diagnóstico oncológico. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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