Prevenção do Afogamento em Crianças e Adolescentes

Fonte: American Academy of Pediatrics

Prevenção do Afogamento em Crianças e Adolescentes: Relatório Técnico da American Academy of Pediatrics Sobre o artigo  O afogamento permanece uma das principais causas de morte não intencional por lesões na população pediátrica. A American Academy of Pediatrics (AAP) atualizou seu relatório técnico sobre prevenção do afogamento incorporando novas evidências epidemiológicas, fatores de risco, estratégias preventivas, desigualdades raciais e socioeconômicas e recomendações para orientação antecipatória na prática pediátrica. O artigo adota a definição internacional de afogamento como o processo de comprometimento respiratório decorrente de submersão ou imersão em líquido, podendo resultar em desfecho fatal ou não fatal. Termos como “afogamento seco”, “quase afogamento”, “afogamento secundário”, “molhado”, “passivo” ou “silencioso” devem ser evitados. Nos Estados Unidos, o afogamento é a principal causa de morte não intencional relacionada a lesões em crianças de 1 a 4 anos e a segunda causa entre crianças e adolescentes de 5 a 14 anos. Em 2024, ocorreram 1.075 mortes não intencionais por afogamento em menores de 20 anos, incluindo eventos relacionados a embarcações. A mensagem central do relatório é que nenhuma intervenção isolada é suficiente para prevenir o afogamento. A prevenção depende de múltiplas camadas simultâneas de proteção, adaptadas à idade, ao desenvolvimento, às condições clínicas e ao ambiente aquático. Métodos utilizados Trata-se de um relatório técnico da AAP, elaborado a partir da revisão e interpretação da literatura científica relevante pelos autores e pelo Council on Injury, Violence, and Poison Prevention. O documento atualiza as evidências que fundamentam as recomendações pediátricas para prevenção do afogamento e acompanha a declaração de política da AAP Prevention of Drowning in Children. A atualização concentrou-se especialmente em: epidemiologia e mudanças nas taxas de afogamento; desigualdades raciais, étnicas, socioeconômicas e geográficas; fatores de risco relacionados à idade e às condições clínicas; supervisão de crianças em ambientes aquáticos; barreiras físicas e cercamento de piscinas; competência aquática e aulas de natação; coletes salva-vidas e segurança em embarcações; resgate e ressuscitação cardiopulmonar; orientação antecipatória oferecida por pediatras; políticas culturalmente adequadas e promoção da equidade; estratégias do US National Water Safety Action Plan. Resultados Epidemiologia e grupos de maior risco Entre crianças de 0 a 19 anos, a taxa de afogamento fatal não intencional entre 2018 e 2022 foi de 1,1 por 100.000 habitantes. Crianças de 0 a 4 anos apresentaram a maior taxa, com destaque para aquelas de 1 a 3 anos, cuja taxa chegou a 3,3 por 100.000. Os adolescentes constituem outro grupo importante de risco, especialmente os meninos de 15 a 19 anos. Diferentemente das crianças pequenas, que frequentemente se afogam em piscinas, adolescentes apresentam maior ocorrência em águas naturais. O sexo masculino está associado a maior risco. Entre 0 e 19 anos, a taxa de afogamento fatal foi de 1,6 por 100.000 em meninos, contra 0,7 por 100.000 em meninas. Na adolescência, essa diferença torna-se ainda mais pronunciada. Desigualdades raciais e sociais O relatório destaca desigualdades persistentes e, em alguns contextos, crescentes. Entre 2018 e 2022, crianças Native Hawaiian/Other Pacific Islander apresentaram taxa de 2,4 por 100.000, e crianças negras, 1,9 por 100.000, comparadas a 1,0 por 100.000 entre crianças brancas. Em crianças negras de 10 a 14 anos, a taxa de afogamento fatal em piscinas foi 7,6 vezes maior que entre crianças brancas. O documento enfatiza que essas diferenças não decorrem de diferenças fisiológicas relacionadas à raça. São associadas a determinantes sociais e históricos, incluindo segregação, racismo, desigualdade de acesso a piscinas e programas de natação, diferenças intergeracionais na habilidade de nadar, experiências negativas anteriores e barreiras econômicas e culturais. Também existe maior risco em áreas rurais, relacionado ao acesso a águas abertas, menor disponibilidade de aulas de natação, riscos agrícolas, distância dos serviços de emergência e fatores socioeconômicos. Local do afogamento varia conforme a idade Existe uma associação clara entre idade e cenário do evento: Lactentes: banheiras são um local importante de afogamento. Lactentes maiores e crianças pequenas: piscinas, frequentemente residenciais, predominam. Adolescentes: rios, lagos, oceanos e outras águas naturais assumem maior importância. Atividades náuticas: acrescentam riscos relacionados à ausência de colete salva-vidas, consumo de álcool e falta de treinamento em segurança. Entre crianças menores de 15 anos, piscinas enterradas constituem o tipo mais frequente de piscina associado ao afogamento. Supervisão A supervisão adequada deve ser próxima, constante, atenta e competente. Competência do cuidador significa não apenas observar a criança, mas ser capaz de reconhecer uma pessoa em dificuldade, realizar um resgate seguro, retirar a vítima da água, iniciar os cuidados necessários, incluindo RCP quando indicada, e acionar os serviços de emergência. Celulares, conversas, atividades domésticas, cuidado simultâneo de várias crianças e reuniões sociais podem comprometer a vigilância. A presença de salva-vidas acrescenta uma camada importante de segurança, mas não substitui a supervisão do cuidador. Quando vários adultos estão presentes, o artigo destaca a estratégia do “water watcher”, com designação explícita de um adulto responsável exclusivamente pela vigilância das crianças na água. Barreiras físicas O cercamento de isolamento nos quatro lados da piscina, separando completamente a piscina da residência, constitui uma das medidas estruturais mais importantes. Em revisão citada pelo relatório, piscinas cercadas apresentaram redução significativa do risco de afogamento em comparação com piscinas sem cercamento (OR 0,27; IC95% 0,16–0,47). O cercamento ideal deve possuir portão com fechamento e travamento automáticos, ser não escalável e impedir o acesso independente de crianças pequenas. Piscinas portáteis ou infláveis também representam risco e não devem ser consideradas seguras simplesmente por apresentarem menor profundidade. Aulas de natação e competência aquática Aprender a nadar constitui uma importante camada de proteção, mas não torna uma criança “à prova de afogamento” e não elimina a necessidade de supervisão e barreiras. A competência aquática deve ser entendida de maneira mais ampla que simplesmente executar movimentos de natação. A capacidade da criança precisa ser considerada em relação ao ambiente aquático, distância, profundidade, temperatura, correnteza e outras condições. Os pais frequentemente superestimam a habilidade de seus filhos na água. Portanto, completar aulas de natação não deve resultar em redução da vigilância. Crianças com condições médicas Crianças com determinadas condições clínicas necessitam de avaliação individualizada. O risco de afogamento

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